Essas pessoas maravilhosas no escuro

4 jul

Entre várias outras coisas, o cinema é um mito moderno, e isto não é novidade para ninguém. Esse mito, contudo, não é fixo, nem imutável; ao contrário: é móvel e elástico.

Nos velhos tempos da Hollywood clássica, sua estufa era o star system: para os espectadores de então os deuses/deusas adorados eram Greta Garbo, Clark Gable, Ava Gardner, Robert Taylor, Marilyn Monroe, etc…

Hoje em dia pode se dizer que a coisa mudou um pouco. Ficou talvez menor o número de adeptos, mas, em compensação, aumentou o alvo do mito, incluindo, além do elenco, os cineastas. Com efeito, hoje quem gosta de cinema fala tão à vontade de Martin Scorsese quanto de Robert DeNiro; sabe tanto de Steven Spielberg quanto de Tom Hanks; interessa-se tanto por Quentin Tarantino quanto por Johnny Depp.

É provável que, ao menos parcialmente, a responsabilidade por essas mudanças recaia na eletrônica (DVD, blu-ray, TV paga, computadores), que criou novas formas de recepção, proporcionando a revisitação indefinida, solitária ou em grupo, a clássicos do passado e a lançamentos recentes, com acesso franco aos ´making ofs´ e outros segredos de bastidores.

Pois bem, é certamente a esses “espectadores modernos” – chamemo-los assim – que está dirigido o livro de Ana Maria Bahiana “Como ver um filme”, recentemente lançado pela Nova Fronteira.

Bem estruturado e bem escrito, o livro se divide em duas grandes partes, chamadas de ´Os alicerces´ e ´O estilo´.

Tentando responder a pergunta ´como nascem os filmes?´, a primeira parte vai tratar de três etapas da produção cinematográfica, menos conhecidas do grande público, a saber, o roteiro, a fotografia e a montagem. Para tanto, Bahiana mergulha nos bastidores do cinema e não economiza exemplos de casos reais, que ela, há tanto tempo residente em Los Angeles, conhece tão bem. É o cinema visto por trás das câmeras, desde o momento em que um roteirista teve uma vaga idéia para uma película, até a arregimentação da equipe para as filmagens, passando por todas aquelas muitas e difíceis etapas intermediárias, como: negociação com empresários, seleção de elenco, escolha de locações, etc.

Já a segunda parte vai discutir basicamente aquilo que se entende por ´gênero´em cinema. E nisso, Bahiana recorre ao Aristóteles de “A poética”, e, do seu conceito de tragédia e comédia, faz derivar a configuração que tomaram os gêneros na sétima arte.

Um dos aspectos mais interessantes do livro são os ´exercícios´ que a autora propõe aos leitores. Por exemplo: depois de tratar de direção de arte, fotografia e som, ela sugere que você veja um filme e preste atenção à indumentária do ator e decida até que ponto ela lhe ajuda a compreender a caracterização do personagem; ou que você veja todo um trecho do filme retirando o som, para, depois, recolocando-o, decidir sobre a funcionalidade do uso da música.

Obviamente, “Como ver um filme” tem um sentido didático, que fica ainda mais evidente na Conclusão, onde Bahiana não se incomoda de arrolar uma série de ´conselhos´, adiantando estratégias para melhor usufruto do filme.

De alguma maneira, é um livro um pouco menos sobre cinema e pouco mais sobre o espectador. Mui apropriadamente, Bahiana o abre e fecha com referência àquela cena final de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), em que a estrela decadente do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson), em frase famosa, alude aos espectadores como “todas aquelas pessoas maravilhosas na escuridão”. Na Introdução, Bahiana descreve a cena, e, na última linha da Conclusão, retoma a frase, lembrando que essas pessoas no escuro ainda somos nós, espectadores…

Esse privilégio da recepção é o melhor do livro que, contudo, não li sem discordar. Explico.

Uma distinção conceitual que a teoria do cinema já estabeleceu há tempos é aquela entre o cinematográfico – aquilo que ocorre durante as filmagens – e o fílmico – o que aparece na tela, único lugar de onde, em princípio, deveria partir qualquer esforço interpretativo.

Ora, conforme se nota, Bahiana solenemente ignora a distinção e, com ênfase, mistura estas duas instâncias dentro de uma mesma panela. Em suas sugestões, chega mesmo a propor ao leitor que, antes de ver um filme, se informe sobre problemas de produção e bastidores. Segundo ela, o lucro será maior.

Do ponto de vista metodológico, é esta a minha única discordância com relação ao conteúdo do livro, mas, fazer o quê? Respeito o seu enfoque e acho mesmo que – mais que o meu, rigorosamente fílmico – esse enfoque está bem mais próximo do modelo dos “espectadores modernos” a que me referi acima – esses tão obcecados por making ofs e derivados.

Talvez – quem sabe? – mais “maravilhosos” ainda que as pessoas no escuro de Norma Desmond.

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