Turismo cinéfilo

23 jul

Sabe como cinéfilo é, não? Adora associar tudo a cinema. A todo lugar que vai, está sempre vendo imagens fílmicas a sua frente. Um carro que dobra uma esquina de modo furtivo, uma folha que dança no ar e cai na relva, um sorriso generoso de desconhecida no meio da multidão: qualquer detalhe pode lhe lembrar tal cena, de tal filme, que ele viu em tal data, em tal cinema…

E quando ele viaja, então! E se a viagem for ao estrangeiro, por ventura um país com cinematografia vasta, nem se fala.

Eu mesmo me lembro dos meus poucos dias em Nova Iorque assim. Por exemplo, toda vez em que entrava num daqueles cafés, para o breakfast, e lá vinha o garçon, todo de preto, com aquela toalhinha branca por sobre o braço, perguntando ´what can I do for you´. Hum, aquilo, para mim, era puro cinema. A via Broadway e suas calçadas apinhadas, o central park, o Harlem, a Quinta Avenida (às vezes eu tinha a ilusão de que ia encontrar Audrey Hepburn na próxima esquina, brechando jóias nas vitrines da Tiffany´s) – tudo isso, e, muito mais, está nas nossas retinas cinéfilas e, ao vê-los ao vivo, parecem deslocados, fora da tela.

Duvido que um cinéfilo visite o terraço do Empire State Building e não se lembre do pobre do Cary Grant esperando, até anoitecer, a Deborah Kerr, que não vai vir mesmo. Ou que suba à Estátua da Liberdade e não perca o fôlego com aquele vilão de Hitchcock, pendurado só pela manga do paletó, que está se rasgando e – uai! – o cara vai cair lá embaixo e se esfacelar.

Quando estive em Paris a coisa não foi muito diferente. Cheguei de trem, à noite, e da estação, tomei um taxi direto para o “Hotel des Étrangers”, ali no começo do Quartier Latin. De manhã, segui a pé, pelo Boulevard Saint Michel e fui, direto, sem hesitação, para a Île de France, já sabendo que lá encontraria a Notre Dame, e, atravessando a ponte, o Louvre, e de lá, a Place da La Concorde, o Champs Élisées, Arco do Triunfo, e tudo mais. Minha colega de viagem, que na época também era novata na cidade, se impressionou, pensando que eu já estivera em Paris e estava escondendo o leite. Não estava. De tantos filmes situados em Paris que vi na vida, o mapa da cidade luz, pelo menos a parte mais óbvia, estava na minha cabeça de cinéfilo, e, caminhando ruas afora, eu só fazia confirmá-lo.

Estou tratando disso a propósito de um livrinho que tenho em mãos, chamado “Europa de cinema” (Pulp Edições: Curitiba, 2011), com o subtítulo de ´roteiros e dicas de viagem inspirados em grandes filmes´. Viajante inveterado e cinéfilo, o autor é esse Vicente Frare, que nos convida a percursos regados a filmes em pelo menos cinco capitais européias: Berlim, Londres, Madri, Paris e Roma.

Para cada uma, ele fornece dicas de filmes recentes em que estas cidades são o cenário; resume os enredos e aponta os locais particulares que foram retratados, e ainda informa como o viajante pode visitá-los. Em seguida, vem uma lista maior e menos detalhada de filmes antigos cujos enredos se passam nessas cidades. Há ainda um setor de curiosidades sobre o cinema de cada país, seguido sempre de cinco locais particularmente cinematográficos (tipo: o Sacré Coeur em Paris, ou o Coliseu em Roma), cinco livros para entrar no clima, e cinco músicas para colocar no ipod. Como é coisa dirigida a quem vai viajar, o livro é pequeno, de modo a caber na bolsa ou mesmo no bolso. E claro, muito colorido e todo ilustrado com os devidos cenários a serem visitados.

Agora, ou você é de fato um aficcionado da sétima arte, ou o livro não lhe serve muito. Para se ter uma idéia, a quantidade de filmes resenhados, por exemplo, na primeira lista de Paris (chamada de “Filmes para viajar por…”) chega a dezessete, isto sem falar na segunda lista (chamada de “Outras Sugestões”), aquela que só fornece os créditos: no caso de Paris, são quarenta e duas películas. Claro, para o cinéfilo, não há problema, pois, quem é que não conhece – digamos – “Os incompreendidos” de François Truffaut (1959), ou “Playtime” de Jacques Tati (1968)?

Naturalmente, o cinéfilo obsessivo, como eu, vai até apontar lacunas: por exemplo, sobre Paris, não está lá o belo e comovente “Por ternura também se mata” (René Clair, 1958) cujo título original é, por sinal, o nome de um certo setor da cidade luz “Porte de Lilás”.

Dois comentários finais, um preso ao outro.

(1) a mera edição de um livro desses é prova de como, independentemente do fenômeno da cinefilia propriamente dita, a recepção ao cinema, de um modo geral, cresceu nas últimas décadas, e como o cinema passou a fazer parte da vida das pessoas, como talvez nunca fizera antes; (2) sem a eletrônica, que viabiliza os filmes em formato doméstico, um livrinho desses não faria sentido, ou melhor, nem seria possível.

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8 Respostas to “Turismo cinéfilo”

  1. Vitória Lima julho 23, 2012 às 5:59 pm #

    Tem “Antes do por-do-sol” com Julie Delpy e Ethan Hawke?
    Se nã tem, faltou um dos meus preferidos. E “A última vez que eu vi Paris” com Liz Taylor e Van Johnson, tem?

    • João Batista de Brito julho 23, 2012 às 8:32 pm #

      Sim, Vic, tem “Antes do por-do-sol”, mas falta “A última vez que vi Paris”. Aliás, noto que, no geral, o maior número de ausências fica entre os clássicos do passado. Acho que o autor é bem mais novo que a gente – he he he…

  2. Gilberto de Sousa Lucena julho 27, 2012 às 8:13 pm #

    Eh, João:

    Tem “O Candelabro Italiano” e alguma referência à bela canção “Al Di La” – na voz e presença de Emilio Pericoli? São também inesquecíveis nesta película as imagens de alguns dos famosos recantos históricos de Roma. O autor destaca “Um Corpo Que Cai” e a famosa Golden Gate? E a cidade de Casablanca? Enfim, a lista é infindável e impossível de ser inteiramente contemplada por um livro de bolso como o por você referido.

    Abraço.

    Gilberto

    • João Batista de Brito julho 27, 2012 às 11:43 pm #

      Oi, Gilberto, tem, sim, “Candelabro italiano”. Quanto às outras perguntas suas, lembro a você que o livro se chama “Europa de cinema” e se limita a cinco capitais: Londres, Madri, Paris, Berlim e Roma. Não há referências a outros países, nem outras cidades, muito menos ainda a outros continentes.
      João.

  3. fatimaduques agosto 2, 2012 às 3:02 am #

    Que bom, João, ter um livro assim. Quanto às ausências que reclamaram, sempre vai faltar algo, se tiver tudo que a gente quer vira um livrão que termina sendo um trambolho na bagagem. Pelo que você falou, tá de bom tamanho!

  4. Ricardo Oliveira novembro 16, 2012 às 4:04 am #

    Grande João. Estou a caminho de Paris (curtos 3 dias) agora em dezembro e cheguei neste seu post, muito feliz. Obrigado pela dica do livro. Mas para cinéfilos radicais creio que ainda falta um ponto a ser descoberto (era isso que buscava no Google) e talvez você possa me ajudar: teria Paris ou Londres roteiros históricos sobre cinema? No sentido de museus pequenos, exposições fixas ou algo do tipo sobre a invenção do cinema (algo de Meliés, talvez?). Planejava ir a Lyon para conhecer o museu dos Lumiere, mas não coube mais no roteiro.

    • João Batista de Brito novembro 16, 2012 às 12:19 pm #

      Ricardo, três dias em Paris não dá pra nada, mas, pra o que você quer, acho que a pedida certíssima é a “Cinémathèque Française”, onde você vai ter acesso à história do cinema (incluindo Mèliès) e tudo mais.
      O endereço é Rue de Bercy, número 51, no 12 Arrondissement. Lá todo mundo informa. Boa sorte, e fico cá com uma pitadinha de inveja. João.

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