A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.

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8 Respostas to “A separação”

  1. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva março 15, 2012 às 4:18 pm #

    A justiça ou a lei, onde quer que ela exista, se apresenta acima da realidade e dos homens. Não poderia ser descrita de maneira diferente em “A Separação”. O exemplo, nosso, mais recente de como atua a justiça, o famigerado podre poder, é o caso do jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal, do estado do Pará.
    Dorivaldo Carlos

  2. Solha março 16, 2012 às 12:38 am #

    A Separação é marcante por conta do elenco, João. Até a garotinha dá show de interpretação. Marca, também, pela exibição do engessamento à vida que é a religião quando é de fato levada a sério, como no Islã. O filme prende-nos com vigor até… o fim… que me decepcionou pela ocultação – para manter o interesse da narrativa – de um fato vital à compreensão dos fatos (v. não quer contar a história para seus leitores e não vou tirar sua razão). Pareceu-me um golpe menor do belo roteirista, o que foi uma pena.

  3. Matheus Andrade março 16, 2012 às 1:55 pm #

    João, nosso amigo João Carlos não deixaria de apontar para o espectador diegético nesse filme. Frente a moral e a ética iraniana (jurídica e religiosa), ficamos entre a cruz e a espada: ora torcemos pela verdade, ora pela mentira; ora pela honestidade, ora pela deslealdade; nos sentimos ora inocente, ora culpado diante das leis. Um jogo muito bom!

  4. Bertrand Lira março 19, 2012 às 3:35 am #

    João, a tua análise de A separação é bem esclarecedora. O que mais me intriga no filme é esse jogo de revelações que leva o espectador a participar da história temendo, criando expectativas e tentando advinhar revelaçoes futuras como reza todo manual de roteiro (Howard e Mabley em Teoria e prática do roteiro) trabalha bem isso. A cada nova revelação temos menos certeza do que poderá acontecer. E o final atesta bem isso.

  5. Margerete Almeida março 28, 2012 às 1:23 pm #

    João fiquei com raiva do roteirista no final do filme…por que a gente quer sempre tudo tão redondinho não é? Mas quero chamar atenção a delicadeza da relação do filho com o pai, numa época que a velhice está sendo menosprezada com o peso, o sacrifício de cuidar dos nossos, ainda mais doentes. A opção do marido pelo amor ao pai é tratada com a mesma intensidade da esposa querer uma vida melhor para filha fora daquele país. Valores e amores, bonito de se ver.

  6. Lula Mousinho abril 4, 2012 às 1:54 pm #

    João, essa convivência entre vozes é um dos grandes achados de teu texto, polifonia tão bem apanhada ainda quanto ao final aberto. Outras grandes sacadas são sobre o que Hollywood não faz mais e os dados de produção e de contexto político que podem ter interferido na construção, mas o que se tem é o resultado estético (ainda bem!, rsrsrs), essa delicadeza punk-rock que o filme constrói. Para minha memória, que é a de quem não merece o título de cinéfilo, vai uma lacuna: o sapato perdido é Filhos do paraíso, o tapete é Gabbeh, mas qual é mesmo o filme do jarro quebrado? No mais, se não está automatizado, cristalizado, não é griffe nada, é linhagem, e das boas! E vc mais uma vez alinhando profundidade teórica com graça textual, vixe. Abço,

    • João Batista de Brito abril 4, 2012 às 6:21 pm #

      Oi, Lula: o filme do jarro quebrado se chama “O jarro” (Ibrahim Foruzesh, 1992) e é a simples estória de um modesto professor e seus alunos, que, numa pobre escola rural no Irã, precisam resolver o problema do abastecimento local de água, pois o único container na escola, o tal jarro, apareceu um dia quebrado.

      • Lula Mousinho abril 23, 2012 às 11:37 pm #

        Anotado! E corrigindo: aliando profundidade teórica com graça textual.

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