Jogo de olhar

15 ago

Documentário ou ficção, em qualquer filme, o olho humano estabelece um jogo de natureza semiótica com a câmera. Sim, pois, o que a câmera faz aparecer na tela é sempre, em princípio, o que alguém está vendo – olhar que se quer coincidente com o do espectador.

Esse alguém que vê pode ser – e geralmente é – aquela instância abstrata e onisciente a que a gente chama de autor, mas pode ser também um dos personagens do filme, caso para o qual se usa a expressão “câmera subjetiva” ou “plano subjetivo”.

Normalmente, antes de um plano subjetivo (a visão do personagem), mostra-se o ator dirigindo o seu olhar para algum ponto, geralmente off-screen (fora da tela), e aí, corta-se para mostrar o objeto vislumbrado. Antigo e convencional, o código (olhar do ator + plano subjetivo) é rigoroso e até o espectador mais distraído está acostumado a ele.

Pois bem, que tal mostrar o(s) olhar(es) do(s) personagem(ns) sem, em momento algum, oferecer o plano subjetivo correspondente?

É o que, sistematicamente, acontece no curta-metragem de Marcus Vilar, “Jogo de olhar”, recentemente exibido no Cine Mirabeau e com lançamento previsto para breve.

Estamos no Estádio de futebol de Campina Grande, em dia de partida decisiva entre os dois times locais, Treze e Campinense; durante quinze minutos, vemos, em distâncias e ângulos diversos, as duas torcidas nas arquibancadas, vibrando com as emoções do jogo; contudo, o jogo mesmo – aquilo que seria o grande plano subjetivo do filme, o local privilegiado para onde se dirigem todos os olhares – nos é sonegado do começo ao fim.

Ora, encher a tela de olhares sem retribuir com o equivalente plano subjetivo não constitui um problema semiótico? Bem, constituiria se o princípio estético do filme não fosse este mesmo – o de sonegar o mais óbvio numa partida para privilegiar o que mais interessa do ponto de vista do imaginário do futebol: as emoções dos torcedores, expressas na espontaneidade de seus movimentos corporais, seus gritos histéricos, seus desesperos, suas contorções faciais, seus esgares, seus risos, suas explosões de alegria.

Nessa sonegação básica reside a originalidade do filme de Marcus Vilar e é a primeira anotação favorável que faço sobre ele.

Seguem-se outras.

Ainda que rigorosamente documental, o filme se constitui numa narrativa, empolgante para o espectador, o qual, sem ver o que se passa no campo, sabe que há, por trás de tudo, aquilo que justifica toda e qualquer narrativa, a saber, o conflito. Aqui, aliás, dois: um objetivo, no campo, o outro subjetivo, nas arquibancadas. Que gols estão sendo feitos e quem os faz? Qual o resultado do jogo? Tudo isso vai aparecer no comportamento físico e psicológico das duas torcidas, encarnações do(s) conflito(s) que faz(em) a narrativa se mover.

Torcidas são multidões e multidões aparentemente não possuem olhares, e, no entanto, as câmeras de Marcus Vilar (quatro ao todo) sabem resolver o problema e muito bem, intercalando tomadas abertas que recobrem o magnífico balé das arquibancadas, com planos fechados que captam os rostos e corpos com mais intimidade – o coletivo e o individual misturados num mesmo efeito. Tudo isso muito bem editado de forma a conceder ao conjunto um ritmo, que, se você quiser, é, apesar da brevidade, o ritmo de uma partida de futebol.

Sem dúvida, o conceito de ´olhar´ (a palavra no título) é lato e inclui o olhar do espectador do filme que ´olha a torcida olhando o campo´.

Obviamente, nem precisa gostar do esporte bretão para gostar do filme, meu caso.

De minha parte, olhando “Jogo de olhar” reportei-me àquelas velhas “naturais” do “Canal 100” que, antes de o filme do dia começar e sempre ao som de “Na cadência do samba” de Luiz Bandeira, (“Que bonito é…” lembram?) mostrava as partidas de futebol do momento, sem nunca esquecer closes de rostos anônimos nas arquibancadas, geralmente, rostos populares que, pegos de surpresa, provocavam risadas maldosas nas platéias do cinema. Os rostos de Marcus Vilar, ao contrário, suscitam partilha e empatia.

Em outras ocasiões já observei como, no país do futebol, tão poucos – e nem tão bons – são os filmes rodados sobre essa paixão nacional. Mais um ponto favorável que destaco em “Jogo de olhar”.

Marcus Vilar, como se sabe, é um dos cineastas paraibanos mais prolíferos da atualidade que, com curtas de bom nível, já conquistou prêmios em festivais em todo o país. Esse “Jogo de olhar” vem confirmar seu talento e sua vontade de inovar.

Em tempo: esta matéria é dedicada a meu sobrinho Morib Macedo.

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2 Respostas to “Jogo de olhar”

  1. Bertrand Lira agosto 24, 2012 às 1:18 pm #

    Através dessa leitura de JB, fiquei muito curioso para assistir ao doc de Vilar

  2. Dorivaldo Carlos agosto 24, 2012 às 4:40 pm #

    Prof. João Batista: magistral aula de cinema este seu artigo sobre o filme “Jogo de Olhar” de Marcus Vilar. A função do artigo é esta: levar o amante ou não da sétima arte ao cinema, munido de algum conhecimento prévio da surpresa que verá na tela da sala de exibição.

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