Obrigado, Marília

10 set

Marília querida, muito obrigado pelo presente, que você teve a delicadeza de me trazer em casa, com uma simpática dedicatória. Sou grato em tê-lo merecido e o ter consumido me deu enorme prazer; por isso estou lhe escrevendo. Vão aqui meus agradecimentos sinceros e também meus parabéns: o seu romance “Suíte de silêncios” (Rocco, 2012) é um testemunho ostensivo do seu imenso talento de escritora.

Nele, em tudo se percebe o seu cuidado obsessivo com a linguagem, não só com as palavras, mas também com a estrutura como um todo. Não apenas as construções frasais são resultado de teimoso burilar, como a montagem dos capítulos revelam uma reflexão de quem sabe o que é efeito literário. Sua arte de descrever metaforicamente e sua estratégia de revezar os tempos narrativos se homologam e fazem milagres, permitindo, via manutenção discreta de campos semânticos (dois deles: água e música) que o leitor viaje, com prazer, de uma época a outra, dentro de uma espécie de lógica interna imposta pela textualidade.

Os seus personagens são tão bem construídos que parecem gente de carne e osso, especialmente essa arrebatadora Duína que, menina ou mulher, nos envolve e, perdidamente, nos arrasta para o seu mundo privado, pluvial e mesmérico (“Dentre todas as coisas que existem no mundo, chuva e música são as que mais gosto” – diz ela), e, contudo, feito de silêncios doídos e sombras apavorantes.

Encantei-me tanto com ela que dei-me ao luxo de ler o livro com a entrega de um leitor comum, aquele que não se importa de confundir ficção com realidade e que se emociona como se o drama narrado fosse seu. Sim, mergulhei na estória de Duína e, coitado de mim, vi-me de repente, perdido como ela, à mercê da vida e do mundo, às portas da loucura destruidora… E essa incondicional conquista do leitor é mérito seu.

Acho que posso dizer que o seu grande tema nesse belo romance responde pelo nome de perda. Na vida dura de Duína há pelo menos duas: a perda da mãe, que foge de casa quando ela ainda era uma garotinha de cerca de dez anos, e, bem mais tarde, a perda do seu grande amor, João Antônio, o amante adorado e devastador que, sendo casado, é um dia premido a encerrar tudo e retornar aos muros fechados do casamento. Aliás, a rigor, são três perdas, pois, desde a fuga da mãe, ela também, de alguma forma, “perde” o pai, sempre emocionalmente distante.

A inexplicável ausência da mãe, na infância, teria determinado a natureza amarga e mesmo hostil dessa menina que se recusa a brincar com as crianças da redondeza e que volta da escola de olhos fechados, no intento de, assim, corrigir os erros da existência. Ou não houve essa determinação? De todo jeito, a igualmente inexplicável ausência do amante vai, cruelmente, consolidar essa amargura e essa hostilidade, que só se suavizam na escritura dessas páginas do que seria um diário inconfesso, ou uma epístola sem futuro.

Por isso mesmo, tão importante quanto a perda é um segundo tema, o da incomunicabilidade. Com a miraculosa exceção da escritura dessa pseudo-(diário)-epístola, que afinal de contas, não será lid(o)a pelo destinatário – o amante que a abandonou – Duína não se revela a ninguém; seus dramas mais íntimos se revolvem irremediavelmente dentro de si mesma, em algum desvão esconso e sujo de sua alma, e lá desaparecerão quando ela se for, solitária e perplexa, na sua desventura de ser irremediavelmente uma criatura frustrada.

Não será ao pai que ela contará as suas angústias e os seus medos, sequer o medo de perdê-lo; não será à amiga Domênica que ela revelará suas inseguranças; nem mesmo ao professor de música, Ramon, com quem partilhou tanta intimidade física; não será à avó Quila, que, afinal, não teria o discernimento para entendê-la; muito menos ao namorado de juventude, Victor, cujo apego doentio lhe causa certa repugnância… Sim, será a João Antônio que Duína descortinará, toda a sua desolação e desespero, porém, como já dito, um desabafo assumidamente inútil, na medida em que nunca chegará ao receptor.

Obviamente, somos nós, leitores do romance, os receptores privilegiados da história completa de Duína. Completa, disse eu? Ironicamente, nunca chegaremos a saber tudo, pois, parte da vida de sua personagem, nos chega por parcelas, por subterfúgios, retardada, camuflada, ou apenas de modo implícito, e, nisso, Marília, digo, na arte de esconder, você é uma mestra. Daí a propriedade do título do livro, onde o termo ´silêncio´, depois da leitura, exibe toda a sua eloquência. E vejam que ´suíte´ – termo do universo da música – é outra incompletude, já que a própria Duína, ainda que amante dessa arte, nunca foi, na condição de intérprete, capaz de nela expressar-se plenamente.

Você deve estar consciente das grandes lacunas entre as quais nos movemos no seu livro. Por exemplo, se quisesse, o leitor poderia se indagar: como foi a vida de Duína entre a infância e adolescência, e, num périplo ainda maior, entre a adolescência e o conhecimento do amante João Antônio? Por que sabemos tão pouco da vivência entre ela e a mãe, digo, antes da fuga desta? O que nos é dado da vida secreta do pai, salvo aquela visita furtiva à casa suspeita daquelas três mulheres que Duína apenas divisa de longe, uma visita que sugere tanto e informa tão pouco? O que sabemos da existência mesma do amante, salvo que é médico, casado e residente em Pedra Santa? Evidentemente, tais perguntas não fazem sentido, ou fazem, para evidenciar o não dito proposital. Sim, Marília, enquanto construtora da narrativa, você domina muito bem o jogo entre informação e sonegação e sabe o tanto que isso influi no efeito estético final.

Não é sem razão que, na infância, um dos esportes preferidos de Duína fosse, justamente, o de seguir gente desconhecida rua afora, achando que as pessoas são mais interessantes ao agirem assim, sem presença alheia, supondo-se ignoradas. Aqui lacuna e incomunicabilidade se complementam – nem Duína conhece essas pessoas, nem vice-versa, e por isso, segundo a protagonista, a relação é perfeita. Precisa dizer mais?

E não apenas no fornecimento do material diegético você é parcimoniosa. Suas descrições são pérolas de subentendidos, bem mais efetivas do que se nomeassem o descrito.

Poderia citar exemplos e mais exemplos de sua virtuosidade no esconder, de sua perícia em ser inexplícita. Conformo-me em reproduzir apenas aquele trecho em que você nos oferece essa sutil aproximação à loucura de um orgasmo, experimentado – não esqueçamos – por uma menina de doze anos de idade:

(…) o professor Ramon dedilhando acordes e pizziacatos na pauta da minha pele, uma música que começava com sua mão avançando lentamente pela parte interna da coxa, até os dedos encontrarem a extremidade da calcinha e afastá-la, tocando-me, então, com firmeza e suavidade, ali onde se guardava o pequeno e latejante coração de odor penetrante – seriam minhas entranhas banhadas por um oceano? – fazendo-me desabar num precipício de curtos-circuitos que me conduziam para longe, para muito longe, para um espaço onde eu me afogava – choveria dentro de mim? – onde não havia nada nem ninguém, onde o tempo parava e o mundo inteiro deixava de existir.

Mas esta é uma das raras imagens eufóricas no livro todo. Creio que, finda a leitura, o leitor vai ficar mais com as tristes, que são muitas e fortes. Se me for permitido citar mais, cito, entre tantas belas imagens, aquela em que Duína relata o estado do pai, algum tempo após a partida da mãe, tão dolorido nele quando nela que o testemunha.

Sobrevivemos. Meu pai sobreviveu, assim como sobrevive um pássaro a quem arrancam as asas e furam os olhos com espinhos. Um pássaro consumido de tanto saber que lhe tiraram tudo, saltitando em círculos sobre as patas e pipilando, ainda estou vivo, ainda estou vivo, ainda estou vivo.

Gostaria de citar o livro todo, para que você, me lendo em voz alta, escutasse o ritmo encantatório de sua própria escrita. Na impossibilidade, aqui vai mais este trecho, aquele em que Duína, havendo se indagado sobre o que a impediu de ter um lar “normal”, responde com sua desalentadora inconvicção e, nisso, termina por recapitular sua existência em detalhes significativos:

Sem respostas, envelheci e ainda tenho nove anos.

Ouço o arrulhar de pombos em um quintal alvejado de manhã, um soluçar monocórdico de dor e espanto, o ladrar de uma cadela, vejo um armário de portas abertas, acenando-me do seu vazio, um piano fechado, uma cadeira desocupada, sinto o aroma de naftalina e lavanda, o gosto travoso das minhas lágrimas, e quase posso tocar o abandono nas sianinhas e bordados dos meus vestidos de menina.

Estou lá, no ontem profundo, confusa e baldamente percorrendo ruas de olhos fechados, buscando algo que nem ao menos sei o que é, perseguindo o inominado, quem sabe, a própria vida, que passa ao lado sem que eu possa retê-la, como uma composição de notas inexequíveis, uma música impossível.

Sim, continuo lá, enquanto a minha dor esfacela-se diante dos meus olhos em mil degradadas dores.

Algumas coisas, meu amor, são tão devastadoras, que nem a melhor parte que há em nós, nem mesmo a mais encouraçada, consegue resistir.

Pois, acredite, a vida segue me humilhando com a mesma força.

Perda, isolamento, frustração, desespero… Até parece que o seu livro seria uma representação monolítica de toda a negatividade humana, quando, na verdade, não é. Por trás desses temas, há um maior, ou mais subterrâneo, que é o tema do amor.

Sim, não tenho dúvidas de que “Suíte de silêncios” pode ser dado como uma grande estória de amor. Nele não há uma só palavra que não seja direcionada ao amado ausente, cada uma pulsando com o sangue de uma mulher, uma mulher agonizante, mas ainda apaixonada, que, mesmo sem esperança de reencontro, não tem outro desejo senão o de rever e amar o homem que perdeu para outra. Como ela diz nas primeiras páginas “… como é doce morrer de lembrar. (…) Não nasci para o esquecimento. Se me faltassem as lembranças, estaria disposta a mendigar, de esquina em esquina, prato na mão”.

É essa paixão forçosamente contida, lembrada e revivida, que dá força a Duína para anotar sua desventura e a estrutura emotiva do livro se sustenta nesse pilar, definitivo e decisivo. É na vida, portanto, e não na morte, que ela vai buscar motivação, se não para viver, ao menos para (re)escrever a vida. “Recomeçar? Por onde?” pergunta em dado momento e explica, ao amante ausente e a nós:

A vida não é uma casa abandonada, da qual se podem remover os entulhos e pintar as paredes de branco. Quem esquece mata e morre. Sim, a memória tem sido meu candeeiro em noites de breu, e se um dia o tempo apagar o que resta de nós dois, saberei inventar-lhe um rosto, a intensidade de um olhar, uma boca de beijos e palavras sussurradas, um corpo onde atracar o meu querer.

E, acredite, qualquer um que possa vir a me amar será ainda você. Esta é a minha forma de loucura, minha força, meu delírio de salvação, meu código de sobrevivência.

Antes de encerrar, volto a uma questão já tocada por mim: o incomum, o estranho, o (talvez para o leitor do seu livro) esquisito na natureza de Duína nasceu de suas perdas, ou existiria independentemente delas? Em várias instâncias, o seu romance parece querer sugerir a segunda alternativa e um resumo delas está no fechamento de um dos capítulos, na página 73, quando, Duína recapitula sua opção por não viver e, dirigindo-se ao ex-amante, conclui, aparentemente convicta: “Acredite no que lhe digo, meu amor, a normalidade é monstruosa”. Ou isto não passaria de um desabafo frustrado? Você, Marília, é sábia em não decidir e, de modo aberto, deixar a questão para o seu leitor.

Como você sabe, Marília, sou leitor de seus escritos desde sua primeira publicação em livro, e sempre gostei do estilo de seus contos, onde diviso a paixão pelo métier, o prazer da contenção na imagem certa e a busca renitente da originalidade. Agora que você lança ao mundo este projeto maior, o seu primeiro romance, vibro com a empreitada, tão esperada pelos seus leitores, e faço questão de aplaudir o brilhante resultado.

Mais uma vez, obrigado.

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3 Respostas to “Obrigado, Marília”

  1. Marilia Arnaud setembro 11, 2012 às 5:27 pm #

    Querido João,

    É verdade que você me lê desde os primeiros contos. Lembro-me de um, que está em “A menina de Cipango”, que você gostou especialmente: “Como um beijo de Deus”. É claro que você não vai se lembrar, mas o narrador é um garoto frágil, sensível, “diferente”, um pequeno poeta, que não consegue interagir com as crianças da escola.

    Acho que Duína vinha sendo elaborada dentro de mim há muitos anos, João, e que sua “epístola sem futuro” começou a ser escrita desde quando garotas como a dos contos “O vestido” e “Clarice” sentiam-se abandonadas pela mãe.

    Você conseguiu ler o essencial em “Suíte de silêncios”: as perdas, a incomunicabilidade, as frustrações, o AMOR. Sim, quis que Suíte fosse uma estória de amor, e se você me diz que eu consegui, João, acredito em você.

    Contudo, não posso lhe responder sobre a natureza de Duína. Fiz-me a sua pergunta, e um grande silêncio ecoou dentro de mim. Há muito de Duína que não sei. De certa forma, foi ela quem me contou sua história (o grande mistério da criação!).

    Um beijo em sua alma,

    Marilia

    • fatimaduques janeiro 11, 2013 às 11:52 pm #

      João, devo a esta sua bela resenha o interesse que tive em conhecer o livro de Marília. Li-o estes dias e fiquei encantada; como é bom encontrar quem escreva sobre a natureza humana e suas histórias de um modo tão bonito e tão humano também. Perdas, dores, solidão, amor, já sabemos que tudo isso existe desde que mundo é mundo e se escreve muito a respeito, mas quando vem alguém e revolve, solapa e deslinda tudo isso com uma escrita assim é que reconhecemos o valor da boa literatura. Obrigada a você também digo eu por ter nos apresentado essa bela obra.

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