Gonzaga – de pai pra filho

31 out

Filmar Luiz Gonzaga? Assunto grande demais para qualquer película, nos dois sentidos da palavra, quantitativo e qualitativo.

Retratar sua carreira de sucessos? Um caminho fácil que poderia conduzir a um filme sem conflito. E o diretor Breno Silveira queria conflito, especialmente familiar. Achou-o no livro “Gonzaguinha e Gonzagão – uma história brasileira”, de Regina Echeverria, mas, mais que isso, – descoberta preciosa! – nas quinze horas de gravação em fita cassete que um dia o filho fez com o pai e deixou para a posteridade.

Gonzaga – de pai pra filho” (2012), filme em cartaz no momento em todo o país, retira dessa fita cassete o seu encaminhamento de roteiro. E desse papo entre pai e filho – aliás, devidamente encenado no filme – vamos conhecer os problemas, emocionais e de outra ordem, que dificultaram o relacionamento entre esses dois gênios da MPB. Inevitavelmente, o pai conta ao filho – e a nós – a sua vida inteira. A carreira do Rei do Baião fica, assim, delineada no filme todo, porém, não restam dúvidas, o centramento é no drama entre um Gonzagão aclamado e distante e um Gonzaguinha abandonado e ressentido.

Dessa carreira se oferecem momentos decisivos, naturalmente separados por grandes elipses temporais, necessárias em vista da extensão do assunto a filmar.

É, por exemplo, emocionante ver, em 1929, aos dezessete anos, o jovem Luiz Gonzaga substituindo o pai Januário numa grande festança nas imediações da Exu natal e conquistando a sua primeira plateia local. Ou mais tarde, já no Rio de Janeiro, tentando a sorte no programa de Ari Barroso, da primeira vez sendo reprovado, na segunda tocando um baião e conseguindo os cinco pontos máximos – vitória que foi, como se sabe, o turning point que lançou o cantor nacionalmente.

Muitas vezes, pelas mesmas razões de economia narrativa, as lacunas são de natureza actancial, como é o caso com a figura – tão decisiva na carreira de Gonzaga – do compositor Humberto Teixeira, que vemos em dois ou três rápidos instantes e desaparece da história como por encanto. Em alguns casos, o roteiro conseguiu coadunar o conteúdo das canções com um episódio da vida do biografado, como é o caso de “Luiz respeita Januário”, mas, nem sempre isso foi possível.

Por outro lado, ou pelo mesmo, um lance sábio, com certeza, foi não enveredar pela carreira de Gonzaguinha, este – desculpem – um mero macguffin para, como disse, garantir ao filme o necessário conflito humano.

Com relação à figura de Luiz Gonzaga, acho que quem vai ver o filme pensando apenas no mito musical, se surpreende em constatar dois seres, o público e o privado: o cantor/compositor de músicas maravilhosas e o homem, às vezes, grosseiro, hostil, agressivo. Nada, porém, que macule a imagem do Rei do Baião. Até porque o filme termina com um desenlace conciliatório, que talvez vá parecer a alguns um pouquinho esquemático, fabricado, previsível. A esta relação de adjetivos eu acrescentaria mais um: necessário, como uma licença poética o é.

A narração é feita em flashbacks que se intercalam em um ritmo fluente e a reconstituição de épocas é impecável. Como impecável é a direção de atores, tantos para tão poucos protagonistas – digo, cerca de quatro atores diferentes fazem, respectivamente, Gonzagão e Gonzaguinha em fases diversas de suas vidas. Pessoalmente, dou destaque para o novato na tela, Chambinho do Acordeon, no papel de um Luiz Gonzaga de meia idade, e para o ator Júlio Andrade como Gonzaguinha adulto.

O cineasta brasiliense Breno Silveira já havia revelado o seu talento nos seus filmes anteriores, “Dois filhos de Francisco” (2005), “Era uma vez…” (2008) e “À beira do caminho” (2012), e não admira que “Gonzaga – de pai pra filho” seja um filme dessa qualidade e tão cativante.

Obviamente, nas duas horas e pouco de projeção não caberia o quilométrico repertório de um cantor/compositor tão prolífero, e o espectador pode sair do cinema sentido falta de canções importantes.  Sentido falta ou não, emocionei-me como qualquer espectador comum, e, na saída, vi algumas pessoas enxugando as lágrimas.

 Como a de muitos brasileiros de minha faixa etária, a minha infância foi cortada por um espaço mítico, imaginário, idealizado, o do Sertão nordestino, com seus mandacarus, assuns pretos, pés de serra, juazeiros, casas de reboco, cigarros de palha, cavalos alazões e redes de malhas. Nem precisa dizer de onde originou-se esse espaço poético infantil, intenso e profundo, no meu caso com a curiosidade de que, nascido e criado entre o Mar e o Canavial, só vim a conhecer essa região do Nordeste depois de adulto.

De forma que sempre acho que o sertão real é o do cancioneiro de Luiz Gonzaga, espaço grande demais para qualquer imaginação.

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4 Respostas to “Gonzaga – de pai pra filho”

  1. Luiz Antonio Mousinho novembro 1, 2012 às 12:21 pm #

    Ah, João, se todos fossem iguais a você!, rsrsss. Abço, Lula cá

  2. Maria Qsó novembro 1, 2012 às 1:07 pm #

    Esse povo, como eu, de entre o canavial e o mar…o mar e o canavial…Muito prazer!! Foi o Lula aí de cima q me trouxe aqui…Geniais, vocês!!! Grata!

  3. Normandia Macedo novembro 3, 2012 às 11:16 pm #

    Oi João,
    Assisti ao filme “Gonzaga – de pai pra filho”. Adoreiiiiiiiiii foi pura emoção! saí mais nordestina e mais orgulhosa de ser…kkk
    Um abraço.
    Norma

  4. fatimaduques novembro 24, 2012 às 4:32 am #

    João, já que vc não tem mais Facebook, replico o que escrevi na minha página, junto com a sua resenha:
    “Encantada com o filme: bela narração em vai-e-vem passado/presente; imagens ímpares do sertão; lindas músicas; ótimas interpretações, parece que estamos vendo Gonzaguinha e o ator de Gonzaga jovem adulto reproduz aquela energia do pai que víamos nos shows; a carreira de ambos na justa medida de cada um e, principalmente, a paridade pai-filho quanto ao conflito humano. Ri, chorei, tive vontade de dançar e aplaudir e saí feliz do cinema. Abaixo, o link de uma ótima resenha do filme.”

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