Cinquentões em 2012

4 abr

A imprensa adora datas e, com certeza, aqui e acolá, vão aparecer, ao longo deste ano de 2012, matérias sobre um ou outro filme famoso que esteja completando cinquenta anos.

Aqui nos adiantamos e damos uma lista de títulos de filmes que estrearam em 1962, alguns, exemplares do vanguardismo da época; outros, produtos do classicismo tardio de Hollywood; outros ainda, nem uma coisa nem outra.

Vamos começar com o Brasil? Desse ano são: “O pagador de promessa”, de Anselmo Duarte, adaptação bem sucedida da peça de Dias Gomes, com o mérito de ter ganho a Palma de Ouro em Cannes; e “Os cafajestes”, de Ruy Guerra, que muita gente foi ver por causa da nudez de Norma Benghel, mas o filme tinha mais a mostrar. Ainda não era propriamente o Cinema Novo Brasileiro, mas, era quase…

Da América latina, não esqueçamos ainda: “O anjo exterminador” de Luis Buñuel, diretor espanhol em atuação no México. Surreal e inquietante, o filme mostrava um grupo de burgueses inexplicavelmente encurralados numa sala.

Das vanguardas europeias, lembremos “Jules et Jim” de François Truffaut, avatar da então efervescente Nouvelle Vague, sobre uma relação a três que termina em tragédia. Na Itália, devemos recordar “O eclipse” de Michelangelo Antonioni, o terceiro item de uma trilogia perturbadora sobre o tédio burguês (os outros foram: “A aventura” e “A noite”). Outros filmes importantes desse fértil ano italiano foram: o político “O bandido Giuliano” de Francesco Rosi, e o intimista “Dois destinos” de Valério Zurlini.

Ainda na Europa: da Grécia, “Electra” de Michael Cacoyannis, adaptando Eurípedes; da Inglaterra, não pode deixar de ser citada a superprodução de David Lean que levou quatro Oscar, “Lawrence da Arábia”, com Peter O´Toole no papel-título. E acrescentemos uma co-produção (vários países europeus) que Orson Welles dirigiu: “O processo”, com Anthony Perkins no papel do protagonista kafkiano.

Com isso, passamos a Hollywood, já não mais tão clássica, mas ainda dona do mercado mundial e lutando para assim permanecer. Dramas marcantes do ano são:

“O que aconteceu a Baby Jane?” de Robert Aldrich, filme que contrapunha duas atrizes rivais na vida real, Bette Davis e Joan Crawford, fazendo irmãs inimigas, numa situação de terror doméstico de arrepiar.

“O sol é para todos”, de Robert Mulligan, com Gregory Peck no papel do viúvo, com um casal de filhos pequenos, que é forçado a, profissionalmente, enfrentar o preconceito racial no sul americano – filme baseado no romance autobiográfico da escritora Harper Lee.

“Vício maldito”, de Blake Edwards, um dos filmes mais contundentes que se conhece sobre o tema do alcoolismo, com Jack Lemmon e Lee Remick como o casal que afunda de mãos dadas nos “dias de vinhos e rosas” (título original).

“Freud além da alma” de John Huston analisava uma certa fase da vida e carreira do psicanalista austríaco (Montgomery Clift), mostrando o percurso privado da descoberta do complexo de Édipo.

“Doce pássaro da juventude” de Richard Brooks, adaptação da peça de Tennessee Williams, uma estória de amor frustrado pelo preconceito social no Sul dos Estados Unidos, com Paul Newman e Geraldine Page.

“O milagre de Ana Sullivan” de Arthur Penn, narrava o caso verídico de uma menina autista que é curada por uma ousada fisioterapeuta (Anne Bancroft), quando, aos olhos dos pais, e de todos, tudo parecia perdido.

“O homem de Alcatraz” de John Frankenheimer descrevia a situação de um encarcerado (Burt Lancaster) que se redimia, na cela, criando pássaros e se tornando um célebre ornitólogo.

A esses dramas, acrescento dois westerns, o de um cineasta em começo de carreira, Sam Peckinpah, e outro em fim de carreira, John Ford. O filme de Peckinpah é “Pistoleiros ao entardecer”, e o de Ford, “O homem que matou o facínora”, ambos, sintomaticamente, estórias de cowboys maduros em vias de aposentadoria. Não esqueçamos que, em que pese ao surgimento de Peckinpah, nesses tempos, o western, enquanto gênero, já estava se encaminhando para os seus estertores.

E para fechar, um filme de guerra que teve grande aceitação de público: a superprodução de elenco monstruoso “O mais longo dos dias” (vários diretores), que reconstituía as operações aliadas de desembarque na Normandia, no fatídico dia D.

Evidentemente, a lista é bem maior, mas, fiquemos com estes vinte cinquentões que a gente não esquece.

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6 Respostas to “Cinquentões em 2012”

  1. Gilberto de Sousa Lucena abril 4, 2012 às 2:11 pm #

    Caro João:

    Não resisti em acrescentar mais um grande filme à sua maravilhosa relação de 1962. Trata-se de “Lolita”, do grandioso Stanley Kubrick. As atuações de James Mason e de Shelley Winters são inesquecíveis.

    A adaptação fílmica do livro de Vladimir Nabokov é, a meu ver, atual em face dos inúmeros casos de pedofilia divulgados pela imprensa em nossos dias.

    Um fraterno abraço.

    Gilberto

  2. Silvia Alexander abril 4, 2012 às 2:53 pm #

    Olá João

    Gostei muito desse aniversário de 50 anos desses films que muito marcaram na nossa vida de cinemaniacas e como o Gilberto acima não pude resistir e gostaria de acrescentar mais alguns que gosto mas que voce, por ser tantos na lista, não pode mencionar : ‘Os quatro cavaleiros do Apocalipse’ de Vincenti Minnelli com Glen Ford como um dos protagonistas; tambem o nosso querido 007 em ‘Dr. No’ com Sean Connery e a famosa Ursula Andress com aquele biquini…..e eu não poderia deixar de mencionar o film noir, categoria de filme que gosto mesmo, ‘Circulo do Medo’, O Cabo do Medo original com Gregory Peck, Robert Mitchum, Polly Bergen e Lori Martin…..
    Esse ano de 1962 tiveram muito bons filmes mesmo!

    Abraços

    Silvia

    • João Batista de Brito abril 4, 2012 às 5:49 pm #

      Silvia, veja minha resposta acima a Gilberto; por outro lado – quem sabe? – talvez seja o caso de estender o tamanho do post, aumentando a lista dos filmes, com as oportunas colaborações de vocês, leitores. Abraço de João.

  3. Ramon Arruda abril 4, 2012 às 3:17 pm #

    João, você acha que foi um ano especialmente prolífico, em vista de tantos filmes que se tornaram clássicos produzidos em 1962, ou haveria quantidade semelhante de excelentes filmes em uma listagem de outros anos próximos?

    • João Batista de Brito abril 4, 2012 às 6:04 pm #

      Não, Ramon, não acho que 1962 tenha sido um ano especial. Haveria, sim, uma quantidade semelhante de filmes interessantes em anos próximos. Provavelmente, especial era a época toda – começo dos anos sessenta – com o cruzamento de vanguardas (Nouvelle vague, Free Cinema, explosão do cinema italiano, etc) e os esforços homéricos de Hollywood em enfrentá-las, por aí….
      Aliás, sobre Hollywood, notar uma coisa: a cor no cinema existia desde 1934, o público estava habituado a ela, e no entanto, a maioria dos filmes citados na parte hollywoodiana da minha lista (e incluo, o “Lolita” citado por Gilberto e “O círculo do medo” citado por Silvia), foram rodados em preto e branco, um claro esforço de parecer “vanguarda” ou coisa do tipo… pasando por cima do gosto popular.

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