Primeiro filme

15 maio

Qual foi o primeiro filme que você viu na vida? Eis uma pergunta que sempre circula entre os aficcionados da sétima arte.

Não sei se o leitor lembra o seu, mas o meu não foi nada marcante. Por ele, eu não teria tomado o rumo que tomei.

Sim, praticamente não lembro nada de “A mulher tigre”, só figuras descomunais se movendo a minha frente, tudo tão rápido que não dava para acompanhar a estória; além do mais, a sala quente do Cine São Pedro estava superlotada, com a criançada fazendo barulho e me desconcentrando. Era 1952 e eu tinha seis anos de idade.

Gravei o nome do filme menos por ter gostado e mais pelo orgulho de poder dizer, quando tocassem no assunto, que eu sabia o que era cinema, que já tinha ido a um.

Hoje entendo por que “A mulher tigre” não me atraiu. Consultando as fontes devidas, vejo que se tratava de um seriado e não de um filme inteiriço. O que vi naquela tarde quente no Cine São Pedro foi só um episódio de uma história maior cujo começo eu desconhecia. O seriado todo tinha – me garante o IMDB – 196 horas, divididas em 12 partes, estas exibidas em sessões diferentes nas salas do mundo. Uma produção da Republic, o filme foi dirigido em 1944 por Spencer Gordon Bennet, velho cineasta do tempo do cinema mudo.

Para minha surpresa, constato que “A mulher tigre” tinha Rocky Lane no elenco, então ainda chamado de Allan Lane. Na ocasião, mesmo se tivesse lido os créditos, eu nem saberia quem era, mas não iria demorar para o consumo de gibis fazer parte das minhas atividades de garoto, e Rocky Lane foi um dos heróis dessas revistas, com a mesma dimensão mágica de Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Bill Eliot, Buffalo Bill ou David Crocket.

Nessa época de “A mulher tigre”, morávamos na Rua Amaro Coutinho, aquela rua estreita, paralela à Beaurepaire Rouhen, bem perto da Praça da Pedra, e o São Pedro era o cinema mais próximo de casa. Quem me levou foi uma irmã mais velha, ainda hoje me indago como, pois a família, então, vivia em situação financeira tão difícil que dois ingressos de cinema deviam pesar nas despesas: sustentando oito filhos, o nosso pai mantinha um pequeno bar, “Meu Cantinho”, já nas proximidades do Quartel da Polícia.

De qualquer modo, foi a minha única vez no Cine São Pedro. Logo nos mudaríamos para o remoto bairro de Jaguaribe, na época um fim de mundo para quem vinha do centro de João Pessoa. Mais tarde é que descobriria, encantado, que este bairro de ruas descalças, chafarizes nas esquinas, açougues com bandeirinhas vermelhas içadas, e tantas casinhas de palha, exibia nada menos que três cinemas.

Voltando a “A mulher tigre”, ao contrário da maioria dos amigos com a minha faixa etária, nunca gostei de seriados, e posso dizer que nunca acompanhei nenhum. “A deusa de Joba”, “Dick Tracy”, “Os tambores de Fu Manchu”, sei lá o que mais – só conheço essas coisas de ouvir falar, e se porventura vi algum de seus episódios, não me interessei e esqueci.

Desde sempre, me apeguei ao filme inteiriço, aquele que nos conta uma estória com começo, meio e fim. Como o que diz Poe do conto literário, acho que um filme é um universo íntegro, coerente, coeso, onde cada pequena parte reflete o todo e vice-versa. Essa totalidade igual a si mesma o arrebata e você se entrega a ela, até o final, sem chances de intervalos ou interrupções. Ao lhe devolver ao real, finda a projeção, a mágica já deu-se, e, com ou sem catarse, a sua experiência estética está concluída, ela também inteiriça.

A ironia é que, só gostando de filmes assim, inteiriços, não consigo me lembrar qual foi o primeiro que vi. Calculo que foi num dos cinemas de Jaguaribe, mas, a memória me trai e, ao olhar para trás, já me vejo enfiado nas cadeiras duras dos três cinemas do bairro, assistindo a um filme após o outro, como se nunca tivesse havido uma primeira vez.

De qualquer forma, não vou fugir da verdade – o meu primeiro contato com o cinema foi “A mulher tigre” que, em episódios ou por inteiro, gostaria de (re)ver e – quem sabe? – reencontrar aquele garotinho da Rua Amaro Coutinho, levado pela mão generosa da irmã.

E você, leitor, qual foi o seu primeiro filme e que importância tem ele na sua vida?

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13 Respostas to “Primeiro filme”

  1. Humberto de Almeida maio 15, 2012 às 6:35 pm #

    Meu amigo filho de Ruy e Dona Maria,

    Seria coincidência? Acredito que não. Lugar comum. Mas, confesso que há muito sem muito a perguntar por aí, fiz essa mesma pergunta e respondi. O textinho tem uns dois ou três anos. Agora, achei legal a volta deles. O texto e o assunto. Segue um trechinho do textinho que outro dia cometi, respondendo a pergunta do texto. Ah, esse o teu.

    “O primeiro filme a que assisti, dessa vez a memória não me prega mais uma de suas costumeiras peças sem graça e vazias de personagens, foi Tarzan, o Magnífico. O filme trazia no papel de Tarzan (e tinha outros ?!) o canastrão – até que era bom no papel – Gordon Scott. O cinema? O Santo Antonio do meu bairro Jaguaribe!

    O filme, sem a ajuda luxuosa do Google, pois sei de cor e sem salto alto é de 1960. E claro que eu torcia por Tarzan! Porém, depois do aparecimento da gostosa Jane, sem nem um remorso, mudei de torcida: fiquei com Jane! Na ausência dela? Ora, João, torcia por Chita! A macaquinha quebra-galho do Tarzan, e que depois se mudaria com mala e cuia para O Planeta dos Macacos!”.

    Putabraço – 1 berto de Almeida

    • João Batista de Brito maio 16, 2012 às 11:37 am #

      Oi, Beto, que bom que você deu as caras. Também curti Tarzan, mas só que mais pra trás – o meu favorito foi Johnnny Weissmuller. Abraçao de JBB.

  2. vitoria lima maio 15, 2012 às 6:54 pm #

    Lembro não, João. Deve ter sido no Cine Capitólio ou no Cine Babilônia, mas do título não me lembro

    • João Batista de Brito maio 16, 2012 às 11:39 am #

      Vic, já que você não lembra o primeiro filme que viu, sugiro pensar no primeiro que marcou. bjs de jbb.

  3. Matheus Andrade maio 15, 2012 às 11:57 pm #

    João, essa pergunta é ótima!
    Lembro de um filme chamado ‘O império do sol’, de 1987 (se não me engano). Foi marcante porque, além de ser o primeiro filme que me causou um impacto a la Poe, foi o lançamento da tecnologia do videocassete Toshiba 4 cabeças. E meu pai adquiriu um, em Manaus, na zona franca. Na ocasião de inauguração, até meus primos vieram para ver o filme – ou o videocassete… não sei!
    Cinema eu acho que foi algo dos trapalhões, no cine plaza, com as filas enormes. O difícil é saber o filme!!

    abç

    • João Batista de Brito maio 16, 2012 às 11:42 am #

      Matheus, repito a sugestão feita a Vitória: que tal pensar no primeiro filme que fez efeito? Ou foi mesmo “O império do sol”? Abç de jbb.

  4. Clelia Barqueta maio 17, 2012 às 3:20 pm #

    João, parabéns pelas críticas. Todas. É um prazer. Adorei o comentário so bre os cinemas nas calçadas. Seria muito bom se dessem certo. O cine Atibaia ainda funciona. Por sorte é mantido pela prefeitura. Minha mãe assiste os filmes lá. O som é tétrico, mas como ela tem problema de audiçäo, não se importa. Só quer saber se o filme é legendado ou não, mas para quem a acompanha ao cinema é uma tortura. Seria muito bom se esses novos ci nemas de calçada respeitassem novas técnicas. Abraço.
    Clelia

    • João Batista de Brito maio 17, 2012 às 8:42 pm #

      Pois é, Clélia, vamos torcer pelo funcionmaneto da tal lei CINEMA PERTO DE VOCÊ… Beijos de João.

  5. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva maio 17, 2012 às 9:11 pm #

    Não tenho como fugir da lembrança do primeiro filme: “King-Kong”, em preto e branco. Não assisti o filme até o final, pois na cena em que o gorila é atacado pela força aérea americana, fiquei assustado, peguei meu pai pela mão e sai deseperado do cinema, o “Cine Pulga”,no bairro de José Pinheiro. O meu pai ficou puto com esta atitude, claro, fiz com que ele gastasse 10 cruzeiro, aquele que tem a esfige do Getúlio Vargas, em vão. Bom, eu tinha apenas nove anos, em 1964. Prenúncio e preparação para o monstro maior, “A Ditadura Militar”, e real? Eu vou lá saber, sei que na época fui frouxo.

    • João Batista de Brito maio 18, 2012 às 12:25 am #

      Dorivaldo, tomara que mais pessoas deixem comentários sobre os seus primeiros filmes: se chegasse a um número razoável de depoimentos, gostaria de escrever uma matéria sobre. Sua estória é ótima, como também a interpretação dela. Abraço de João.

  6. Ana Adelaide Peixoto maio 21, 2012 às 4:52 pm #

    Oi João, Gostei tanto do texto que me inspirei a escrever o meu próprio, que publico amanhã no wscom. O meu primeiro filme que lembre foi Ben Hur – com lancheira no colo, para aguentar a duração de 3 horas, e os suspiros para Charleston Herston??? no topo dos meus 10 anos. No Rex. Claro que antes teve Tarzan e Tom e Jerry??? talvez! Um belo percurso esse, de nos lembrar do primeiro escurinho do cinema. Abraços!

  7. Ramon Arruda junho 3, 2012 às 6:01 am #

    Como Matheus Andrade indicou, para a gente de minha geração, nascida na década de 1980, o primeiro filme visto provavelmente veio pelo tubo de raios catódicos. Em nosso caso, a primeira mirada de um filme não coincidiu com a primeira experiência com o escurinho do cinema. Além do mais, a gente deve ter visto imagem em movimento desde antes de aprender a falar e de constituir uma memória consciente. O impacto do primeiro filme, com tudo isso, não poderia ser o mesmo. Os primeiros filmes a que assisti no cinema foram, provavelmente, dos Trapalhões ou de Xuxa, mas não saberia dizer qual deles foi o primeiro, porque, creio eu, eram meio parecidos demais. Mas, daquela época, lembro-me, ainda hoje, de ter visto “Uma cilada para Roger Rabbit” e “Os gremlins”. O coelho me marcou mais.

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