O tropicalismo e seu destino

6 dez

Fato importante na vida cultural da cidade de João Pessoa foi a inauguração, no dia 29 de novembro, quinta-feira passada, da Sala de Cinema da Funjope, que, muito apropriadamente, traz o nome do saudoso cineasta Linduarte Noronha (1930/2012). Ampla e confortável, a sala tem qualidade de som e imagem e promete ser uma boa pedida para quem transita no centro da cidade – um programa, diga-se de passagem, inteiramente gratuito.

Na ocasião foram exibidos dois filmes: o curta de Torquato Joel “Ikó-eté” (2012) e o longa de Ninho Moraes e Francisco César Filho “Futuro do pretérito – tropicalismo now” (2012).

Futuro do preterito 1

Em tom de denúncia, o curta de Joel é uma ficção sobre o esmagamento dos índios potiguaras, residentes mal tratados da Baía da Traição. Para quem acompanha a carreira do cineasta paraibano, não deixa de ser interessante constatá-lo menos abstrato e mais preocupado em construir uma narrativa linear que, sem perder em qualidade, venha a ser compreensível a um público mais leigo.

Em tom de celebração, o longa da dupla Moraes e César Filho, é um ensaio audio-visual sobre um dos movimentos culturais mais importantes e polêmicos da história recente do Brasil.

Até certo ponto, “Futuro do pretérito” se perfila nessa tendência atual do cinema brasileiro de, ficional ou documentalmente, tratar da nossa MPB, tendência esta sobre a qual já escrevi em ocasiões diversas, inclusive, fazendo o levantamento desses muitos “filmes sobre música”.

A sua novidade sobre os outros filmes dessa tendência consiste em não ser apenas um filme sobre o tropicalismo (Conferir o filme “Tropicália”, de Marcelo Machado), mas, um filme de alguma maneira “tropicalista”. A perspectiva seria aquela do autor que se identifica tanto com o seu assunto ao ponto de nele se transmudar – fato, aliás, generosamente indicado no título, tanto na palavra “futuro”, como no termo “now”. Outra maneira de dizer: a perspectiva seria a de enxergar o que, na nossa época trimilenar ainda é tropicalista.

Futuro do preterito 2

Não conheço a gênese do roteiro, porém, parece-me que tudo teria começado com a filmagem desse show musico-performático de Arthur Abujamra, no legendário Teatro Oficina de São Paulo, um show – a pedido dos diretores ou não – em si mesmo assumidamente, digamos assim, (neo)tropicalista, com interpretações extremamente criativas de, entre outros, os cantores Luiz Caldas, Susana Salles e Alexandre Nero.

A partir do show, os roteiristas/diretores teriam descambado para encenações em que o tropicalismo fosse o motivo, encenações estas que redimensionassem tanto o show filmado, quanto o próprio conceito de tropicalismo. (Conferir esquetes e intervenções artísticas de Gero Camilo, Helena Albergaria, Carlos Meceni e Alice Braga, esta encarnando a personagem Lindonéia, na canção). Depois disso, foi só correr atrás de depoentes conceitualmente equipados (Conferir: José Miguel Wisnick, Laymert Garcia dos Santos, Claudio Prado, Marcelo Ridenti, Gilberto Gil e Celso Favaretto, este último por alguma razão o mais solicitado) que, de alguma forma, contextualizassem o fenômeno em seus aspectos culturais, artísticos, comportamentais e ideológicos, sobretudo em sua necessária e inescapável relação com o tempo presente… E pronto, o filme estava completo e coeso, na medida em que compleição e coesão são possíveis para um projeto desses.

A ordem dos fatores pode não ter sido esta que descrevo, mas acho que o espírito foi.

Interessa que o produto corresponde às intenções e, de fato, “Futuro do pretérito – tropicalismo now” se revela ao mesmo tempo um inquietante misto inconsútil de investigação, experimentação e recriação que envolve e encanta o espectador, tenha este vivido de perto o tropicalismo em sua época, ou apenas escutado os seus ecos dissonantes.

Como se sabe, o tropicalismo não foi, na forma e no conteúdo, só musical e o filme explora a sua infindável abrangência. Obviamente, a regra – se há uma – é a convivência, pacífica ou não, das diferenças, no espaço e no tempo: Oswald de Andrade, Helio Oiticica, Glauber Rocha, Gil, Caetano (este só ausente graficamente), os festivais televisivos da época, a ditadura, o movimento hippie… de forma variada, tudo vem à tona, com a sugestão, claro, de que a coisa toda (daí o show de Abujamra funcionar como pivô!) persiste e promete continuar.

Não sei se o espectador se convence de que a nossa indefinida época de agora deflui dos três anos (67, 68 e 69) tropicalistas… Mas, que “Futuro do pretérito – tropicalismo now” convence como cinema proposto, não há dúvidas.

Futuro do preterito 3

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Uma resposta to “O tropicalismo e seu destino”

  1. Wellington Modesto dezembro 11, 2012 às 6:36 pm #

    Sobrea película do Torquato Joel: é bom saber que o cinema paraibano tem uma nova franquia agora que não existe mais o lixão do Róger.

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