Vocação em pauta

19 jun

Uma forma toda especial de recepção artística é certamente a da música. Digo, não a de cds, rádios, ou equivalentes eletrônicos, mas a que, pela tradição, se ouve ao vivo, por exemplo, em um palco de teatro.

Concerto completo, quinteto, ou solo, notem que o prazer da platéia, nestes casos, não consiste apenas em ouvir a música, mas também em testemunhar sua execução. Consome-se com os ouvidos e com os olhos, sem separar uma coisa da outra. Comparando com outras modalidades de arte, é como se estivéssemos, não apenas lendo um poema, mas, vendo o poeta escrevê-lo. Essa dimensão eminentemente metalingüística do consumo musical nunca foi bem estudada e aqui deixo a anotação aos interessados.

Claro, apesar dos esforços do maestro, ou do instrutor, a pauta é um elemento precário e nenhuma execução é igual a outra – até porque enorme é o número de fatores (subjetivos ou não) que, favorável ou desfavoravelmente, influem no resultado final. Sim, cada membro de uma orquestra é um ser humano de carne e osso, coração e mente, e cada um traz sua estória, personalíssima, que não é a estória de ninguém mais.

É esse caminho da individualidade na formação musical que toma o belo documentário “Prova de artista” (2011) do cineasta carioca-paraibano José Joffily, no momento, em exibição local.

Só que, particularmente interessado no tema da propensão vocacional, Joffily não vai atrás dos grandes mestres consagrados, e sim, de jovens que, embora talentosos e promissores, estão em início de carreira, enfrentando as dificuldades de se afirmar profissionalmente, eventualmente sendo obrigados a passar pelo decisivo, polêmico e estressante crivo da “audição” (do inglês ´audition´ na acepção de: ´prova´, ´teste´, ´exame´) – daí o título do filme.

Com idades entre 19 e 28 anos, os personagens de Joffily são cinco, quatro rapazes e uma moça. Rodrigo de Oliveira é o mais novo (19) e toca violino na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais; Rodney Silveira (20) optou por viola e está na Orquestra Sinfônica Brasileira; Catherine Carignan (27) é canadense de origem e mora em Minas há algum tempo, tocando fagote na OFMG; americano do Wyoming, Byron Hitchcock (27) mora no Rio e toca violino na OSB; finalmente, Ricardo Barbosa (28) executa o oboé e foi, durante a realização do filme, aprovado para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Origem modesta, determinação, muita disciplina, vocação musical: eis alguns dos elementos comuns a esses jovens, que lidam, cada um a seu modo, com as dificuldades que os impedem de galgar uma carreira de sucesso. Byron tem uma dívida financeira a pagar no seu país; Catherine cria uma filha que ainda é bebê… etc.

O documentário acompanha os personagens, antes, durante e depois das ´audições´, registrando suas vidas privadas e ouvindo suas opiniões – eventualmente também as de familiares – sobre questões nevrálgicas, relativas à profissão escolhida, com um pouco de ênfase, como já dito, no tema da vocação. Por que um jovem, sem background cultural em casa ou na rua, escolhe tocar oboé, violino ou viola, e sacrifica um tempo enorme de sua mocidade a estudar solitariamente, para chegar perto de um virtuosismo idealizado?

Como afirma um deles, em momento de desabafo, referindo-se à quantidade de horas de trabalho: ´se profissionais de outras áreas despendessem metade dos esforços de um músico, o mundo seria outro´.

Mas, inevitavelmente, os depoimentos não se restringem ao lado heróico da profissão. Também os aspectos menores vêm à tona, talvez pouco cogitados pelos freqüentadores de concertos. Por exemplo: nem toca música clássica, nos diz um dos depoentes, é, necessariamente, bela e agradável aos ouvidos, e uma execução de orquestra, mesmo para membros do grupo, pode ser rotineira e chata. Outra coisa, mais difícil de admitir diante de uma câmera ligada: o mundo dos músicos não é nada diferente dos outros mundos mais prosaicos – afirma um outro depoente – cheio de hipocrisia, inimizades e farpas cortantes, e conviver nele pode ser sufocante.

Referi-me à vocação como tema caro a Joffily por ser este “Prova de artista” o terceiro item de uma trilogia sobre a questão vocacional: a religiosa em “O chamado de Deus” (2002), e a política em “Vocação do poder” (2006). Para quem não lembra, Joffily, com longa carreira já firmada, é também o diretor bem sucedido de filmes ficcionais premiados, como “Dois perdidos numa noite suja” (2002) e o belo e comovente “Olhos azuis” (2009).

Uma anotação final, que não posso deixar de fazer: casualmente ou não, “Prova de artista” vem se perfilar junto a essa nova corrente do cinema brasileiro recente que privilegia a música, mas esta é outra estória, que fica para outra ocasião.

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Uma resposta to “Vocação em pauta”

  1. Humberto Pedrosa Espinola junho 25, 2012 às 2:41 pm #

    Caro João
    Bela crítica, em “alta fidelidade”, parabéns, posto que em absoluta “sintonia” com os propósito do Diretor, cujo ponto mais alto (num “crescendo”…) até agora – para mim – é “Olhos Azuis” (e nisso eu também concordo com você!). Certamente, teremos mais dele!
    Um grande abraço
    Humberto

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