Ernest Borgnine

12 jul

Foi segunda-feira à noite, dia oito deste mês de julho que, num canal qualquer da televisão paga, ouvi a notícia: aos noventa e cinco anos de idade, rodeado da família, havia falecido o ator americano Ernest Borgnine (1917-2012).

Imediata e inescapavelmente, me reportei aos anos cinqüenta, especialmente aos velhos faroestes da época, que foram tantos e tão bons, quase todos com aqueles títulos brasileiros enormes, por exemplo, “Os homens das terras bravas” (“The badlanders”, Delmer Daves, 1958), em que o querido e saudoso Borgnine atuava ao lado de Alan Ladd e Katy Jurado.

Ernest Borgnine não foi nenhum astro de primeira grandeza no Star System de Hollywood, mas acho que posso dizer, junto com muita gente boa, que foi um dos coadjuvantes mais queridos do cinema americano, extremamente competente em seu ofício, para não dizer brilhante. Eu gostava dele especialmente porque parecia com um vivente do meu bairro.

Grandalhão, forte, largo e feioso, ele tinha a cabeça meio achatada, a cara redonda, quase sempre com um sorriso franco, onde se destacava um orifício entre os dentes, bem no meio. Pesadão, não era nada elegante ao gesticular ou andar, e de sua bocarra nunca saiu uma palavra que não fosse a mais comum.

Ficou ainda mais parecido com um vivente do meu bairro no dia em que estreou “Marty” (Delbert Mann, 1955), um dos seus raros papéis principais, pelo qual, aliás, ganhou um Oscar.

Nesse belo e comovente drama de subúrbio com tons francamente neo-realistas, ele era um humilde e simplório açougueiro do Bronx, de ascendência italiana (a sua, na verdade) que, estando com trinta e poucos anos de idade, não conseguia atrair o sexo oposto. Singelo mas profundamente tocante, foi um filme feito ´com carinho, para os feios´, num tempo em que astro ou estrela de cinema tinha que ser bonito como Robert Taylor ou Ava Gardner.

Ernes Effron Borgnino nasceu na pequena Hamden, estado de Connecticut, em 24 de janeiro de1917. Afamília vinha da Itália, como indica o sobrenome, depois remodelado para a forma inglesa Borgnine. O pequeno Ernes foi um menino comum e nunca manifestou interesse por teatro ou cinema.

Na idade certa, serviu o Exército e, quando eclodiu a Segunda Guerra, foi obrigado a lutar nos campos de batalha europeus, como qualquer soldado americano. Finda a guerra, voltou à cidade natal, onde, desempregado, perambulou pelas ruas do bairro sem destino, até que a mãe teve a ideia: “Já que tu gostas tanto de te mostrar na frente dos outros, por que não tentas o teatro?” – perguntou, referindo-se ao seu jeitão descontraído e brincalhão.

O pai achou a ideia infame, mas Borgnine topou o desafio e daí a pouco já estava estudando teatro e atuando nos palcos da vida. De palco em palco, caiu na Broadway e em 1951, decidiu que Los Angeles era o seu destino. Não tinha ´physique du rôle´ para galã, mas e daí? Os filmes de Hollywood também precisavam de atores de suporte, e este poderia muito bem ser o seu caminho. E foi.

Com uma longa e intensa carreira, que iniciou em 1951, Borgnine atuou em cerca de 200 filmes que, naturalmente, não vou citar.

A primeira vez em que vi Borgnine na tela deve ter sido mesmo como o Fatso de “A um passo da eternidade” (1953) – lembram? – aquele soldado corpulento e agressivo que, num bar de portoem Pearl Harbor, puxa uma briga com o franzino e teimoso Frank Sinatra e quase mata o rapaz.

Depois fiquei vendo Borgnine em dezenas de westerns, entre os quais , além do já citado “Os homens das terras bravas”, estão: “Johnny Guitar” (1954), “Vera Cruz” (1954), “Ao despertar da paixão” (1956), “Meu ódio será sua herança” (1969), etc… Ou podia ser em aventuras, dramas ou filmes épicos, tais como: “Demetrio e os gladiadores” (1954), “A conspiração do silêncio” (1955), “Vikings, os conquistadores” (1958), “Barrabás” (1961), “O voo do Fênix” (1965), “Os doze condenados” (1967), etc…

Quando foi que vi Borgnine pela última vez em tela de cinema? Não sei ao certo, mas, deve ter sido em 1972, ou um pouco adiante, em “O destino do Poseidon”, um daqueles filmes catástrofe que marcaram a crítica década de setenta. Depois disso, perdi-o de vista, mas não de lembrança, pois sempre revisito seus filmes, digo, os antigos.

Junto com Burl Ives, Martin Balsam, Walter Brennan, Thomas Mitchell, Thelma Ritter, Katy Jurado, Arthur O´Connell, Ed Begley, e tantos outros, Ernest Borgnine faz parte da minha galeria de coadjuvantes amados, sobre os quais pretendo um dia editar um livro.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Gilberto Lucena.

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3 Respostas to “Ernest Borgnine”

  1. Solha julho 13, 2012 às 5:05 pm #

    Belo comentário, João. Também gostei muito, sempre, do Honesto Borgnine.

    • João Batista de Brito julho 13, 2012 às 6:10 pm #

      Solha, lembro que no tempo em que publicava a série “Coadjuvantes” num dos jornais locais (já tem uns 24 textos feitos) você me cobrou fotos dos atores/atrizes, para o leitor poder checar os filmes que conhecia; só que na época, ilustração em jornal era bem mais difícil que hoje em dia, e aliás, não dependia de mim. Hoje, com a internet disponibilizando, a coisa é toda outra, não é?

  2. Francisco Cabreira agosto 6, 2013 às 5:34 am #

    João, com certeza, para mim, um dos maiores atores de Hollywood, é um daqueles atores, que nos parecem “imortais”, não acreditamos que tenha nos deixado, apesar de seu rosto parecer o de um homem brutal, tinha um extremo carisma, uma contradição curiosa. Na lista de filmes que tu te referes, não podemos deixar de lado “O Imperador do Norte”, um filme magnífico (difícil de encontrar), em que ele atua ao lado de Lee Marvin e Keith Carradine. O filme Destino de Poseidon, assisti mais de 15 vezes. O que me levou a fazer este tipo de loucura? Primeiro a canção que foi vencedora do Oscar de melhor canção no ano de 1972 “maravilhosa”, segundo, a interpretação de atores do gabarito de Ernest Borgnine, Gene Hackman, Shelley Winters, Red Buttons, Jack Albertson entre outros. Parabéns pelo texto, o sentimento desta perda realmente machuca, como bem disseste, é como um vizinho, um conhecido nosso que parece morar ao lado, que veremos em breve e extremando, um parente distante que ocasionalmente vimos.
    Abraço João…

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