A cura pela conversa

12 jun

Em grave crise nervosa, gritando e se contorcendo com violência incontrolável, chega ao Hospital de Zurique, Suíça, em 1904, essa jovem histérica que atende pelo nome de Sabina Spielrein. Quem a toma como paciente é o Dr Carl Jung, que, fugindo à atrasada tradição da medicina mental da época, trata a moça com o moderno método da “cura pela conversa”, proposta recém-aventada pelo seu mestre admirado, o austríaco Sigmund Freud.

“Conversando”, a moça revela coisas chocantes: na infância e adolescência era espancada pelo pai dominador e o espancamento a deixava sempre molhada de excitação, de modo que o seu desejo sexual, quase sempre à flor da pele, estava atrelado à ideia de dor.

Logo Jung percebe que o enorme potencial sexual de Sabina era diretamente proporcional ao seu potencial intelectual, e não só isso: do mesmo tamanho era a vocação da moça para a profissão que ele mesmo tinha, a de psiquiatra. Em relativamente pouco tempo, Sabina supera os seus traumas e se torna uma fervorosa e bem sucedida discípula de Jung.

Um passo adiante da mera “conversa”, a relação discípula-professor toma contorno sexual, o que, aparentemente, teria completado a cura de Sabina. O problema é que, casado, pai de duas meninas e bom marido, Jung começa a se sentir culpado em estar levando essa vida dupla.

Assim se inicia o filme “Um método perigoso” (“A dangerous method”, 2011), de David Cronenberg, e, convenhamos, esse início já é suficiente para deixar o espectador interessado; mais ainda se ele sabe quem foi Carl Jung, e se está ciente da importância de sua obra para o pensamento científico do século XX.

Não vem ao caso contar o enredo inteiro, mas, digamos apenas que, a partir desse ponto crucial de sua existência, Jung se aproxima de Freud, os dois se tornam amigos confidentes, que passam horas, às vezes dias, trocando ideias, tanto sobre pontos chave da ciência da alma, quanto sobre o particular problema amoroso de Jung – seu caso com Sabina e os perigos, os práticos e os conceituais, do envolvimento médico-paciente.

Qual a função do psiquiatra? Desreprimir o paciente para uma liberdade selvagem e anti-social, ou, fazê-lo reconhecer o seu caso e lhe sugerir contenção e dignidade? Estimulante é acompanhar a querela entre os dois pensadores, com Freud defendendo o rigor de suas teorias sobre o papel destruidor da sexualidade no ser humano, e Jung rebatendo com a necessidade de se sair da materialidade negativa para um âmbito mais aberto, mais livre, e mais criativo, da imaginação – isto, percebe-se, com alguma contribuição conceitual da colega e amante, Sabina.

Com o avanço das divergências, tanto no terreno científico quanto pessoal, a amizade, inevitavelmente, vai desfazendo-se, até tornar-se antagonismo indisfarçado. Em dado momento, desabafa Freud: “nós judeus, não devíamos confiar em arianos como Jung”. O desabafo é feito a Sabina, como ele, também judia, a essa altura separada de Jung e sua discípula, e, no futuro, grande psiquiatra ela mesma.

É possível que os fãs de Cronenberg não gostem muito do filme, talvez asséptico demais para o conhecido estilo “horror venéreo” do cineasta canadense.

Isto à parte, um problema que o filme tem é mesmo o de ser biográfico e contar uma estória complexa que compreende quase dez anos. Por conta disso, está cheio de grandes elipses, suponho que incômodas para quem desconhece as vidas dos envolvidos e o seu contexto histórico. Alguns exemplos: depois da separação forçada entre Jung e Sabina, a cena da reconciliação já é a de Jung espancando a moça na cama, como ela gostava, isto sem quaisquer preâmbulos narrativos; no mementoem que Sabinadialoga com a esposa de Jung, nenhuma pista diegética conduzira, previamente, à sua nova situação, há muito casada e agora grávida; a cena finalem que Jungconta a Sabina o seu sonho de uma inundação em que a água vira sangue – “o sangue da Europa”, diz ele – é claramente a premonição do advento do nazismo, do qual Sabina seria futuramente vítima – porém, este dado não está no filme!

De minha parte, senti falta do que mais ficou de Jung enquanto pensador: o seu conceito de Inconsciente Coletivo, com os seus fundamentais Arquétipos. É fato que, ainda não suficientemente elaborados no período em que o filme recobre (até 1913), estes estão, contudo, nas entrelinhas de suas discussões com Freud, e, fico pensando em como o filme não teria crescido se essa dimensão imaginária tivesse lhe servido de ponto de fuga. Tudo bem, não precisam me dizer: seria outro filme.

De qualquer maneira, inteligente e elegante, “Um método perigoso” é um filme que interessa ver, afinal, sobre três gênios (Sabina Spielrein incluída) que deram passos decisivos no desvendamento desse mistério que é a mente humana.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Ronaldo Monte.

 

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Uma resposta to “A cura pela conversa”

  1. Solha junho 12, 2012 às 7:14 pm #

    Li, há séculos, um romance de Morris West – Um Mundo Transparente – em que se narrava a angústia de Jung ao receber, como cliente com tendência ao suicídio, uma bela mulher que viera atrás dele depois de se desiludir com Freud, justamente no momento da cisão entre os dois psicólogos. Ela tinha outro nome, mas parece-me que o enredo era o mesmo do filme que você comenta. Há, também, uma versão italiana do caso, bem recente.

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