Cenas de mesa e o código Da Vinci

22 maio

Não sei se vocês já notaram, mas, uma cena em cinema que mostra quatro ou um número maior de pessoas sentadas em torno de uma mesa, geralmente faz essas pessoas ocuparem três lados da mesa, e deixa um – para o espectador, o lado frontal – sem ninguém. São cadeiras vazias, ou pior, inexistentes.

Por quê? De ordem técnica, o motivo é óbvio: este terceiro lado vazio da mesa é o lugar da câmera, que não quer focalizar as costas de ninguém.

Confesso que essas cenas sempre me incomodaram, pois, na vida real, dificilmente as pessoas se distribuiriam desta maneira assimétrica e improvável em torno de uma mesa, e, no entanto, os filmes driblam essa verdade sem, aparentemente, quaisquer preocupações de não estarem sendo realistas. E vejam que o realismo é um dos códigos mais fortes da arte cinematográfica.

Os cineastas apelam para esse expediente por pura necessidade de enquadrar, e, com certeza, os seus fotógrafos agradecem a providência, a qual facilita incrivelmente a iluminação, o manuseio de câmera e tudo mais. É provável que poucos deles lembrem, ou mesmo saibam, que esta lição o cinema a aprendeu da pintura.

Sim, antiga, a lição vem da pintura renascentista. Lembrem da “Última ceia” de Leonardo da Vinci e constatem como, em uma mesa enorme, extremamente comprida, os apóstolos ocupam os três lados e, inexplicavelmente, deixam um, justamente o frontal, completamente vazio, livre para o olho do pintor que, evidentemente, não quis pintar costas. Os apóstolos gesticulam e falam ao natural, mas isso não adianta muito como realismo porque, da parte do pintor, a escolha das posições já fora artificial.

Outros pintores também retrataram a santa ceia, inclusive usando o mesmo expediente de Da Vinci, mas, tomo aqui a sua “Última ceia” como o protótipo da – digamos – ´situação de mesa´, que, pela sua radicalidade, virou o código inspirador de todos os enquadramentos cinematográficos para a mesma situação: ´o código Da Vinci´, com um pouco de ironia, chamemo-lo assim.

Esse “código Da Vinci” valeu para as artes plásticas do mundo inteiro, e nem o cinema – repito, uma arte eminentemente realista – escapou dele. Parece que algum filme antigo – provavelmente do período mudo – fez recurso a ele, e aí, os outros o seguiram, achando que os espectadores aceitariam essa circunstancial artificialidade como uma espécie de licença poética. De qualquer forma foi tão usado que virou convenção.

E vejam que, diferentemente da pintura, o cinema tem meios de superar esse código. É claro que se a mesa é pequena e os participantes do encontro são apenas duas pessoas, a coisa toda fica mais fácil de fazer. Uma alternativa é pôr os atores um defronte ao outro e filmar o diálogo em “campo-contra-campo”, ou seja, mostrando-se o rosto de cada um em tomadas intercaladas. A outra alternativa é abrir mais o quadro e filmar o conjunto, mesa mais os dois atores, estes de perfil. Ainda uma terceira alternativa, na verdade, a mais usada, é revezar os dois modos de enquadramento.

Duas outras possibilidades são: (1) colocar a câmera a certa eqüidistância dos dois personagens e fazer “chicote”, isto é, mover o eixo da câmera de um para outro em velocidade e de acordo com a emissão dos diálogos; (2) circundar a mesa com trilhos e deslocar a câmera lentamente, em sentido centrípeto.

A dificuldade aumenta na proporção direta do aumento do tamanho da mesa e do número de personagens, até porque, as sugestões de enquadramento acima sugeridas não são mais viáveis – ao menos todas, não. Neste caso, a primeira tomada pode ser de conjunto, mostrando a sala inteira, talvez de uma certa distância, em ângulo inclinado, ou não. Mas a partir, daí, e na medida em que os closes dos rostos se façam necessários para o acompanhamento do drama, os problemas se agigantam.

Cenas de mesa??? Pois é, questão pequena, mas importante para quem está interessado em saber como o cinema se expressa.

Obviamente, seria absurdo se um cineasta decidisse seguir ao pé da letra ´o código Da Vinci´ e eliminasse, numa grande mesa, todas as cadeiras do lado que pertence à perspectiva do espectador.

Enfim, sugiro que o leitor recorde, ou melhor ainda, reveja, cenas de mesas nos filmes que já conhece e, prestando atenção às cadeiras inexplicavelmente vazias ou inexistentes, constate o grau de ´falsidade´ dessas encenações. Nestes casos, interessante seria observar como os grandes cineastas do passado encontraram soluções, convincentes ou não, para uma situação tão difícil de filmar.

Não tenho espaço para relacionar tantas cenas de mesas, mas lembro aqui um caso clássico de superação do ´código Da Vinci´ que me parece exemplar. Está em “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958: veja ilustração acima), filme todo rodado em torno de uma mesa – uma obra prima cujos ensinamentos, naturalmente, vão muito além da arte do enquadramento cinematográfico.

Em tempo:

(1) esta matéria é dedicada a Flávio Tavares.

(2) a ilustração abaixo é do filme “Do mundo nada se leva” (Capra, 1938)

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13 Respostas to “Cenas de mesa e o código Da Vinci”

  1. Jorge H. E. Silva maio 22, 2012 às 4:02 pm #

    Caro João: ótimo tema, ótimo artigo. Remete, talvez, ao tema do narrador em literatura. Este é meu primeiro comentário, mas pensei ser necessário. Você me dá muito trabalho (muitos filmes difíceis de encontrar, “exigências à memória e ela teima em se fechar”) mas é muito gratificante encontrar as “novas novidades” de seu blog.
    Abraços! jorge

  2. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva maio 22, 2012 às 9:11 pm #

    Prof. João Batista: as cadeiras vazias do lado frontal não teria alguma coisa a ver com metaliguagem, em outras palavras, elas estariam ocupadas imaginariamente pelos espectadores no cinema, uma forma real de interagir com o “real” do que foi filmado. Posso estar enganado,neste caso,corrija-me

    • João Batista de Brito maio 23, 2012 às 1:04 pm #

      Dorivaldo, acho que depende um pouco do filme e de como o cineasta encenou a situação de mesa. Em alguns, pode haver mesmo – como vc sugere – uma representação do espectador nas cadeiras vazias ou inexistente, só não acho que seja sempre. No geral, creio que tem mais a ver com aquele conceito teórico de “discurso” em oposição a “diegese”. Diegese no sentido de o universo ficcional que o filme cria, e discurso como a forma como esse universo é criado… Mas esta é uma longa história que não cabe aqui prolongar.

  3. Jotahah! Assunção maio 23, 2012 às 5:03 am #

    Olá, meu caro João! Excelente e oportuna matéria, tanto pelo aproach conceitual quanto didático. A sensação que sempre tenho nessas situações de enquadramento é de que alguém faltou ou foram vetadas de última hora ao festim ou seja lá o que for o motivo da reunião.
    Abraço bom,
    jotahah!

  4. Jotahah! Assunção maio 23, 2012 às 5:21 am #

    Sobre o comentário anterior (do Dorivaldo Vieira), acho que a nota procede, não como intenção a priori, mas como efeito visual e semântico da solução de enquadramento.
    Caso esteja equivocado, benvindo o puxão de orelha.
    jotahah!

  5. Simão Mairins maio 23, 2012 às 4:56 pm #

    João, quando vi a chamada do texto lembrei instantaneamente da primeira cena de Cães de Aluguel (1992), de Tarantino. Nela, os homens tomam café sentados à volta de uma mesa e o diretor não teve nenhuma resistência a mostrar as costas de alguns. Não há espaços vazios. Acho um bom exemplo para somarmos à discussão. Vejam:

  6. renatofelix maio 26, 2012 às 5:40 pm #

    Acho que o tempo, certas barreiras como essa vão caindo. É como o medo que tinham do close e Griffith fez e provou que o espectador não ia se incomodar com o “pulo” na cena. Uma cena de mesa que gosto particularmente, por exemplo, é a do almoço de Mia Farrow, Dianne Wiest e Barbara Hershey em “Hannah e Suas Irmãs”. Uma vez sentadas, Woody Allen faz a câmera circular em volta da mesa, às vezes passando pelas costas de uma atriz e centrada na outra, do outro lado da mesa. Colocar a câmera em movimento resolveu o problema.

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