Shakespeare é só um nome

7 jul

Tenho a impressão de que não existe um grande escritor em que as noções de vida e obra estejam mais separadas do que em William Shakespeare (1564-1616).

Tudo que se sabe do autor de “Romeu e Julieta” resume-se a mais ou menos vinte e cinco parcos itens, em si mesmos, insuficientes para rechear uma biografia. Um deles, por exemplo, nos informa que esse tal de Shakespeare comprou um dia um veado e não pagou a conta. Um outro – que poderia ser mais significativo e não é – consiste no seu exíguo e dúbio testamento, onde não faz uma só menção a seus próprios escritos e onde lega a sua esposa, Anne Hathaway, tão somente a sua segunda melhor cama.

Não é questão de saber quem teria herdado a melhor cama do Bardo de Stratford-Upon-Avon, mas, para muita gente boa, vale a indagação sobre o mistério dessa exiguidade de informação, quando, de outros autores da mesma época, o Renascimento Inglês, se conhecem bem os dados biográficos.

Deem uma olhada em uma biografia de Shakespeare – qualquer uma – e vão ver que praticamente não há uma só página onde não se encontrem expressões hipotéticas do tipo: “é provável que”, “supõe-se que”, acreditamos que”, etc… Simplesmente porque os dados históricos não ajudam, o que às vezes leva muitos biografistas a tomarem certas seções das obras, peças e poemas, como fontes.

Não admira que, ao longo dos séculos, tantas “teorias” tenham sido aventadas, ou inventadas mesmo, sobre a vida de William Shakespeare e, particularmente, sobre a autoria de seus escritos, eventualmente atribuída a outros.

Alguns dos candidatos a essa autoria foram contemporâneos do autor de “Macbeth”, como: Francis Bacon, Christopher Marlowe, Henry Neville e, o de maior consequência, Edward De Vere, o conde de Oxford, apontado pelo estudioso Thomas Looney, em livro de 1920, como o definitivo autor dos escritos shakespearianos, uma “teoria” que chegou a, momentaneamente, convencer gente do calibre de Orson Welles, Charles Chaplin e dizem que até Sigmund Freud

Quem, agora, vem reforçar essa “teoria” é o cineasta Roland Emmerich, no seu mais recente filme “Anônimo” (“Anonymous”, 2011). Para quem não lembra, Emmerich é autor de sucessos de bilheteria, como “Independence Day” (1996) e “Godzilla” (1998).

Segundo o filme de Emmerich, as trinta e sete peças, cento e cinquenta e quatro sonetos e demais poemas que a historiografia atribui a Shakespeare teriam sido compostos, sim, por De Vere, que, pertencendo à nobreza como pertencia, preferiu não assumir a autoria desses escritos e veiculá-los sob uma outra assinatura.

Tendo, na juventude, vivido um caso de amor com a jovem Rainha Elizabeth, De Vere teria, por conveniências familiares, sido forçado a casar-se com outra, e, ao longo da vida, teria desperdiçado a fortuna da família e a chance de ser rei, em vista de sua obsessão com as palavras. Como ele, em grave momento de crise familiar, revela, entre raivoso e desesperado, à esposa antagônica a seu labor de escritor, “esses fantasmas me perseguem e eu enlouqueceria se não escrevesse”.

Quanto a William Shakespeare – bem entendido, o do filme! – este foi só um atorzinho mesquinho e de extremo mau caráter que, sem quaisquer escrúpulos, tentou, e conseguiu, subornar o gênio anônimo do teatro elizabetano.

O roteiro do filme mescla pura ficção com personagens verídicos (De Vere, a rainha Elizabeth, o dramaturgo Ben Jonson, o conde de Essex, o Lorde William Cecil, o Duque de Southampton, o ator Burbage, o Rei James I, os escritores Marlowe, Spencer e Pope, etc), com fatos históricos (as intrigas na corte sobre a mudança do trono inglês, de Elizabeth para James) e com costumes da época (o ´bear baiting´, por exemplo, aquele sangrento divertimento público onde um urso era devorado ou devorava cachorros).

E essa mesclagem, repito, de ficção com história real, é feita com tal sagacidade que, creio eu, até o autor de “Ricardo III” (seja lá quem tenha sido!) aplaudiria; tudo isso para que a sua hipótese soe viável ao espectador. Digo “hipótese” porque o filme abre e fecha com um prólogo e um epílogo em que um ator da atualidade, num palco atual, “propõe” a estória a uma platéia moderna, com quem o espectador do filme, em princípio, deveria se identificar.

Para dizer a verdade, ninguém sabe se Emmerich, ele mesmo, acredita no que narra em “Anônimo”, mas, o fato é que o seu filme acredita. O que não significa dizer que o espectador deva acreditar no filme. Afinal, como se sabe, um filme não precisa ser – historicamente, ou de qualquer outro modo – crível para ser bom. E, crível ou não, “Anônimo” é um ótimo filme.

Evidentemente os “Shakespearean scholars” vão torcer o nariz para “Anônimo”, ou, então, vão assistir com atenção, só para poder apontar improbabilidades históricas.

Uma que salta aos olhos está nas datas. Edward De Vere faleceu em 1604, ano em que, como se sabe, pelo menos treze peças do Bardo ainda estavam por ser escritas e encenadas, entre as quais, “Otelo”, “O Rei Lear”, “Antônio e Cleópatra”, “Coriolano” e “A tempestade” – peças só encenadas mais tarde pela companhia teatral “The King´s Men” (´os homens do Rei´) e o rei em questão era James I, que só passou a reinar sobre a Inglaterra, em 1603, com a morte de Elizabeth. Antes disso a companhia tinha um patrono menos importante e se chamava “Lord Chamberlain´s Men”.

O caso “Macbeth” (1607) deve ser, para os estudiosos de Shakespeare, o calcanhar de Aquiles do filme de Emmerich. Seu fólio já aparece nas mãos de De Vere, como se previamente escrito, e, no entanto, a peça, como é sabido, só tem a estrutura que tem por causa do Rei James I que, adorando bruxaria, levou o autor da peça (seja lá quem seja este!) a atrelar toda a tragédia do protagonista aos desígnios das três bruxas, quando, na verdade, não havia bruxa alguma na história original recriada. Se James ainda não era rei da Inglaterra no tempo de De Vere, como foi possível essa criativa bajulação? (Claro, com mais propriedade, atribuída a Shakespeare, que viveu até 1616!).

Não sou scholar, mas, de minha parte, estranhei um pouco que uma personalidade sempre amarga como o De Vere do filme tivesse disposição para escrever tantas comédias, algumas das quais parcialmente encenadas no filme, e, outra questão: no contexto da sua vida fílmica não houve praticamente espaço diegético para a produção dos 154  sonetos, e – outra pergunta mais embaraçosa – caso tivesse havido, onde caberiam aqueles tantos, sensualmente dirigidos a “um belo mancebo”?

Suponho que, se realizado nos primórdios do século XX, “Anônimo” teria dado o que falar, pela ousadia e pela suposta polêmica que instaura. Nestes tempos pós-modernos de hoje em dia, ele é só – em que pese o seu brilhantismo – um exercício criativo, muito bem feito, porém, relativamente esperável. Afinal, desde que Roland Barthes anunciou a ´morte do autor´, que se romperam irreversivelmente todos os elos entre criador e obra.

Em suma, que importa quem realmente escreveu “Hamlet”? Ao leitor ou espectador da peça, importa o que ficou: a textualidade. O resto é silêncio.

Shakespeare é só um nome, e isto a gente já sabia antes de ver “Anônimo”.

Em tempo: esta matéria é dedicada a W. J. Solha.

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10 Respostas to “Shakespeare é só um nome”

  1. Gilberto de Sousa Lucena julho 7, 2012 às 9:31 pm #

    Caro João:

    Excelente seu artigo sobre o filme Anonymous. Outra questão a meu ver inquietante sobre a figura de William Shakespeare é a seguinte: tendo ele nascido em 1564 e morrido em 1616 – portanto vivido 52 anos – teria tido tempo, em vida, para ter deixado uma obra tão monumental como a dele? Para mim, se trata de outro grande mistério relacionado com a suposta produção literária do bardo inglês. O que você me diz?

    Um abraço amigo.

    Gilberto Lucena

  2. ségio de castro pinto julho 7, 2012 às 11:21 pm #

    joca: beleza, joca!´
    abraço amigo do
    sérgio

  3. Humberto Pedrosa Espinola julho 8, 2012 às 12:26 am #

    Caro João
    Depois desse excelente artigo sobre um ótimo filme, é o caso de se conjeturar que Wiliam Shakespeare teria dito para ele mesmo: “Ser ou não ser, eis a questão”!!!
    Um grande abraço
    Humberto

    • João Batista de Brito julho 8, 2012 às 12:08 pm #

      Pois é, Humberto, como tudo que o Bardo (seja quem for ele) escreveu, esta frase tem uma aplicabilidade sem fim…

  4. Solha julho 9, 2012 às 1:23 pm #

    Obrigado, João, pela dedicatória. Principalmente porque considero a grande qualidade do texto.
    Bem, não vejo nada demais no fato de em 52 anos de vida alguém ter escrito as peças de que falamos. Afinal, nem todas eram, assim, geniais. Não fosse a série Hamlet, Rei Lear, Júlio César, Macbeth, além de Romeu e Julieta, o Bardo já teria sido esquecido. Brecht viveu só um pouco mais – 56 anos – e deixou mais de 50 peças, além de poemas inesquecíveis. E são dignos de registro, dele, Galileu Galilei, Um Homem é um Homem, A Ópera dos Três Vinténs, A Exceção e a Regra, Mãe Coragem, Terror e Miséria no III Reich, Os Fuzis da Sra. Carrar, O Sr. Puntila e seu criado Matti. O nome do homem não era Biu Agitalança? Não importa, como não importa se haja existido um Homero ou não. Pois como “ele” mesmo escreveu em Romeu e Julieta, a rosa teria o mesmo perfume, qualquer que fosse o seu nome.

    • Soraia Diniz julho 12, 2012 às 2:12 pm #

      Adorei o texto, na minha opinião quem realmente escreveu só foi interessante enquanto o autor era vivo, hoje a o que importa é a obra que ficou para humanidade enquanto essa existir. Quanto ao filme se ele causa emoções a que buscamos no cinema, isso sim é o que importa. Quem procura a verdade lê artigos de antropólogos, a literatura e o cinema foram feitos para sonhar. Por isso vou ver o filme, enquanto leio “O Mercador de Veneza”!

  5. fernando48 julho 19, 2012 às 12:42 pm #

    Caro João Batista: Devo a Fátima Amorim a indicação do seu blog. Bastou-me ler o texto de apresentação do autor (você) para perceber que não acessara um blog qualquer. Prometo conhecer melhor o seu blog para melhor opinar. De imediato, anoto este breve comentário relativo ao filme Anonymous, que repõe em circulação a eterna controvérsia sobre a autoria das peças de Shakespeare. Você argumenta com conhecimento de causa, cita fontes e desdobra argumentos de peso. Mas você acha realmente que há evidência empírica suficiente para que ainda se questione ou negue o fato de que Shakespeare autor das peças foi o Shakespeare empírico que conhecemos através de fontes e estudos inquestionáveis? Você tem razão ao ressaltar que há pouca documentação sobre Shakespeare. Mas a que existe é suficiente para comprovar o fato que gente como Freud, baseado num rigoroso e obsessivo estudo de Looney, nem por isso menos delirante, teima em negar. Acho que o problema é mais de fundo psicossocial do que factual. Bem, a questão é complexa demais para um breve comentário. Quero apenas reiterar meu elogio ao seu artigo. Um abraço,
    Fernando.

    • João Batista de Brito julho 19, 2012 às 6:25 pm #

      Seja bem vindo, Fernando, ao blog. Fico devendo esta a Fátima. E obrigado pelos elogios.
      Sim, sobre Shakespeare, a questão é mesmo complexa e não tenho uma resposta pronta, salvo o que está no post.
      Fiquemos em contato. Seu já amigo, João.

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