Bullying e outros males

12 dez

Quando eu era criança e estudava no Grupo Escolar Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, me vi algumas vezes intimidado pelos colegas. Com uma hérnia escrotal congênita, fui um menino frágil, que nunca pôde, por exemplo, jogar futebol, ou praticar outras atividades físicas do gênero. Além disso, sofria de uma miopia igualmente congênita, que me obrigava a carregar na cara uns óculos tipo ´fundo de garrafa´. Magro e feio, fui, vez ou outra, ridicularizado por não exibir o comportamento saudável e viril da criançada da minha idade.

Ao me transferir, no ginasial, para o Colégio Lins de Vasconcelos, a coisa piorou. Era um colégio de ricos e eu, além dos maus predicados já citados, somados a uma timidez patológica, era pobre. Por causa dos óculos e do perfil todo, fui chamado pejorativamente de ´ceguinho´ e descartado do convívio da turma. Sim, inevitavelmente fui, aqui e acolá, vítima do que naquela época não tinha nome, mas, hoje se chama de bullying. Nunca bateram em mim, porém, os olhares de desprezo eram como pancadas que podiam doer mais.

Só mais tarde, já no segundo ano ginasial, quando um dos colegas ricos, descobriu que eu tinha um domínio razoável da língua inglesa, é que meu conceito mudou, e, surpreendentemente, virei quase um ídolo, sobretudo em dias de prova de Inglês. Claro que, a partir daí, usei o meu conhecimento para superar os percalços, mas confesso que não foi fácil

Por essas e outras, me comovi assistindo ao vídeo do professor Pedro Nunes “Escola sem preconceito” (2012), um documentário mais que pertinente e oportuno, sobre as difíceis e por vezes incontornáveis relações sociais dentro de um educandário. O exemplo tomado no vídeo é o do Lyceu Paraibano, mas, claro, poderia ser qualquer outro, na cidade ou alhures.

Pedro-Nunes1

Com depoimentos de alunos, professores, pedagogos e pesquisadores do assunto, o vídeo trata de praticamente todos os meandros no relacionamento entre docentes e discentes, incluindo a sua dimensão virtual. Preconceitos contra deficientes físicos, gays, lésbicas, transexuais; violência contra professores, violência entre alunos, etc: tudo vem à baila, sem censura e sem medo de tocar em tabus.

Ao lado de providenciais explicações teóricas que iluminam a problemática, ou encenações de casos típicos – como o da garota que, anonimamente, põe na internet o que pensa de uma colega lésbica – temos depoimentos comoventes que ilustram a dura realidade da sala de aula.

Dou destaque para um dos testemunhos mais contundentes do vídeo, o de Fernanda Benvenutty, que narra como a discriminação a sua transexualidade começava no transporte para a escola e tinha continuidade na sala de aula. Ia à aula a pé, para não sofrer chacota nos ônibus e, na escola, sentava na primeira fila para que, na hora da chamada, a turma não escutasse o seu nome masculino. Não frequentava o pátio no horário do recreio e só ia ao banheiro durante o período de aula, com receio de ser agredida. Como é sabido, Benvenutty formou-se e é hoje uma profissional respeitada.

Fernanda Benvenutty

O vídeo de Pedro Nunes é uma produção do “Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação sobre a Mulher e Relações de Sexo e Gênero” da UFPB, e, segundo consta, foi confeccionado para ser distribuído nas escolas do Estado, para a consideração de quem está no batente da sala de aula, professores, alunos e educadores de um modo geral. Neste sentido, a fala franca da atual Gestora em educação do Lyceu Paraibano, Francisca Vânia Rocha Nóbrega, é um dado particularmente significativo.

Em certo momento da projeção, um dos depoentes, o professor e ator Everaldo Vasconcelos, supondo que, na verdade, poucos diretores de escolas terão a coragem de exibir um vídeo assim polêmico e ousado, toma a iniciativa interativa de dirigir-se aos potenciais espectadores do vídeo e solicita, para aqueles cuja escola está tendo a coragem de exibi-lo, uma salva de palmas.

As minhas vão, antes disso, para esse empreendedor e destemido professor Pedro Nunes, guerreiro de muitas batalhas contra o preconceito.

Para retornar ao início desta matéria, sofri um pouco no Colégio Lins de Vasconcelos, mas houve quem tenha sofrido muito mais. Lembro-me de um aluno – Guilherme, se não me engano – que, por possuir trejeitos físicos nada condizentes com o comportamento machista preponderante, era chacoteado por todo mundo, ao ponto de, em nenhuma circunstância, ser levado a sério. Só algum tempo depois fui entender a gravidade do problema, quando vi, pela primeira vez, o filme de Vincente Minnelli “Chá e simpatia” (1955), mas, essa é outra estória, que fica para depois.

Em tempo: em sessões gratuitas “Escola sem preconceito” está sendo exibido no recém inaugurado Cine Funjope Linduarte Noronha. Uma boa pedida para quem pensa educação.

escola sem preconceito bastidores

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8 Respostas to “Bullying e outros males”

  1. Ana Elvira Steinbach Silva Raposo Torres dezembro 12, 2012 às 3:05 pm #

    J.BB, você pode imaginar como gostei dessa imagem pelos seus olhos da escola sem preconceitos. Filme para todos verem. Só lamento não estar em JP para ir até a Sala Linduarte Noronha.
    Ana Elvira

    • Vitória Lima dezembro 12, 2012 às 8:14 pm #

      Vou procurar vê-lo.
      Vitória

  2. Vitória Lima dezembro 12, 2012 às 8:16 pm #

    Já dei um curso de extensão na UEPB cujo tema foi O professor no cinema e um dos filmes que exibi for “Amanda e Monick” que trata do tema da transsexualidade. Os alunos gostaram muito.

  3. Dorivaldo Carlos dezembro 13, 2012 às 1:45 pm #

    Estudei com o professor Daniel Agra, na década de sessenta. O chamavam de “professor particular”, porque as aulas eram ministradas em sua escola/residência.
    Não sei se ainda existe esse tipo de ensino hoje. O bullying, ele mesmo era quem o praticava, bastasse um aluno falar durante as suas aulas, para apanhar de palmatória de madeira, isso a partir das mãos ao restante do corpo. Fiquei interessado em “Escola sem preconceito”, do Pedro Nunes, o que devo fazer para adquirir uma cópia do filme?
    p.s. apanhei muito do Daniel Agra porque escrevia com a mão esquerda, para ele, eu era filho do demônio.

  4. Normandia Macedo dezembro 13, 2012 às 8:21 pm #

    Oi João,
    Adorei a matéria!
    Gostei muito da forma como vc abordou o tema, partindo da sua história pessoal, com aquela humildade peculiar dos sábios, só vc…
    Quero muito poder ver esse vídeo e repassar para colegas que trabalham em escolas. Só o poder do conhecimento pode superar preconceitos.
    Um abraço no coração.

  5. Wellington Modesto dezembro 14, 2012 às 2:46 pm #

    Não se pode condenar inteiramente a crescente infantiulização da produção cultural de nossos dias quando até a discussão intelectual assume um cunho cada vez mais meramente comportamental ou psico-pedagógico.

  6. Jefferson C. dezembro 14, 2012 às 3:54 pm #

    Como se repetem histórias como a que você relatou João. Impressionante. Gostei imenso do post. Abração!!!

  7. Ramon Limeira Cavalcanti de Arruda dezembro 14, 2012 às 8:49 pm #

    Ótimo tomar conhecimento da produção, João, assim com da Sala Linduarte Noronha, que ignorava. O caso de Fernanda Benvenutty lança luz sobre a situação de travestis e de transgêneros, que, por não se enquadrarem nos padrões das escolas tradicionais, quando crianças, evadem-se e são privadas da preciosa educação que lhes garantiria oportunidades profissionais dignas e seguras, longe das ruas, e a cidadania plena. O contraponto feito no premiado curta “Amanda e Monick” chama atenção para o destino diferenciado da travesti que recebeu o amor e a proteção familiar, tornando-se professora, e da que desembocou na prostituição.

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