Talento visível

24 abr

Cinematográfico ou literário, todo gênero tem seus altos e baixos. O Horror Picture, por exemplo, que hoje parece em alta, mas amanhã pode baixar, teve um pique bem lá para trás, nos tempos mudos do Expressionismo alemão.

Em Hollywood, pode se dizer que esse pique se deu nos anos trinta, e um mestre incontestável da época foi o cineasta anglo-americano James Whale (1889-1957) que perpetrou alguns dos melhores filmes do gênero, como os clássicos “Frankenstein” (1931), “A casa sinistra” (1932) e “A noiva de Frankenstein” (1935).

Mas aqui quero tratar de um filme seu que me parece especial. Refiro-me a “O homem invisível” (“The invisible man”) que Whale, baseando-se livremente no livro de H. G. Wells, rodou em 33, pelo meu gosto, o melhor de sua carreira “horrorista”.

Não que seja um filme amedrontador. Afinal de contas, o seu enredo não envolve nada de sobrenatural propriamente dito.

É só que um cientista, o Dr Jack Griffin (papel de Claude Rains) descobre a fórmula química para uma criatura ficar invisível e a aplica a si mesmo. O resultado é um sucesso, com apenas um problema: o agora invisível Dr Griffin não consegue chegar a uma segunda e importante fórmula: a que reverta o processo e o torne visível de novo.

 Essa impossibilidade de voltar ao que era faz com que Griffin fuja dos seus, e, de óculos escuros, o rosto todo envolto em ataduras, o corpo todo agasalhado, se esconda numa pensão provinciana. Nem precisa dizer que os proprietários da pensão e seus freqüentadores desconfiam desse vulto misterioso que exige ficar sozinho em seu aposento.

Como previsto, Griffin se desentende com os proprietários, age violentamente e quando a polícia aparece, ele se vinga retirando, diante de todos, os óculos e as ataduras para mostrar (mostrar?)… uma cabeça – para os apavorados presentes – inexistente, gesto mais apavorante ainda porque acompanhado de uma horripilante gargalhada.

Frustrado pelo fracasso e irritado com a incompreensão alheia, a partir daí, digo, a partir dessa gargalhada, Griffin vai deixar de ser o sério, responsável e compenetrado cientista que sempre foi, para ser um ente mau, provocador de distúrbios e gerador dos mais traiçoeiros males. Completamente despido, e, portanto, invisível para todos – inclusive para nós, espectadores – escapa facilmente dos pensionistas e da polícia, e passa a atacar as pessoas na cidade, sobretudo as que tentam capturá-lo.

Como mostrar a invisibilidade na tela? Eis um paradoxo técnico que o filme enfrenta, e muito bem. Até hoje as trucagens são insuperáveis, levando a dois efeitos opostos, às vezes deliciosamente simultâneos: o terror e a comicidade.

Neste sentido não pode deixar de ser comentada a atuação de Claude Rains, quase sempre envolto em ataduras e só visível na cena final quando o seu personagem, afinal morto, reganha a visibilidade perdida.

Como muitos do gênero science-fiction, o filme parece conter aquela velha lição retrógrada de que brincar com o fogo da ciência é perigoso, porém, é tão bem construído que, no final, ninguém se lembra de lição nenhuma: fica apenas a vontade de ver de novo.

Dizem que o cineasta James Whale envelheceu renegando o seu passado “horrorista”, pelo qual, ironicamente todos queriam lembrá-lo. Nos anos quarenta tomou um rumo temático diferente e, aliás, parou de filmar em 1949, para dedicar-se exclusivamente à pintura.

Algo que Whale nunca renegou foi sua condição de homossexual. Numa época em que homossexualidade era civicamente inviável, viveu, sem quaisquer subterfúgios, de1930 a1952, com o seu assumido companheiro David Lewis. Sim, à boca miúda, era chamado de “a rainha de Hollywood”, mas, segundo consta, sem ser por isso rechaçado.

Whale morreu tragicamente, afogado na piscina de sua mansão de Santa Mônica, onde a essa altura residia sozinho. A causa da morte nunca ficou clara (ele tinha medo d´água), sabendo-se apenas que o jardineiro – um homem rude que lhe servira de modelo para a pintura – se tornara seu amante.

Aos interessados: a estória misteriosa dos últimos dias de vida de Whale está contada no filme “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), realização de 1998, de Bill Condon – infelizmente, um filme sem a dimensão do seu protagonista. De forma que, se você não conseguir assistir, não se incomode: não é nele que está a “visibilidade” do talento de James Whale, e sim neste “O homem invisível”, a propósito, disponível em DVD, como também na programação da televisão paga.

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Uma resposta to “Talento visível”

  1. vitoria lima abril 25, 2012 às 2:44 pm #

    E o homem era bonito, também, invisível ou não…

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