Bruta metafísica

14 set

“Qué que tu tanto procura nesse mundo afora, home?” A pergunta da mulher, ao marido, fica mesmo sem resposta. Ainda que tentasse, ele não saberia dizer o que procura, até porque o que procura é um mistério, infindo e inalcançável, encoberto pela poeira do mundo.

Eis a difícil temática do curta-metragem “A poeira dos pequenos segredos” (Bertrand Lira, 2012), que teve estréia recente em João Pessoa.

Em essenciais 20 minutos, o curta conta a inusitada estória desse casal, residente da zona rural, que vive esse drama fora de quaisquer padrões: hipnotizado pelo mistério do mundo, o marido gasta o tempo viajando, como se no intento de desvendar esse mistério, ou ao menos de compreendê-lo, enquanto a mulher, sem entender o que se passa, conformada ou não, fica em casa à espera de seu retorno.

As viagens se tornam cada vez mais freqüentes e mais longas e os intervalos, em casa, cada vez mais breves. Até que, um dia, tudo para: depois de sua viagem mais longa, ele retorna e confessa à mulher que não faz sentido fazer o que fazia, tentar retirar “a poeira dos pequenos segredos” porque vai sempre haver mais segredos escondidos no mundo, e o processo é interminável.

Ao acordar, no dia seguinte, o marido toma o susto de sua vida, deparando-se talvez com um segredo maior do que o que procurava fora dos limites de seu sítio – montada no mesmo cavalo que lhe servia de meio de transporte, a mulher, bem cedo da manhã, bisaco sortido, partira, por certo em busca dos pequenos segredos, escondidos pela poeira do mundo.

Extremamente bem dirigido e bem interpretado o curta é baseado no conto homônimo do escritor paraibano Geraldo Maciel, constante do livro “Inventário de pequenas paixões” (Manufatura, 2008).

Em primoroso trabalho de adaptação, o filme recria a atmosfera do conto e nos encanta, como o conto já fizera. Na impossibilidade de me estender, cito só um caso ou outro das transformações por que passa o conto, no filme.

Ambos, conto e filme, sonegam as andanças de Gorgônio, o marido, e se centram na vida privada de Otília, a esposa que fica em casa. No entanto, enquanto o conto de Maciel dedica parágrafos e parágrafos aos pensamentos dessa mulher, intrigada com o misterioso comportamento do marido, o filme foge de reflexões que o tornariam falado demais.

Com efeito, o roteiro e a direção de Bertrand, sabiamente, encontraram correspondentes visuais para essas reflexões e o fazem com propriedade e invenção. Alimentando os animais, costurando, almoçando sozinha, se penteando, olhando o horizonte, engomando, sentada na soleira ao som de “noite alta, céu risonho”, ou se masturbando na cama com o cheiro da roupa do marido, essa mulher expressa seu drama e dispensa palavras. E aqui não se pode deixar de elogiar a impressionante atuação da atriz Verônica Sousa.

Tudo bem, duas ou três frases que os personagens pronunciam são necessárias para o espectador entender a estória que o filme narra, mas só isso. Como o conto, o filme é feito de duas coisas fundamentais – mistério e silêncio.

Um procedimento diverso do conto está na montagem. Invertendo o tempo, o filme se abre com a primeira parte do “susto” do marido, que corre corredor afora até a porta e (por enquanto, para o espectador) mergulha no branco de uma luz estourada. O final repetirá a cena, agora com a transposição da porta da casa e a constatação de que a mulher partira.

No conto de Maciel o marido quase sempre parte com um bando de ciganos. Bertrand preferiu não colocar, neste sítio isolado, ninguém mais que marido e mulher, e o fez muito bem. De alguma maneira, o filme (e conto) é sobre as fronteiras entre o monossêmico e definido intramurus doméstico e o universo lá fora, múltiplo e inominável.

Para voltar à abertura desta matéria, o que exatamente Gorgônio procurava no mundo não fica claro para ninguém, nem, aliás, deve ficar, do contrário não se chamaria mistério. De uma coisa, porém, não se tem dúvidas: como a dos filósofos que procuravam o “noumenos” por trás dos fenômenos, a sua busca é, a rigor, metafísica; os filósofos (de quem Gorgônio naturalmente nunca ouviu falar) eram mentes cultas que se aparelhavam de raciocínios sofisticados para chegar à “coisa em sim”; homem rude, Gorgônio dispõe apenas de suas andanças, única e precária forma de exercitar a sua bruta metafísica.

Que Otília, depois dele, se engaje nessa bruta metafísica é um mistério a mais que nem conto nem filme nos revela.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Paulo de Tarso Medeiros.

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4 Respostas to “Bruta metafísica”

  1. Bertrand Lira setembro 15, 2012 às 12:54 am #

    Caro JBB, sei que é cabotino elogiar uma crítica que faz elogios a um filme meu, mas como já te elogiei por outros textos, me sinto à vontade para fazer com este. É sempre instigante saber de leituras outras de nossa obra por parte de diferentes espectadores. Obrigado pelo belo texto. Bertrand Lira

  2. Ana Adelaide Peixoto setembro 16, 2012 às 3:14 pm #

    Gostei muito do filme e desses silêncios e mistérios da estória. A cena de abertura é linda! como tantas outras. E seu texto João, me instigou a algo para mim – ler o conto desse saudoso escritor, e saber mais dos pensamentos dessa mulher. Parabéns aos dois artistas – Bertrand pelo filme, e João pelo texto. Bom Domingo!

    • João Batista de Brito setembro 16, 2012 às 7:10 pm #

      Obrigado, Ana.

    • Bertrand Lira setembro 18, 2012 às 12:44 am #

      Obrigado Ana. Obrigado também pelas legendas em inglês: The durst of the little secrets. Soa bonito em todas as línguas: La poussière des petits secrets e El polvo de los pequeños secretos. Barreto criou um belo título e eu quis preservá-lo. Bertrand

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