Cinemas com calçada

29 abr

Somente os muito jovens não sentem saudade dos cinemas com calçada. E não sentem porque não conheceram os cinemas de antigamente, do jeito que eram, com prédio próprio, arquitetura e decoração próprias, e, portanto, personalidade própria, situados numa dada rua da cidade, com endereço e tudo mais.

E não sabem como era legal fazer hora na frente do cinema, antes de a sessão começar, com as mais variadas segundas ou terceiras intenções, cubando a movimentação dos passantes na rua, ou, se fosse o caso, esperando sua vez de entrar, nas longas filas que se estendiam pelas… calçadas.

Hoje em dia, sub-compartimentos de um conjunto maior, as salas modernas de exibição são impessoais e carecem de personalidade. E calçadas de Shopping não têm graça nenhuma, isto para não dizer que são, muitas vezes, invisíveis aos frequentadores, que entram e saem direto pelo setor do estacionamento.

Pois bem, aos saudosistas como eu, está sendo dada uma esperança de voltarmos a ter cinemas com calçadas.

É que acabou de ser aprovada pelo Congresso e sancionada pela Presidenta Dilma Rousseff a lei 12.599/2012, que cria o Programa “Cinema perto de você”.

Pelo que entendi – talvez mais do título do programa que do teor da lei – o objetivo é estimular a criação de novos cinemas, fora do esquema Shopping Center conhecido. De forma que você possa ter um cinema em seu bairro, ou, se você mora no Interior do Estado, na sua cidade.

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Para tanto, várias medidas estão previstas, tais como: linhas de crédito de investimentos à implantação de novos complexos de exibição; redução em 30% dos custos para implantação de salas de cinema; desencargo de impostos federais à comercialização de equipamentos cinematográficos para a modernização das salas; digitalização de cinemas que, no país, ainda não possuem projeção digital, etc… Esta parte mais burocrática do projeto recebeu o nome especial de RECINE (Regime Especial de Tributação para o desenvolvimento da Atividade de Exibição Cinematográfica).

Mui oportunamente, o Programa inclui o projeto “Cinema da cidade”, que prevê a criação de salas a serem construídas, não apenas pela iniciativa privada, mas também pelo poder público, no caso, prefeituras e/ou estado. O que garante que o programa – como já posto pela minha interpretação – não vale somente para capitais brasileiras: estende-se a cidades do Interior que, como se sabe, há muito não sabem o que vem a ser um cinema, com ou sem calçada.

O Programa todo prioriza a exibição de filmes nacionais nas salas atendidas pelo Programa, o que não deixa de ser uma medida interessante para o eterno problema do cinema nacional: justamente a distribuição.

A assinatura da lei ocorreu em 23 de março próximo passado e, no entanto, não tenho visto o Programa suficientemente discutido na imprensa, o que não deixa de ser um pouco estranho, mas, de qualquer forma, ele está devidamente divulgado, em todos os seus detalhes, no “Portal da Cultura”, do Ministério da Cultura.

Que a lei é bem intencionada não há dúvidas: resta saber até que ponto o Programa é, na prática, viável. A opção pelo modelo digital de exibição parece ser um elemento facilitador, ao passo que a concorrência com o mercado já estabelecido constitui um problema a enfrentar. Neste aspecto, a alternativa de prefeituras e governos estaduais poderem participar – em princípio, setores sem interesse em lucro – desponta como um fator promissor. Ou não, se a conhecida índole burocratizante destes setores vier a prevalecer.

Eu sei, eu sei: a coisa toda pode não dar em nada, mas, de todo jeito, digamos que vale a esperança de no futuro se ter, falando em termos pessoenses, um cinema em – digamos – Intermares e outro no Valentina Figueiredo; ou, em termos estaduais, outros tantos, em – digamos – Catolé do Rocha, Sapé, Picuí, etc.

Para quem não tem cinema por perto, só pode ser isso o que significa a expressão que denomina o Programa, “Cinema Perto de Você”.

Exagerando no otimismo: um cinema na sua calçada.

Em tempo: as ilustrações são fotos de antigos cinemas de João Pessoa, na ordem: Plaza (bem antes da reforma de 1963), Rex, Brasil e Sto Antônio. Nem sempre se vêem as calçadas, mas elas existiam.

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6 Respostas to “Cinemas com calçada”

  1. Vitória Lima abril 29, 2012 às 10:15 pm #

    Isso é ótimo! Imagino que agora o Cine São José, de Campina Grande, é reativado, definitivamente.

  2. Simão Mairins maio 1, 2012 às 3:57 am #

    Não sou do tempo do cinema com calçada, professor, mas adoraria ter sido. Há uns meses fiz uma reportagem lá pro Cartaz de Cinema e, durante a apuração, me perdi horas e horas ouvindo as histórias de seu Isnard, um senhor lá de minha cidade, Salgueiro/PE, que foi dono do primeiro e único (hoje já extinto) cinema do lugar. Pena que não deu pra colocar tudo no texto. Mas dá pra sentir um pouco: http://www.cartazdecinema.com.br/?q=post&idpost=165

    P.S.: Se puder, dê uma olhada na carta de um espectador indignado com o fim do cinema, que colocamos lá, junto da reportagem.

    • João Batista de Brito maio 1, 2012 às 12:28 pm #

      Simão, acabo de ver/ler a reportagem com seu Isnard, Muito boa. E obrigado por indicarem meu blog no cartazdecinema (sobre os cinquentões do ano!).
      Abraço de João.

      • Simão Mairins maio 2, 2012 às 4:02 am #

        Ah, a gente é que agradece a visita! Abraço!

  3. Humberto Pedrosa Espinola maio 2, 2012 às 12:27 pm #

    João,
    acabo de deixar mais um comentário no artigo que fala dos filmes em preto e branco. É que assisti recentemente ao filme “Pleasantville”…
    Um grande abraço
    Humberto Espinola

    • João Batista de Brito maio 2, 2012 às 1:32 pm #

      Humberto, amigo, vi, sim, seu comentário no post “Preto e branco”, onde vc fala que viu o filme “A vida em preto e branco” (Pleasantville). Duas coisinhas: (1) no mesmo post, eu indiquei este filme a você; (2) este filme mereceu um ensaio que está neste blog; confira o post “Querida, cheguei”. È só escrever este título no setor para pesquisa e vc chega lá. Na verdade “Pleasantville” é um dos meus xodós.
      Grande abraço fraterno de João.

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