Por volta da meia noite

18 out

Um jovem negro cuidando de um branco idoso é o que temos em “Intocáveis” (Olivier Nakache e Eric Toledano, 2011), mas, que tal um jovem branco cuidando de um negro idoso? E se eu disser que o ator que faz os personagens brancos nos dois filmes é o mesmo, o francês François Cluzet?

Pois é, estou falando de um filme de 26 anos atrás, quando Cluzet era ainda relativamente jovem.

Co-produção franco-americana dirigida por Bertrand Tavernier, o filme é “Por volta da meia noite” (“Round midnight, 1986) e, situado nos anos cinquenta, conta a estória da fase final de um decadente saxofonista americano que, sem mais chances em seu país, aceita um emprego em uma boate de segunda em Paris, a “Blue Note”, e, nos arredores, termina fazendo amizade com um fã deslumbrado que passa a ser, para ele, uma espécie de protetor à toda prova.

Mas, o que pode fazer um sub-empregado parisiense por um negro idoso e alcoólatra, que mal dá conta da tarefa noturna de tocar o seu sax? Divorciado e com uma filha pequena, esse Francis Borler (François Cluzet) precisa passar pela humilhação de pedir dinheiro emprestado à ex-esposa, e a alegação de que era para ajudar um gênio da música, Dale Turner, que um dia mudara sua vida, só serve de mais um motivo para o rancor conjugal.

Problemas familiares e financeiros à parte, o músico Turner é resgatado da pensão onde está hospedado e é “adotado” pelo fã ardoroso e sua filha pequena. Nesse precário novo lar, o músico vai encontrar carinho, adoração e alguma tranqüilidade para ´tocar´ (!) a vida adiante.

O protagonista Dale Turner é feito pelo legendário jazzman Dexter Gordon que, não apenas toca divinamente o seu sax, como, com sua voz mansa e seus gestos vagarosos, desempenha muito bem o papel desse músico viciado em álcool, em fim de carreira e de vida. Baseado em fatos biográficos, dizem que o personagem é um amálgama de duas figuras reais, os músicos Bud Powell e Lester Young, os dois, aliás, referidos no diálogo várias vezes.

Como esperado, a trilha musical é um dos pontos altos do filme, a começar pela deliciosa execução instrumental de “As time goes by”, ótimo lance inicial para situar o espectador em Paris, sem precisar mostrar a Torre Eiffel. Na verdade, o filme ganhou o Oscar do ano de música original, para Herbie Hancock, que, genialmente, recriou jazzisticamente vários clássicos: além do “As time goes by” de Herman Hupfeld, o “How long has this been going on?” dos irmãos Gershwin, “Una noche com Francis” de Bud Powell, “Watermelon Man”, dele mesmo, e claro, o belo “Round midnight” de Thelonious Monk, que intitula o filme.

Outras performances, por Dexter Gordon ou outros cantores ou instrumentistas, são composições de craques como: Chet Baker, Charles Parker, Vermon Duke, Cole Porter, Johnny Green, etc… Algumas são do próprio Dexter Gordon, que, diga-se de passagem, também concorreu ao Oscar de melhor ator principal, perdendo para o Paul Newman de “A cor do dinheiro”.

Claro, um filme para quem gosta de jazz, mas também para quem gosta de cinema. Para dar certo com a temática e a época, o ritmo é lento, compassado, e a atmosfera, melancólica e sombria, com muitas cenas em ambientes fechados. Sintomático que a direção tenha caído para o francês Tavernier, na medida em que o roteiro gira em torno da tradicional paixão francesa pelo jazz americano.

O espectador comum deve achar que ao filme falta roteiro, e falta mesmo – só que aqui não se trata propriamente de um defeito, pois o filme se assume (e precisamos aceitar o seu código interno) como “um filme de situação”. Nada de turning points ou peripécias surpreendentes. A postura recepcional esperada é a de quem escuta jazz, com suas improvisações que sempre retornam ao cerne da questão.

No ano da estréia de “Por volta da meia noite” eu estava nos Estados Unidos e ainda me lembro dos cartazes do filme, na cidade onde estava e noutras que visitei, com a exposição de seu título original sugestivo, “Round midnight”, em enormes outdoors, com uma discreta chamada para a figura de Martin Scorsese, que, barbudo e tagarela, faz uma ponta na estória, como um empresário novaiorquino. Mas claro que o destaque tinha a ver mesmo com as duas indicações à estatueta da Academia, de música e de ator.

Não sei por que, não assisti a “Por volta da meia noite” enquanto estava nos States, aliás, nem depois. Vê-lo agora, na TV paga, foi uma viagem ao passado, como se, em 1986, eu tivessse comprado o ingresso e guardado… para ver o filme no futuro.

Conhecê-lo logo em seguida a “Intocáveis” foi, com certeza, uma coincidência curiosa.

Anúncios

2 Respostas to “Por volta da meia noite”

  1. Vitória Lima outubro 18, 2012 às 1:26 pm #

    Ah João, só você para resgatar esta informação de que o mesmo ator faz papéis em “Round Midnight” e “Intocáveis”. Faz tanto tempo que vi “Round” que não me lembraria do detalhe. Aliás, adorei ver esse filme, com tanta música maravilhosa. Claro que adquiri o vinil.

  2. Dorivaldo Carlos outubro 18, 2012 às 4:40 pm #

    Vou assistir o filme, a leitura do artigo me deixou curioso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: