Grandes estórias

9 maio

Enquanto não começava o próximo filme, estava eu outro dia assistindo a uma entrevista de Antônio Fagundes a Marília Gabriela na televisão paga. O papo seguia mais ou menos previsível, até que a entrevistadora fez uma pergunta qualquer sobre o cinema nacional.

Nesse momento, entre indeciso e decidido, Fagundes deu uma olhadinha desconfiada em direção à câmera e foi dizendo que “muita gente não vai gostar do que vou dizer, mas…”

A partir daí, a entrevista me pegou e desisti do próximo filme. Não gravei-a e, portanto, não devo estar usando exatamente os mesmos termos de Fagundes, porém, o teor foi o que segue.

Segundo Fagundes o que está faltando ao cinema nacional são “grandes estórias”, e melhor, ou pior, isso seria culpa da influência que ainda hoje sofremos do chamado Cinema Novo Brasileiro, com aquela coisa de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, como se a estória a contar fosse de menor importância.

Como se sabe, o histórico movimento do Cinema Novo é coisa intocável para a maior parte da inteligentzia nacional e foi novidade ouvir um ator consagrado como Fagundes atacá-lo em público, e atacá-lo em um ponto nevrálgico.

Tal postura cinemanovista, segundo Fagundes, teria prejudicado a vocação essencial do cinema que é narrativa, a de contar estórias, e, no caso, grandes estórias, pois é de grandes estórias que o público gosta.

Por isso é que – sempre segundo Fagundes – apesar da intensidade da produção atual, estamos perdendo terreno para os argentinos que, estes sim, têm ultimamente contado, em suas telas, grandes e inspiradas estórias.

Fagundes não chegou a explicar o que entendia por “grandes estórias”, mas, de minha parte, tenho a impressão de que não precisava. Até porque grandes estórias são coisas que não se explicam: se escrevem e se filmam. Quem acompanha o cinema nacional dos últimos tempos acho que entendeu perfeitamente o que ele quis dizer com a expressão.

Não sei se vocês concordam, mas já faz algum tempo que os nossos filmes giram em torno de uma temática quase hegemônica, que é a da violência urbana, com todas as suas viciosas variações.

Alguns bons filmes foram rodados sobre o assunto, é verdade, porém, chega-se a um ponto de saturação em que a reiteração cansa e eventualmente aborrece.

Uma segunda temática recorrente, nos últimos tempos, talvez seja a dos conflitos conjugais, dramáticos ou cômicos

E relativamente pouca coisa aparece fora disso: tiroteios em favelas, envolvendo tráfico de drogas, de um lado, e brigas de casais, de outro.

Por sorte, de uns tempos para cá, os nossos cineastas começaram a pensar em música, e aí foi surgindo devagarzinho esta série de, ora documentários, ora ficções, sobre vultos de nossa MPB. Mas tudo indica que esta tendência é só uma pequena, e talvez passageira, variante.

Disse acima que não se explica o que sejam grandes estórias. É fato, mas, pode-se muito bem ilustrar.

Para citar dentro do próprio cinema brasileiro, me ocorrem três filmes do início do milênio: “Abril despedaçado” (2001), “Lavoura arcaica” (2001) e principalmente, “Desmundo” (2002), com ou sem coincidência, todos baseados em literatura, nacional ou não.

Ao ver estes filmes no começo da década passada, achei que tinha assistido a “grandes estórias” narradas em grandes filmes. E ainda acho. Fiquei empolgado e me animei a supor que outros filmes da chamada “Retomada” se encaminhariam para essa dimensão maior. Com a vantagem de estarem fora da hegemonia temática citada.

Hoje em dia se aplaude, e com razão, a qualidade técnica do recente cinema brasileiro, uma qualidade como nunca se viu na história da nossa cinematografia, e isso é muito bom. Mas tecnologia não é tudo…

Se Fagundes estiver certo, o que os nossos cineastas, produtores e demais envolvidos com o cinema nacional estão precisando fazer é uma boa “pausa para meditação” – uma sistemática, demorada e aguda cata às “grandes estórias”, onde quer que elas, latentes, estejam, pacientemente esperando para serem filmadas.

Onde ficaria esse limbo de criatividade, ou – para citar e adaptar um certo poeta muito inspirado – esse “cantochão dos dínamos profundos, que podendo mover milhões de filmes, jazem ainda na estática do nada”?

Seja onde for, um ponto de passagem seu são as cabeças dos nossos roteiristas de plantão.

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5 Respostas to “Grandes estórias”

  1. Solha maio 9, 2012 às 2:52 pm #

    O queixo do Fagundes vai cair quando assistir a O Som ao Redor e a Era uma vez Verônica, dos recifenses Kléber Mendonça Filho e Marcelo Gomes. Fiz justamente, neles, os papeis que, normalmente seriam dele. O de Kleber já obteve o Prêmio da Federação Internacional dos Críticos de Cinema, em Roter~dã e o Grande Prix do Fesrtival de Copenhague.

    • Valter maio 9, 2012 às 7:46 pm #

      E daí, dois grãos de areia na praia de Boa Viagem em Recife!!! E ainda precisa passar pela opinião dos brasileiros!

  2. Wellington Modesto maio 12, 2012 às 9:15 pm #

    Eu já acho que o Cinema Nacional carece de bons roteiros originais, sejam grandiosos ou não. A maioria dos filmes que vemos ou são adaptações literárias, biografias ou baseadas em fatos reais. Outro fator que me incomoda bastante são os diálogos ouvidos nos filmes que ou são pobres demais ou simplesmente inconvincentes. Cidade de Deus talvez possua os diálogos mais convincentes do Cinema Nacional mas sua influência acabou descambando em um empobrecimento das falas que mal chegam a ser superiores às de uma novela de TV

  3. maria do rosário de fátima araújo maio 18, 2012 às 2:02 pm #

    Prezado profº João Batista, bom dia. Parabéns pelo Blog, grande trabalho. Tomei conhecimento escutando a rádio CBN, o conheço do CCHLA, Anos 80, só que não fui aluna sua, mas conhecia tbm seu trabalho magnífico como crítico e autor dos excelentes textos sobre cinema. Estou vendo por etapa cada página; fico maravilhada com tanta simplicidade e forma elicidativa de falar sobre cada tema. Felicidades!

    • João Batista de Brito maio 18, 2012 às 2:14 pm #

      Obrigado, Maria do Rosário, e fique à vontade no blog. Muito brevemente, estarei postando um novo livro, “Emoção à flor da tela”, que estará disponível, no ícone INÉDITOS (topo da página). Grande abraço amigo de João.

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