Falava cinema

7 jun

Faz exatamente cinquenta anos que se despediu de nós um dos maiores cineastas de todos os tempos, o húngaro-americano Michael Curtiz (1888-1962).

Mas, antes de prosseguir, indago-me se o leitor sabe quem foi Michael Curtiz. Na dúvida, imagino três alternativas, que cito na ordem do mais ao menos provável: (1) o leitor nunca ouviu falar dele; (2) o leitor o associa vagamente a “Casablanca”; (3) o leitor sabe muito bem de quem falo.

A indagação faz sentido, pois Michael Curtiz – ao contrário de cineastas como Hitchcock, Orson Welles ou Chaplin – fez parte daquele rol de “realizadores invisíveis”, digo, aqueles cuja aparição pública se limitava aos créditos dos filmes exibidos, e nada mais, e isso, num tempo em que quase ninguém prestava atenção ao item ´diretor´.

Talentoso, dedicado, responsável e prolífero, Curtiz nunca superstimou a tarefa de dirigir, que, afinal, não valia se não fosse com a colaboração de tantos outros profissionais, tão importantes quanto. Cinema era equipe e o bom resultado, ele sabia, dependia de todos, do mais simples eletricista ao produtor.

O que não significava que não fosse exigente e autoritário no set, às vezes até grosseiro, pois, ao contrário das outras tarefas, a de dirigir era, sim, a mais árdua e estafante, na medida em que implicava o controle de tudo e todos e, no caso de o resultado não sair satisfatório, era sobre o diretor que recairiam as acusações dos estúdios.

Sempre assoberbado (houve ocasiões em que dirigiu quatro filmes em um mesmo ano), seu modo de trabalhar ficou caracterizado pela celeridade, fator que terminou integrando o seu estilo. Com efeito, defendia a ideia de que certos problemas de filmagens – às vezes sutilezas psicológicas ou detalhes narrativos, essenciais a outros realizadores – podiam ser driblados pela velocidade na construção do filme. Em outros diretores, isto seria sinônimo de negligência. Em Curtiz, não – era parte de seu estilo e, aliás, correspondia a um tipo de recepção, a clássica.

 Mas, comecemos do começo. Mihaly Kertész nasceu em Budapeste, ao tempo do antigo império austro-húngaro, e, filho de família rica, diplomou-se pela Escola de Arte Dramática. Cedo entrou para o mundo do cinema: aos vinte e quatro anos já estava na direção cinematográfica e, enquanto em seu país, chegou a rodar 38 películas.

Pressionado por questões políticas, foi trabalhar em Viena, e depois em Berlim, Roma e Londres. A atração pela pulsante indústria cinematográfica americana foi inevitável e, em 1926, já vamos encontrá-loem plena Hollywood, devidamente contratado pelos irmãos Warner, com quem trabalharia até 1953.

Na Warner Brothers fez os seus melhores filmes, no meio dos quais está o sucesso de “Casablanca” (1942). Foram suas aventuras de capa e espada que engendraram o mito Errol Flynn, e outro ator que ajudou a promover foi Humphrey Bogart.

Sua produção européia é mal conhecida, mas, não resta dúvidas de que ao chegar na Meca do Cinema já era plenamente mestre em seu métier. Ao todo deve ter dirigido mais de 150 filmes, abrangendo praticamente todos os gêneros, mas lembremos aqui os mais conhecidos.

Dos anos trinta, ninguém esquece : “Capitão Blood” (1933), “A carga de brigada ligeira” (1936), “As aventuras de Robin Hood” (1938), “Anjos de cara suja” (1938), “Quatro filhas” (1938), “Uma cidade surge” (1939), “Meu reino por um amor” (1939).

Dos quarenta, vale citar, além de “Casablanca”: “A estrada de Santa Fé” (1940), “Caravana de ouro” (1940), “O gavião do mar” (1940), “A canção da vitória” (1942), “Missão em Moscou” (1943), “Alma em suplício” (1945), “Canção inesquecível” (1946), “Nossa vida com papai” (1947). Do ano de 1950 são “Redenção sangrenta” e “Êxito fugaz”.

Dizem as más línguas que Curtiz foi diretor de um só estúdio: ao deixar a Warner, em 53, parece que perdeu a mão e não conseguiu mais a qualidade de antes. De todo jeito, mencionemos alguns dos filmes que fez para a Fox e Paramount, dirigindo astros de renome: Bing Crosby no musical “Natal branco” (1954), Gene Tierney no histórico “O egípcio”, Elvis Presley no noir “Balada sangrenta” 1958) e John Wayne no western “Os comancheros” (1961), sua despedida.

Além do Oscar de “Casablanca”, Curtiz teve mais quatro indicações na categoria de diretor, e pelo menos dois de seus atores foram premiados pela Academia: James Cagney na frenética e delirante comédia musical “A canção da vitória” (“Yankee doodle dandy”) e Joan Crawford no pesado melodrama “Almas em suplício” (“Mildred Pierce”). Aliás, dois filmes que ilustram bem a versatilidade de Curtiz.

Uma curiosidade sobre Curtiz é que a sua figura fez parte do anedotário hollywoodiano de modo bem especial. Foi um grande cineasta, mas uma pessoa sem vocação para línguas, e seu inglês precário lhe valeu inúmeros desastrosos mal-entendidos que atrapalhavam as filmagens, mal-entendidos estes naturalmente perpetuados pelo espírito mexeriqueiro da Meca.

Por exemplo, no set de um de seus filmes, o pessoal da produção foi obrigado a providenciar, sob suas ordens, um cachorrinho poodle, quando na verdade, o que ele queria – descobriu-se depois – era somente uma pequena poça d´água (´a puddle´). Mais grave foi quando a equipe de produção despendeu esforços homéricos no sentido de conseguir 30 macacos, para descobrir, desanimada, que o que ele estava pedindo era apenas 30 extras vestidos como monjes. Obviamente, lhe escapava a sutil diferença fonética entre as palavras “monks” (´monjes´) e “monkeys” (´macacos´).

A drástica notoriedade de seu inglês macarrônico foi tão longe que o ator David Niven chegou a dar a sua autobiografia de 1975 o título de umas das tiradas de Curtiz, “Bring on the empty horses” (´tragam os cavalos vazios´), frase que nada tinha de surrealista: era apenas o seu pedido, à produção, para que se trouxessem, ao local de filmagem, os cavalos sem cavaleiros.

Gracejos à parte, Michael Curtiz fica, não tenhamos dúvidas, como um dos pilares desse templo que se chama Hollywood clássica. Um que, como tantos, veio de tão longe. Não aprendeu a língua, mas não precisava: falava cinema.

Em tempo: na foto abaixo, Michael Curtiz dirigindo Bogart e Bergman em “Casablanca”.

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4 Respostas to “Falava cinema”

  1. Bertrand Lira junho 7, 2012 às 9:58 pm #

    Legal esse resgate histórico. Não associava o nome de Curtiz aos filmes de capa e espada, mas somente à Casablanca.

  2. 1 berto de almeida junho 8, 2012 às 12:11 pm #

    amigo-jauaribense,

    li om avidez. sou fã de curtiz,. e não é só pelo casablanca. o texto, porém, foi de um final felicíssimo. só por ele, voltei ao começo: “Não aprendeu a língua, mas não precisava: falava cinema”! disse tudo! não faltou nada!

    em tempo: li no correio da artes, mas aqui voltei a ler como se fosse a primeira vez.

    putabraço – 1 berto de almeida

  3. Silvia Alexander junho 8, 2012 às 1:08 pm #

    Realmente João, diretores naquela época ficavam no background, mas, não deixavam de criar muitas vezes obras primas.
    Nem me lemrava mais de Michael Curtis e de seus filmes, é maravilhoso ler seus artigos João, abrindo portas do passado quando vc fala desses personagens do cinema que vc não deixa, com razão, serem esquecidos ou ignorados.
    E falando de Curtis, ele dirigiu muitos dos filmes que me lembro passava na ‘sessão da tarde’ com Errol Flynn e sua espada, quantas fantasias eu tive!!!!
    Porém o filme mais famoso dele foi claro ‘Casablanca’, com a incrível Ingrid Bergman e Humfrey Bogart, não quero ofender ninguem, mas não sou muito fã dele, sempre achei-o meio insípido…..
    Mas dos filmes de Curtis que eu gosto mais: ‘Mildred Pierce’ (Alma em Suplício) com a brilhante interpretação da Joan Crawford e tambem Ann Blyth no papel da filha ingrata; ‘Angels with dirty faces’ (Anjos de cara negra) com James Cagney, mais uma vez no papel de gangster duro e orgulhoso e Pat O’Brien no papel do padre, e não vamos esquecer do filme ‘The private lives of Elizabeth and Essex’ (Meu Reino por um amor) para mim o valor maior desse filme se dá pela inigualável interpretação de Bete Davis, a mais genuína das Elizabeths e mais uma vez Errol Flyn no papel de Robert Devereux, 2do Conde de Essex e me lembro assistir ‘King Creole’ (Balada Sangrenta) e fiquei impressionada com Elvis Presley, acho que se tivessem dado melhores papeis a Elvis ele teria se saido muito bem, ele era bom ator.
    Voltando a Curtis e sua vida pessoal, devo dizer que como uma extrangeira vivendo em terras distantes com lingua diferente, ele tem minha completa simpatia. As vezes o caminho que fazemos tentando traduzir o idioma natal na sua cabeca para o ingles de sua boca não acaba perfeitamente sincronizado viramos motivo de piadas dos amigos. Ainda bem que não sou famosa para ter meus ‘faux pas’ escritos para a eternidade.

  4. Dorivaldo Carlos Vieira da Silva junho 8, 2012 às 10:24 pm #

    Prof. João Batista, concordo com o 1 berto de Almeida: o fechamento do artigo é magistral. As fotos que ilustram o artigo no Correio das Artes, nos remetem àquela brincadeira da revista VIP, “separados no nascimento”. Confira.

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