Intocáveis

27 ago

Uma comédia sobre um rapaz negro que se faz de enfermeiro para cuidar de um paraplégico branco? Não se trata do filme de Billy Wilder, de 1963, “The fortune cookie” (“Uma loura por um milhão”)?

Não. Trata-se agora de “Intocáveis” (“Intouchables”, 2011), filme da dupla Olivier Nakache e Eric Toledano, exibido entre nós no Festival Varilux do Cinema Francês, e tão procurado que entrou na programação comercial normal.

Vivendo na periferia de Paris, filho adotivo de uma família pobre, o jovem afro-descendente Driss vira, meio por acaso, acompanhante desse senhor rico, Philippe, que, em sua luxuosa mansão, vive entre cadeiras de rodas e camas, e cujo corpo só tem sensibilidade do pescoço para cima. Ganhando o emprego para candidatos competentes, ele mesmo inapto e truculento, Driss aproveita a oportunidade rara para usufruir de um luxo que nunca conhecera.

Entre muitos atropelos e alguns acertos, a dupla vai se afinando e, para surpresa de parentes e aderentes, tudo termina dando certo, embora de um modo nada fácil e nada convencional.

Para o espectador, talvez a pergunta venha a ser: por que esse tipo desajeitado, pouco sutil e comprovadamente incompetente foi o escolhido para o serviço? O filme quer nos fazer crer que, entediado com tratamentos clínicos, o paciente Philippe, conscientemente ou não, desejava uma companhia que lhe cheirasse à vida, e não a medicamentos, e, no seu contexto, ninguém cheirava mais à vida que esse jovem negro, lascivo, extrovertido e meio selvagem.

Embora baseado em caso real, “Intocáveis” parece ser um filme para muitas leituras. Numa instância mais óbvia, narra a estória do desabrochar de uma amizade improvável entre dois homens completamente diferentes: um negro, pobre, inculto, ingênuo e saudável; o outro, branco, rico, erudito, maduro e doente. Creio que do contraste entre cada par de adjetivos listados pode-se deduzir uma interpretação para o filme.

Fiquemos com um deles, aquele entre culto e inculto. Nesta perspectiva, Philippe poderia talvez ser entendido, de alguma maneira abstrata, como uma representação da França atual (e por extensão da Europa), empanturrada de cultura e arte, mas um tanto e quanto paralisada pelo peso mesmo dessa bagagem secular. Ao passo que, simetricamente, Driss simbolizaria o frescor do primitivo que vem de uma África inculta e cheia de vida. Se a isotopia escolhida for esta, é claro que os outros contrastes (saudável vs doente, por exemplo) se incorporam à leitura e a enriquecem.

Um contraste adicional está, naturalmente, no próprio gênero do filme, situado entre comédia e drama, terreno perigoso em que a direção transita com impressionante aisance.

Aqui lembro alguns exemplos de comicidade ao meio do drama, no caso, relativos ao meu par de adjetivos escolhido e à temática etno-cultural que ele implica. No teatro, assistindo a uma ópera moderna, Driss não consegue conter o riso diante de um ator vestido do que lhe lembra uma macieira, e sua interpretação da cena desmonta a autenticidade da peça, do mesmo jeito que aquela criança, na famosa lenda, desmontou a falsidade do rei nu. O mesmo se diga de sua leitura daquele quadro de pintura abstrata em que uma mancha de vermelho sobre um fundo branco parece só um gesto escatológico e nada mais. Idem para a sua sugestão do alegre ritmo dançante, no lugar da triste e pesada música clássica a que estava habituado o seu erudito paciente.

É claro que a mensagem do filme não pode ser reduzida a um descarte da cultura clássica em favor do absolutamente naif, porém, é esse viés – e o que ele trás consigo de vitalidade – que conquista o erudito Philippe e o faz aceitar de bom grado (para usar uma palavra da moda) a alteridade. E não esqueçamos que o processo é recíproco: mais tarde vamos ver o próprio Driss pintando e, no final, reconhecendo, na ante-sala de uma empresa, obras de pintores famosos.

Se, no início, “intocáveis” (vários sentidos) um para o outro, os dois personagens vão se tocando, até o nível das transformações interiores…

E vejam que a influência de Driss vai bem mais além, já que esse “Nature Boy” de carne e osso termina por desempenhar o papel de cupido, ao literalmente forçar o seu paciente a ligar para uma pretendente anônima que – sabe-se depois – virá a ser a namorada de um paraplégico que se dava por terminal. Que importa se a única zona erógena de Philippe são as orelhas?

No filme de Billy Wilder com que abro esta matéria a paraplegia do protagonista é só uma farsa para extorquir a companhia de seguros. Em “Intocáveis” não há lugar para falsidades e até o ovo de pedra preciosa um dia furtado por Driss será devolvido, num gesto de amizade verdadeira em que não entra o conceito de piedade, e muito menos o de afinidades obrigatórias, a não ser que a afinidade seja o desejo de viver.

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11 Respostas to “Intocáveis”

  1. Cristiana Brito agosto 27, 2012 às 3:47 pm #

    Adorei a matéria. Fiquei curiosa para assistir a este fime.

  2. Jefferson Cardoso agosto 27, 2012 às 4:11 pm #

    Maravilha João! Já tinha visto o trailer e agora estou curioso para conferir! 😉

  3. Rosilma Diniz agosto 27, 2012 às 9:02 pm #

    A minha isotopia seria Fabergé vs. Kinder Ovo. Esse filme dá um Touché! na gente! Filme e matéria adoráveis.

  4. Margarete Almeida agosto 27, 2012 às 9:50 pm #

    Meu amigo, vi o filme enfim, mas como foi bom teu texto, alarga ainda mais minha percepção e me sinto “tocada” por seu aguçado olhar. Gosto muito de quando os falsos muros vão caindo devagar, porque o espelho é inevitável e os dois personagens vão se reconhecendo um no outro em percepções que nunca antes experimentadas.

  5. Solha agosto 27, 2012 às 11:57 pm #

    João, estou ansioso pra que v. veja O Som ao Redor, do Kléber Mendonça Filho, do qual – não sei por que cargas d´água do destino – participei como ator. Sua visão sobre filmes, como essa, agora, sobre esses Intocáveis franceses, me dá sempre muito prazer, e imagino que isso será multiplicado numa análise feita em cima de algo a quem dei o melhor de mim, na área.

  6. Ana Adelaide Peixoto agosto 28, 2012 às 5:48 pm #

    Saí desse filme rindo à toa da vida e das óperas! E querendo trazer aquele negão para cuidar de mim in the future…caso precise. Oh! Céus! e ler seu texto é um puro luxo. Filme Francês, filme bom, matiné, encontro com crítico na platéia, leio texto. Não posso reclamar da vida….Parabéns João . De novo! abçs

  7. Mauê Macedo agosto 28, 2012 às 10:27 pm #

    Adorei a matéria tio joão!!! quero assistir em breve este filme!

    Grande abraço

  8. vitoria lima agosto 29, 2012 às 10:50 am #

    Ainda não vi o filme, gracias a la vida entrou em circuito comercial e vou vê-lo esta semana, mas li a review da VEJA, que toca no mesmo ponto que você: a isotopia da França branca paralisada. Como sempre, você chega ao alvo. Parabéns, Vitória

  9. CLEMENTE ROSAS RIBEIRO setembro 2, 2012 às 9:25 pm #

    Apreciei o filme e o comentário, como tenho apreciado outros textos anteriores. O seu blog é um dos que a gente visita com prazer renovado.
    Mas quero aproveitar a oportunidade para lhe pedir alguma matéria sobre os seus atores coadjuvantes preferidos, objeto de um desses seus textos anteriores. Em especial sobre Kate Jurado, uma das minhas grandes “vidrações”
    Clemente Rosas.

    ,

    .

    • João Batista de Brito setembro 3, 2012 às 12:40 pm #

      OK, Clemente, tenha um pouquinho de paciência, pois pretendo dar continuidade àquela série que andei fazendo sobre coadjuvantes (até o momento já vai em 25, Kate Jurado incluída), para publicar em livro. Aguarde. Abraço forte de João.

  10. hecton janeiro 29, 2015 às 5:59 am #

    Foi ótima msm a matéria, me senti num livro fabuloso.

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