Personagens maiores que a vida

11 out

As razões que temos para nunca esquecer os filmes que amamos são muitas, algumas às vezes até inconfessáveis, eu sei. Mas uma das mais determinantes é, com certeza, os seus personagens, em alguns casos especiais tão fortes que parecem maiores que os próprios filmes, ou – por que não? – maiores que a vida.

São personagens complexos, profundos, intensos, que encarnam uma fundamental contradição de natureza estética, a de nos parecerem reais, gente como a gente, e ao mesmo tempo, originais, sem par na ficção ou na realidade. Outra contradição é a de serem iguais a si mesmos e ao mesmo tempo mutáveis.

Os personagens de que falo possuem traços físicos e psicológicos bem definidos, mas não são estáticos: evoluem na proporção do enredo e, a miúde, sofrem – para o bem ou para o mal – grandes transformações. Podem ser vítimas da narrativa, ou feitores dela, não importa, de todo jeito as transformações virão.

É comum que as peripécias do enredo os conduzam a situações-limite em que uma crise não pode deixar de ser enfrentada. Podem começar o filme mais ou menos definidos dentro de uma linha tímica, ou ética, ou ideológica, porém, dificilmente se mantêm nessa mesma linha até o final: normalmente a crise os ambuiguiza e os bons, se for o caso, vão tangenciar o Mal, como os maus vão receber um sopro do Bem.

Fracos ou fortes, covardes ou corajosos, mesquinhos ou magnânimos, perversos ou nobres, patéticos ou trágicos, não importa – são figuras fascinantes que nos encantam pela verdade humana que encarnam.

Aos interpretá-los, os atores ou atrizes dão mais de si que de costume, pois, precisam convencer o espectador da profunda verdade do personagem que encarnam e, quando conseguem, deixam sempre a impressão de que iremos, a partir de então, lembrar mais do personagem que do ator/atriz.

Aqui convido o leitor a considerar quem seriam os seus “personagens maiores que a vida”.

De minha parte, ofereço a sugestão de alguns nomes.

Só para refrescar a memória do leitor, adiciono, com dados do enredo do filme, pequena descrição do personagem, ao que faço seguir, entre parênteses, o nome do ator/atriz que o interpretou, título brasileiro do filme, título original, diretor e ano de produção.

IMMANUEL RATH – Respeitado professor alemão de literatura inglesa se envolve com prostituta e sucumbe. (Emil Jannings em “O anjo azul” / “Der blaue Engel”, Joseph Von Sterberg, 1930).

WALTER NEFF – Empregado de companhia de seguro, junto com a esposa da vítima, planeja golpe perfeito e se dá mal. (Fred McMurray em “Pacto de sangue” / “Double indemnity”, Billy Wilder, 1944).

CATHERINE SLOPER – Solteirona sem dotes físicos aprende com a cruel imparcialidade do pai a ser imparcial. (Olivia De Haviland em “The heiress” / “Tarde demais”, William Wyler, 1949).

CAL TRASK – Filho rebelde tem dificuldades em adentrar o hermético coração paterno. (James Dean em “Vidas amargas” / “East of Eden”, Elia Kazan, 1955).

DR ISAK BORG – Idoso médico sueco vive crise existencial que o remete à infância e a outras dores. (Victor Sjöström em “Morangos silvestres” / “Smutonstrället”, Ingmar Bergman, 1957).

CABÍRIA – Um golpe atrás do outro, a pobre prostituta romana consegue sorrir depois de tudo. (Giulietta Massina em “Noites de Cabíria” / “Notte de Cabiria”, Federico Fellini, 1957).

JUJU – Homem comum de pouca inteligência aprende que amar e matar podem fazer parte do mesmo contexto. (Pierre Brasseur em “Por ternura também se mata” / “Porte de Lilàs”, René Clair, 1957).

GRIMALDI – Durante a II Guerra, cafajeste italiano entra por acaso em território da Resistência e vive uma farsa de consequências trágicas. (Vittorio DeSica em “De crápula a herói” / “Il generale della Rovere”, Roberto Rosselini, 1959).

ANTONIETTA – Simplória dona de casa italiana tem a vida mudada quando o seu passarinho vai pousar na janela de um vizinho subversivo. (Sophia Loren em “Um dia muito especial” / “Una giornatta particolare”, Ettore Scola, 1977).

TRAVIS HENDERSON – Acolhido pelo irmão, homem desmemoriado reencontra o passado em domésticos filmes Super 8, e depois, numa janela de peepshow. (Harry Dean Stanton em “Paris, Texas”, Wim Wenders, 1984).

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7 Respostas to “Personagens maiores que a vida”

  1. W. J. Solha outubro 12, 2012 às 1:27 pm #

    Isso é tema fantástico para um livro, João! Jamais me esquecerei de Sophia Loren em Um dia muito especial, do Ettore Scola (v. digitou o nome dele errado, no seu texto): impressionante a força de uma mulher comum, a sua personagem, aparentemente esmagada sob o fascismo. Também inigualáveis são os personagens de Dirk Bogarde e Burt Lancaster em duas obras-primas de Visconti: Morte em Veneza e Violência e Paixão. E o Humphrey Bogart de Casablanca. O de Marlon Brando em Queimada. O de Steve McQueen em Crown, o Magnífico. O de Sally Fields em Norma Rae. Como você disse: são personagens maiores que os filmes de que fazem parte.

    • João Batista de Brito outubro 12, 2012 às 3:40 pm #

      Pois é, Solha, um livro para ser talvez escrito por muitas mãos… Por enquanto, espero que mais leitores me enviem sugestões. Gostei das suas.
      Ps: corrigi o nome de Scola, obrigado.

  2. Gilberto de Sousa Lucena outubro 15, 2012 às 3:52 pm #

    Excelente e bela relação, João.
    São tantos os personagens do cinema marcantes para mim que fico com certo remorso em me referir a eles sem que deixe de cometer injustiças. Não posso esquecer, por exemplo, do detetive Virgil Tibbs interpretado por Sidney Poitier em No Calor da Noite (In The Heat Of The Night – 1967) e sua tensa relação – por motivos segregacionistas – com o sisudo chefe de polícia (Rod Steiger, premiado com o Oscar por seu papel). E como deixar de lembrar do professor de Ao Mestre Com Carinho (To Sir With Love), também interpretado por Poitier? A lista seria interminável. Quem não lembra de Henry Fonda como Emanuel Balestrero no comovente O Homem Errado (The Wrong Man – 1956, do inigualável Hitchcock)? São tantos personagens inesquecíveis que seria bastante operoso nomeá-los. Em função disso, vou ficando por aqui.
    Um abraço.

    Gilberto Lucena

  3. Humberto Pedrosa Espinola outubro 19, 2012 às 10:10 am #

    João, mais três marcantes:
    – Hubert Hubert interpretado por James Mason em “Lolita”, de Kubrick;
    – Sèverine, interpretada por Catherine Deneuve em “Belle de Jour”, de Luis Buñuel;
    – Mr. Chance, interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”, de Hal Ashby.
    Um abraço
    Humberto

  4. Marilia Arnaud novembro 20, 2012 às 10:19 pm #

    Entre tantos, Travis Bickle, por Roberto de Niro, em Taxi Driver…

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