Filmes para homens?

10 mar

Parece que, depois do movimento feminista, os homens, meio na defensiva, ficaram menos seguros em relação ao que é ser homem. Deve ser isso que justifica a existência, na internet, de sites como este “The art of manliness” – traduzindo aproximadamente: ´a arte da masculinidade´. Tentando resgatar o conceito do masculino essencial, o site é interessante e reúne aspectos do comportamento dos homens que seriam fundantes desse conceito.

Há, por exemplo, listas de coisas que os homens preferem – ou deveriam preferir – e uma delas se refere ao cinema.

“Cem filmes obrigatórios para homens” é uma das listas que o site apresenta, certamente títulos votados pelos organizadores e dispostos na ordem de importância, do primeiro ao centésimo. Sem dúvida, um excelente objeto de estudo para os interessados, como eu, em Estética da Recepção no cinema.

No geral, são filmes que se centram na figura masculina, porém, curiosamente, nem todos veiculam aquele velho estereótipo do homem como sendo um ser forte, corajoso, decidido, violento, possessivo, autoritário, briguento, etc.

Por motivo de espaço, o meu comentário aqui vai limitar-se à metade da lista – os cinqüenta primeiros filmes – e aos citá-los, mencionarei sempre o diretor e o ano de produção.

Embora nessa lista estejam filmes fundados na violência como “Rambo” (Ted Kotcheff, 1983), “Duro de matar” (John McTiernan, 1988) e “Operação dragão (Robert Clouse, 1973), nela também estão outros, bem diferentes, como: “Ladrões de bicicleta” (Vittorio De Sica, 1948), “Se meu apartamento falasse” (Billy Wilder, 1960), e “Gandhi” (Richard Attenborogh, 1982), ou seja, filmes em que o protagonista está a léguas de distância do estereótipo tradicional acima referido.

É verdade que um número expressivo desses “filmes masculinos” trata de esporte – suposta preferência masculina. Citando dentre os nossos cinquenta: “Momentos decisivos” (David Anspaugh, 1986), “Sorte no amor” (Ron Shelton, 1988), “Campo dos sonhos” (Phil Alden Robinson, 1989) “Rudy” (David Anspaugh, 1993), “A luta pela esperança” (Ron Howard, 2005), “Desafio à corrupção” (Robert Rossen, 1961)”

Também previsivelmente, outro número considerável versa sobre guerra, a saber: “Fugindo do inferno” (John Sturges, 1963), “Sob o domínio do mal” (John Frankenheimer, 1962), “Das boot” (Wolfgang Peterson, 1981), “Nada de novo no front” (Lewis Milestone, 1930). Vejam, porém que um filme como “Os melhores anos de nossas vidas” (William Wyler, 1946) é muito mais sobre os efeitos da guerra, sobretudo os psicológicos. E que “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), só é um filme de guerra até certo ponto.

Entre os preferidos dos homens não poderiam deixar de estar os westerns da vida, que, dos nossos cinquenta, são: “Butch Cassidy” (George Roy Hill, 1969), “O último pistoleiro” (Don Siegel, 1976), “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952), “Os imperdoáveis” (Clint Eastwwood, 1992) e “Bravura indômita” (Henry Hathaway, 1969).

O mesmo se diga dos policiais ou filme de suspense: Perseguidor implacável (Don Siegel, 1971), “Intriga internacional” (Alfred Hitchcock, 1959), “Pacto de sangue” (Billy Wilder, 1944), “Relíquia macabra” (John Huston, 1941), “Operação França” (William Friedkin, 1971), “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Bullit” (Peter Yates, 1968), “Um corpo que cai” (Alfred Hitchcock, 1958),

Surpreendentemente ou não, o gênero da ficção cientifica teve poucos preferidos: “Guerra nas estrelas” (George Lucas, 1977) e “O gigante de ferro” (Brad Bird, 1999). Os filmes históricos, ou épicos,  são três: “Gladiador” (Ridley Scott, 2000), “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “O último dos moicanos (Michael Mann, 1992). Dois filmes tratam do tema vida em prisão: “Um sonho de liberdade” (Frank Darabont, 1994) e “Rebeldia indomável” (Stuart Rosenberg, 1967). E três enfocam a luta contra o racismo, a saber, “Malcom X” (Spike Lee, 1992), “Mississipi em chamas” (Alan Parker, 1988) e “No calor da noite” (Norman Jewison, 1968). O único documentário da lista toda é “The endless Summer” (Bruce Brown, 1969), sobre a prática do surfe.

Por fim, outros filmes há que não se classificam por gêneros, a não ser no sentido amplo de serem dramas – familiares, sociais ou existenciais.  “Vidas sem rumo” (Francis F Coppola, 1983); “Mar adentro” (Alejandro Amenábar, 2004); “A mulher faz o homem” (Frank Capra, 1939); “Juventude transviada” (Nicholas Ray, 1955); “Vinhas da ira” (John Ford, 1940) e “Uma rua chamada pecado” (Elia Kazan, 1951).

Não estou citando os atores, mas dei-me ao trabalho de contar, e os campeões de recorrência são, de fato, previsíveis: na ordem, Clint Eastwood, Kevin Costner e John Wayne.

Feita a leitura da lista, acho que a vontade do leitor é perguntar o que é, afinal de contas, um filme para homens. E, por antítese inevitável, o que seria um filme para mulheres.

O critério do Site, como dito, é o filme ser a estória de um personagem do sexo masculino, mas, quem foi que disse que uma estória sobre um homem só interessa a homens? Ou que uma estória sobre uma mulher só interessaria a mulheres? Eu, que sou homem, me sentiria frustrado se me proibissem de ver ou de gostar de – para citar apenas filmes com nomes femininos -: “Rainha Cristina”, “Stella Dallas”, Ana Karenina, “Ninotchka”, Joana D´Arc”, “Noites de Cabíria”, “Gilda”, “Laura”, “Sabrina”, “Irma La douce”, “Xica da Silva”, Adele H”, “Júlia e Júlia”, e tantas outras.

Sem contar que, em muitos casos, fica difícil dizer quem é mais protagonista do que quem. Em “Casablanca” seria Rick ou Ilsa? Em “E o vento levou”, seria Scarlett ou Rhett? Em “A princesa e o plebeu” seria a princesa, ou o plebeu? Nas muitas adaptações de Shakespeare, o protagonista seria Romeu ou Julieta?

Tudo bem, não sou ingênuo e sei que, na prática, as pessoas fazem a separação, e que os produtores e realizadores, para garantir bilheteria, reforçam a dicotomia recepcional entre os sexos, pondo mais ação em filmes para homens, e mais sentimento em filmes para mulheres, assim como, em casa, os brinquedos que os pais dão aos filhos são carros e armas para os meninos e bonecas e casinhas para as meninas.

O engraçado é que existe um filme, aliás, não referido no Site em questão, em que essa dicotomia recepcional está abordada, e de modo muito curioso. Acho que vocês se recordam da comédia romântica com Tom Hanks e Mag Ryan “Sintonia de amor” (Nora Ephron, 1993): em uma determinada cena alguém (naturalmente uma mulher) começa a rememorar o melodrama de Leo McCarey “Tarde demais para esquecer” (1957) e, na descrição da cena final entre a aleijada Deborah Kerr e o pintor Cary Grant, simplesmente desaba em pranto, ao ponto de não poder continuar. Nesse momento, incomodado, alguém (naturalmente um homem) alega que “Tarde demais” é um filme para mulherzinha, e, imediatamente, passa a descrever a cena final em um “filme para homem”, cheio de ação e adrenalina, “Os doze condenados” (Robert Aldrich, 1967). Ora, no meio da descrição, o marmanjo se emociona e … desaba em pranto.

A idéia na cena de “Sintonia de amor” seria a de que, se filmes para homens e filmes para mulheres são diferentes, a diferença não residiria na reação do(da) espectador(a), aqui, o mesmo jorro de lágrimas. Mas, atenção, não esqueçamos que o autor do filme – de qualquer filme! – também tem sexo e o sentido da cena foi dado por ele/ela. No caso presente, trata-se de uma mulher (Nora Ephron), mas, poderia ter sido um homem que, faria talvez a encenação com outra conseqüência semântica.

E ficamos na estaca zero da discussão.

Ao leitor ou leitora desta matéria, sugiro que repasse com calma a lista desses filmes para homens, relembrando o que assistiu e com que interesse, e, a partir de seu próprio gosto ou tirocínio, decida sobre a pertinência de uma lista de filmes – a aqui exposta, ou qualquer outra – que divida a recepção a partir da diferença sexual entre os espectadores.

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8 Respostas to “Filmes para homens?”

  1. Ana Adelaide Peixoto março 10, 2012 às 9:51 pm #

    Há alguma coisa fora de ordem! Pois adoro Ladrão de Bicicleta, Butch Cassidy e Os Imperdoáveis, só para citar alguns. E de guerra então…Se é assim, convido esses homens que assistem à filmes para homens, para se deliciarem com filmes para mulheres à beira de um ataque de nervos!! ou não!! Bom domingo!

  2. Ana Adelaide Peixoto março 10, 2012 às 9:54 pm #

    Corrigindo: Ladrões de Bicicleta!

    Sim, João , tenho adorado os textos sobre os tantos filmes da cidade. Amei Hugo Cabret e tanto a aula de cinema de Martin Scorsese como a sua, já estão nos meus arquivos. Abraços.

  3. Solha março 11, 2012 às 2:00 pm #

    João, você, agora, me remeteu à minha infância. Eu tinha uma irmã casada – Wandyr (mãe da atriz Eliane Giardini) – e uma solteira, Wilma. (Todo mundo com W, lá em casa). Como nossa casa ficava num bairro sem energia elétrica, lá em Sorocaba, eu tinha – menino – de acompanhar a Wilma quando ela ia ao cinema. Ficava puto com uma coisa: ela escolhia, quase sempre, “´filmes de amor”, que eu abominava. Como vê, institivamente já sabíamos que havia produções pra macho e outro pra moças.

    • João Batista de Brito março 11, 2012 às 3:27 pm #

      Engraçado, Solha, acontecia coisa idêntica lá em casa (eu tinha cinco irmãs), mas, com uma diferença: eu adorava os melodramas que me levavam para ver. Acho que nunca fui lá muito macho!!! (risos).

  4. Margerete Almeida março 11, 2012 às 2:12 pm #

    Não tem jeito João. A cultura de gênero sempre vai delimitar aos homens os interesses pela “força bruta”, guerras, ação, ficção científica, inteligência, etc. E as mulheres destinadas aos melodramas, romances, choros e muita ladainha. Realmente este é um conceito que tá fora da ordem, mesmo que os os homens se identifiquem com as “narrativas de macho”, não podem esquecer que o tão “gosto pessoal” é uma construção social e histórica. Cinema não tem gênero, é liberdade e poesia e isso vale para qualquer um(a)!. Adorei a provocação e seus comentários sempre acima das dicotomias. Valeu !

    • João Batista de Brito março 11, 2012 às 3:35 pm #

      Brigado, Margarete.
      Pois é, existe coisa mais incômoda do que você assistir a – digamos – “Desencanto” com um grupo de amigos e depois da sessão alguém perguntar se não se trata de “um filme pra mulherzinha”? Isso me deixa puto!

  5. Glória Gama março 14, 2012 às 3:41 am #

    Essas questões de gênero são muito limitadas e chatas! Filmes bons são filmes bons e pronto! Não depende de estilo, feminismo, ideologia ou nada parecido. Não nos esqueçamos de algo muito importante na apreciação de qualquer obra de arte, qual seja, nossa visão é subjetiva, portanto, questionável.
    Eu adoro todos os westerns bons, e, por ser mulher, isso não limita minha visão, muito pelo contrário, a arte transcende o sexo ou gênero. Meu filme preferido é exatamente “Desencanto” que João Mencionou. Eu choro e me acabo e concordo com ele qdo diz que há pessoas que dizem tratar-se o mesmo de um filme para “mulherzinhas”. Ah, acabei de me lembrar, vou assistir a um dos meus preferidos agora: O poderoso chefão I. Já vi 800 vezes e para minha sorte, ganhei de presente de Johninho querido. Será que eu sou machão por isso?
    Qualquer leitura exageradamente subjetiva é chata! O que importa é o resultado estético!

  6. Ramon Arruda março 14, 2012 às 4:00 am #

    João, acho que a apreciação vinculada ao gênero é mitigada naqueles espectadores que têm um interesse pelo cinema que ultrapassa a média, como é o caso da maioria de seus leitores. No geral, porém, existe essa marcação, a meu ver, conforme você sugere. É uma pena. Por esse critério, tampouco eu, que tenho “Noites de Cabíria” como meu filme mais querido, sou lá tão macho.

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