Para lembrar Marilyn

13 fev

Símbolo sexual ou grande atriz? Não seria possível ser as duas coisas? Hoje e há muito ninguém tem dúvidas de que Marilyn Monroe (1926-1962) equacionou esta antítese, e, de sobra, sua imagem virou um ícone do Século XX, desses que se imprimem nas páginas da vida, para representar toda uma época – no seu caso, a época áurea do cinema.

Filha de mãe solteira, a menina Norma Jeanne Mortesen passou a infância e adolescência entre orfanatos e casas de parentes, e, aos 16 anos, para fugir dessa carência afetiva, casou com o primeiro namorado que apareceu.

Logo o jovem marido se mandaria para a Marinha e ela, para sobreviver, foi ser operária numa fábrica. Foi quando, por puro acaso, foi descoberta por um fotógrafo e, de repente, virou o que nunca pensara ser: “pin-up girl”, aquele tipo de sub-modelo que posa seminua para posters a serem afixados em paredes de oficinas e derivados.

Acontece que a 20th Century Fox descobriu a pin-up girl e daí a pouco Norma (agora com o nome artístico de Marilyn Monroe) estava fazendo pontas no cinema. De ponta em ponta (Conferir “O segredo das jóias”, “A malvada”, “Páginas da vida”, “Só a mulher peca”, “Travessuras de casados”…) terminou ganhando a condição de protagonista no drama de Henry Hathaway “Torrentes de paixão” (1953), ao lado de Joseph Cotten. Todo decorrido nas cataratas de Niágara, o filme não era grande coisa, mas serviu para deslanchar sua carreira de “bombshell”.

E logo os espectadores masculinos do mundo começaram a ficar irresistivelmente atraídos por essa loira manhosa, delicada e sensual que, com trejeitos eróticos, estava em películas excitantes como “Os homens preferem as louras” (1953), “Como agarrar um milionário” (1953), “O rio das almas perdidas” (1954), “O pecado mora ao lado” (1955). Neste último, a cena em que o vento do metrô levanta a sua saia tornou-se uma das imagens amadas de muita gente boa.

Casada e logo divorciada do jogador de beisebol Joe DiMaggio, e eansada de, para o público, ser apenas “sex appeal”, Marilyn deixou então Hollywood e mandou-se para Nova York, para estudar interpretação com o renomado Lee Strasberg, do Actors Studio. Lá fundou a sua própria companhia cinematográfica, a MM Productions, que produziu duas comédias que dariam o que falar: “Nunca fui santa” (Bus stop”, Joshua Logan, 1956) e “O príncipe encantado”, Laurence Olivier, 1957).

Ao fazer a Sugar Kane de “Quanto mais quente melhor” (Billy Wilder, 1958) Marilyn já era uma estrela de primeira grandeza e estava casada, desde 1956, com um intelectual sério e homem de teatro, Arthur Miller. Mas já era também uma personalidade em crise, frágil, insegura e descontrolada, que precisava tomar pílulas para dormir e outras para, de dia, se manter acordada; que nunca chegava em tempo ao set; que, nas filmagens, esquecia os trechos dos diálogos e atrasava a produção. O diretor Billy Wilder teve tanto problema com ela que, maldosamente, chegou a lhe fazer uma caricatura em “Se meu apartamento falasse” (1960): não sei se vocês lembram – é uma das garotas de programa levadas pelos colegas de trabalho ao apartamento do personagem de Jack Lemmon, uma loura cheia de requebros e manhas imitativos dos de Marilyn.

Com todos os problemas, Marilyn ainda foi a “Adorável pecadora” de George Cukor (1960), e, mais significativamente, Rosalyn, a sensível garota divorciada de um filme que foi especialmente escrito – pelo marido – para ela: dirigido pelo mestre John Huston, “Os desajustados” (“The misfits”, 1961) tinha Clark Gable e Montgomery Clift no elenco – filme sintomaticamente melancólico, sobre a caça de cavalos selvagens em extinção nas desoladas planícies de Nevada.

Com suposta overdose de barbitúricos, Marilyn foi, no dia 5 de agosto de 1962, encontrada morta em seu apartamento e sua última participação em cinema ficou inconclusa: “Something is got to give”, de George Cukor.

Em sua biografia, Tony Curtis conta que engravidou Marilyn durante as filmagens de “Quanto mais quente melhor” (ela, já casada com Miller, abortou), e este não foi o único escândalo na vida da atriz que, hoje todo mundo sabe, foi amante do presidente John F. Kennedy, caso alcovitado pelo ator e amigo comum, Peter Lawford, cuja residência foi, na ocasião, “grampeada” pelo temido diretor do FBI, J. Edgar Hoover. Personagem do atual filme de Clint Eastwood (Conferir “J. Edgar”, em cartaz) Hoover usou o grampo como trunfo para livrar-se de uma intenção de demissão por parte de Kennedy.

Enfim, uma vida repleta de escândalos, mas quem lembra isso? Hoje e sempre, para fãs de cinema no mundo todo, Marilyn Monroe é um mito cinematográfico, um dos maiores.

Em tempo: esta matéria foi escrita enquanto se aguarda a estreia local de “Sete dias com Marilyn” (“My week with Marilyn”), filme que narra os bastidores do citado “O príncipe encantado” (1957).

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6 Respostas to “Para lembrar Marilyn”

  1. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva fevereiro 13, 2012 às 8:57 pm #

    Prof. João Batista: o Henry Miller que é citado no artigo, foi também o autor de Sexus, Nexus e Plexus? Trópico de Capricórnio?

  2. João Batista de Brito fevereiro 13, 2012 às 10:25 pm #

    Prezado Dorivaldo, me desculpe o lapso: escrevi Henry Miller quando devia ter escrito Arthur Miller. Foi lapso mesmo que, engraçado ocorreu no texto, mas não nos tags (confira). De qualquer forma, agradeço muito e já corrigi.
    Sim, Henry é autor de “Sexus, nexus, plexus” e não tem nada a ver com Marilyn. Já Arthur é autor, entre outros de “A morte de um caixeiro viajante”.
    Muito obrigado.

  3. Silvia Alexander fevereiro 13, 2012 às 11:17 pm #

    Oi João, adorei a leitura da Marilyn, muitos a substimaram muito. Morando em Londres eu tive o previlégio de ter visto o film ‘A week with Marilyn’ e posso dizer que embora nao seja um filme de tema profundo voce fica fascinado pelos desempenhos de Michelle Williams como Marilyn e Kenneth Branagh como Oliver, eles sao sensasionais, fazendo vivos esses dois personagens em constante necessidade de atencao, eis motivo da falta de atracao quimica entre os dois que podemos sentir no filme ‘The Prince and the Showgirl’ que estavam filmando. É um periodo em que foi possivel a integracao de ídolos e pessoas comuns e conta a quase estoria de amor entre Marilyn e Colin Clark (a estoria é dele), terceiro assistente director do filme, ele filho do historiador de arte Kenneth Clark e irmao mais novo do famoso membro do parlamento ingles e do partido conservador Alan Clark; bem talvez não tanto pessoas comuns…. Como voce pode perceber gostei muito do filme. Espero que voce tambem goste. Abraços

    • João Batista de Brito fevereiro 14, 2012 às 1:02 pm #

      Silvia, bom que você gostou de My week with Marilyn; aqui a gente fica aguardando… Abraço.

  4. Ana Adelaide Peixoto fevereiro 14, 2012 às 9:36 am #

    João, adorei saber de tantos detalhes da vida dessa loira, que não foi nada burra, e que , junto com James Dean, tenho fascínio e hábito de comprar cartões com suas imagens. Outro dia vi um documentário na TV Cultura sobre Elia Kazan, e lá pelas tantas, o casamento de Marilyn com Arthur Miller e outros conflitos, foram comentados. Podia-se ver que era uma mulher atormentada e que buscava liberdade em todos sentidos; coisa que na época se misturava com loucura e vulgaridade. Também estou ansiosa pelo filme Uma semana com Marilyn, com a também maravilhosa Michelle Williams. Muito sugestivo todos esses títulos dos filmes que você cita. Assunto para outro artigo, aliás como você já tão bem escreveu, em outras publicações. beijos e parabéns prá você! cantado por Marilyn…..

    • João Batista de Brito fevereiro 14, 2012 às 1:05 pm #

      Thanks, Ana, e vamos aguardar o filme.
      Em tempo: vc já viu Um conto chinês? Veja novo post. Bjs de João.

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