Viva o contraste

14 nov

Foi na Revista Língua Portuguesa que li o excelente ensaio do Professor Roberto Sarmento Lima “Se conselho fosse bom…”, parcialmente sobre os malefícios de se resumir um texto de ficção (conto ou romance), tarefa geralmente cobrada aos alunos secundaristas pelos professores de literatura.

Muito bem escrito, o ensaio de Sarmento Lima argumenta com sabedoria que, ao resumir, perde-se o essencial do texto, justamente aquilo que o torna literário. Para ilustrar, Sarmento Lima apresenta um resumo de A Cartomante e demonstra como ficou de fora de seu resumo aquilo que o teórico russo Boris Eikhenbaum chamava de ´motivos livres´, estes, no caso, os responsáveis pela qualidade artística do conto machadiano.

Também sou (fui) professor e concordo em tudo com Sarmento Lima quando conclui que (cito) “ao fazer o resumo, fica-se com o conteúdo, joga-se a forma – que é o mais importante e artístico, com seu conteúdo próprio – na lata do lixo. Um verdadeiro desserviço à instituição do ensino da literatura.”

 Concordo com tudo e, no entanto, saí do ensaio de Sarmento Lima com uma inquietação. Não tenho nenhum retoque a lhe fazer, mas, acredito que esse ensaio suscita um desenvolvimento conceitual interessante, que passo a propor.

É que, além de professor, também sou crítico e, nesta condição, me ocorre que o recurso ao resumo (do livro ou do filme, se for o caso) pode ser lucrativo, e, – ironicamente – pelo mesmo motivo apontado por Sarmento Lima: seu momentâneo descarte dos elementos formais.

Explico-me, a partir de minha prática.

No comentário crítico de um livro (ou de um filme) costumo, sim, apresentar um resumo do enredo que eventualmente serve para o leitor relembrar o romance ou o filme lido/visto, mas não serve só para isso – e aqui vai a chave da minha proposta.

Resumo o enredo somente para poder demonstrar que o livro/filme não se resume ao resumo. E a ironia é esta: uma vez feito o resumo, fica mais fácil (leia-se: mais didático, pedagógico) demonstrar ao leitor quais são os elementos que tornam o romance, literário, e o filme, cinematográfico. E que elementos são estes? Por tabela, tudo que ficou fora do resumo, ou seja, os ´motivos livres´ de Eikhenbaum.

Nessa perspectiva, o resumo é uma etapa necessária da leitura, construída para ser, logo adiante, questionada. Não é um enchimento de lingüiça, mas, um recurso heurístico importante que, por contraste, vai evidenciar os aspectos artísticos da obra. E dou à expressão ´por contraste´ toda a ênfase que puder, pois ela contém o segredo da minha proposta.

Notar que o resumo, em si mesmo, é o espaço do que os teóricos modernos chamam de ´diegese´, o universo ficcional que a obra cria, em oposição ao conceito de ´discurso´. Se o ´discurso´ são todos os efeitos de linguagem criados para dar qualidade artística a uma obra, a exposição da diegese (i.é: o resumo) torna-se utilíssima na determinação do que, repito,  por contraste, seriam esses efeitos.

Dentro desta proposta contrastiva (e não substitutiva), o expediente de resumir (e contrapor) não joga na lata do lixo a forma – muito pelo contrário, a traz para a sala de visita e obriga o dono da casa a dialogar com ela. Para dar um nome bonito a essa estratégia de leitura, chamemo-la de ´pedagogia do contraste´.

Estou falando no âmbito da crítica literária e cinematográfica, mas, gostaria de voltar ao contexto da sala de aula, interesse do prof. Sarmento Lima.

Quer me parecer que a mesma atitude contrastiva para com o resumo pode ser adotada pelos professores do curso secundário. Por que não? Continuaria, assim, a ser cobrado aos alunos um resumo do livro a analisar. Só que agora o professor, ao invés de apenas checar se o aluno leu o livro (pelo que entendi, o resumo só vem servindo para isto!), procederia ele, junto com o aluno, a um confronto entre o resumo feito e tudo aquilo que estiver fora dele, automaticamente, os efeitos de linguagem que interessam literariamente. Claro que, não tendo tempo para cobrir tudo, o professor faria uma seleção de ´motivos livres´, como, aliás, sempre fazem os críticos.

Para o aluno creio que seria interessante descobrir sua natural habilidade de – via resumo – fugir do que, no livro, é literário, e, logo em seguida, pela mesma via, chegar ao literário em um expediente prático de natureza comparativa. Quem sabe se esse método não seria assimilado e usado em aventuras literárias futuras… Sem esquecer que, mal formado, o professor do curso secundário, ele próprio, também precisa de métodos, quanto mais eficazes, melhores.

Bem, o aqui sugerido funciona no âmbito da crítica (e outros críticos, literários e/ou cinematográficos, hão de concordar comigo); espero que também funcione na sala de aula… Fica a proposta.

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2 Respostas to “Viva o contraste”

  1. Ana Adelaide Peixoto novembro 14, 2012 às 1:30 pm #

    Adorei João. Já recortei e anotei as referências para também dividir com os alunos de literatura da graduação. Ler seu Blog é sempre um prazer de cinema! beijos!

  2. Milton Marques Júnior novembro 15, 2012 às 9:26 am #

    Meu caro JB, você tem toda a razão. O resumo é um dos instrumentos de aprendizagem, uma etapa, como você mesmo acentua, heurística. O problema é quando vemos professores fazendo resumo pelo resumo ou porque a escola não quer que seus alunos percam “tempo”. Num processo de aprendizagem de um texto, topicalização, resumo e síntese são os meios para se chegar à estrutura do texto e conhecê-lo por dentro, para se levantar seus temas e ideias. Muito bom seu texto. Abraços. Milton

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