X e Y sobre “Lincoln”

31 jan

Vejo “Lincoln” (2012) e saio do cinema meio às escondidas, apelando para não encontrar conhecidos e ter que de chofre emitir opinião sobre o filme de Steven Spielberg. Não se trata de um filme difícil – muito pelo contrário – mas, mesmo assim, ou por isso mesmo, precisava de um tempo para organizar minhas impressões.

A primeira impressão é certamente a de previsibilidade. Um filme de Spielberg sobre o Presidente Lincoln? Convenhamos: antes de comprar o ingresso a gente já tem uma idéia do que vai ver e, ao ver, inevitavelmente, confirma. No meu caso, antes de ouvir falar que o diretor escolhera o tema, já quase adivinhava que um dia na sua vida ele o escolheria. Ele tem o perfil para…

A segunda impressão não é uma impressão, e sim, um desejo. Não de me deter sobre o filme e analisá-lo – o que, para o meu leitor, iria também soar previsível. “João Batista de Brito escrevendo sobre “Lincoln”? Já sei no que vai dar” – antevejo meu leitor dizendo de si pra si.

Lincoln 1

O desejo, digo, não de analisar o filme, mas de proceder a uma pesquisa de campo com os espectadores e levantar opiniões. Isto, sim, seria algo que gostaria de fazer sobre “Lincoln”… e para o que diviso um resultado interessante. Como não dispondo dos meios para tanto, ponho minha imaginação a funcionar e realizo, mentalmente, um estudo de Estética da Recepção ficcional. Com certeza, vou me divertir muito mais…

Para simplificar, concebo dois espectadores que tivessem estado sentados comigo no cinema, X do meu lado direito, e Y do meu lado esquerdo.

X achou o filme excelente, seguramente merecedor das tantas indicações ao Oscar. A reconstituição de época é impecável, a direção perfeita, o roteiro fiel à história, as interpretações soberbas, sobretudo a titular, de Daniel Day Lewis. Mas X tampouco esquece a de Sally Field no papel da Sra Lincoln, angustiada com o destino do filho e o peso moral nas costas do marido; e ainda a de Thomas Lee Jones como Thaddeus Stevens, o líder dos republicanos, a de David Strathairn como William Seward, o Secretário de Estado, e a de Lee Pace como Fernando Wood, o grande rival democrata na tribuna. X gostou imensamente da fotografia quase sempre escura, centrada em ambientes fechados, para dar ideia do sufocamento do protagonista, premido entre sustar a guerra civil, onde centenas morriam por dia, ou fazer passar, por fim e à força, uma lei que sabia decisiva para o futuro do país. A música de John Williams, como esperado, veio a contento, na opinião de X, e fez o discreto comentário do temário. No geral, o esperado da confluência de um grande diretor, um grande ator, um grande personagem e um grande tema – a abolição da escravatura na primeira democracia do mundo. Em especial, X achou o final interessante, quando o roteiro evita a famosa (tantas vezes reconstituída) cena do assassinato do Presidente no Teatro Ford, fazendo a notícia chegar ao filho menor, Tad, que, noutro teatro, assistia a uma outra peça. Para X, a licença poética do discurso pos-mortem foi uma maneira bem adequada de fechar a homenagem a esse imenso vulto. Enfim, um filme inesquecível.

Lincoln 2

Já Y não gostou: achou que o filme só está com tantas indicações porque o presidente enfocado é o americano – fosse o de um outro país e neco. Y cansou-se com as duas horas e meia de projeção. Pensou que fosse assistir à narrativa da empolgante vida desse proeminente americano e, para sua decepção, tudo girou em torno de intermináveis e cansativas discussões políticas sobre a aprovação, ou não, da Décima Terceira Emenda que abolia a escravidão no país. Até pareceu que a abolição foi o tema do filme, e não Lincoln, um mero coadjuvante em relação a ela. No filme todo, se se contarem empregados domésticos e eventuais soldados, são mais de cem personagens, todos com direito a voz, e numa situação em que quase tudo no desenvolvimento da estória depende da argumentação oral, pró ou contra, uma mesma questão. Republicanos, democratas, líderes de partidos, figuras secundárias… são tantos envolvidos no tema da escravatura que Y os confundiu e nem depois do filme findo foi capaz de reconstituir o quadro político descrito. Foi falação em excesso, para Y, que ficou de vista fatigada de ler a legenda. De Lincoln só se tem mesmo alguns momentos breves de seus últimos meses e mesmo assim nada que dê a dimensão de sua grandeza, nem as querelas com os familiares, muito menos aquelas piadinhas deslocadas que ele conta. Y achou a fotografia exageradamente escura e a música de John Williams foi somente correta. Em especial, o final lhe soou decepcionante – tão decepcionante quanto o filme, aliás – quando se substitui o cenário na noite do assassinato, de um teatro para outro, o que lhe pareceu gratuito. Para Y aquele discurso final, depois de Lincoln morto, é uma licença sem poética, óbvia e desnecessária. Enfim, um filme perfeitamente esquecível.

Caro leitor, quem lhe parece mais certo: X ou Y? Ou sua impressão do filme equivale a uma outra letra, Z talvez?

Lincoln 3

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13 Respostas to “X e Y sobre “Lincoln””

  1. vitoria lima janeiro 31, 2013 às 1:21 pm #

    Enfim…uma resenha esquizofrênica!

  2. Glória janeiro 31, 2013 às 2:47 pm #

    Achei o filme chato, entediante, diria até decepcionante… Certamente fico com Y, lamentando apenas não ter saído do cinema antes do seu término. Parabéns pela resenha, Johninho, muito criativa, especialmente por evitar maniqueísmos.

  3. Josafá Soares janeiro 31, 2013 às 3:19 pm #

    Caro JB, me descobri um perfeito X.
    O meu lado Y só aflorou em razão do seu total desconhecimento da cena política americana da época, coisa que qualquer estudante médio americano conhece bem. Mas aí eu digo: Y, isto é um problema meu, não do filme de época intitulado Lincoln. (Aliás, depois do filme li bastante sobre este momento americano (o que deveria ter feito antes) e Y acalmou-se).
    Abraços

    • João Batista de Brito fevereiro 1, 2013 às 12:46 pm #

      Josafá, amigo, revise seu comentário com urgência; acho que na segunda linha tem uma troca de letra que complica o sentido todo. Revise e, por favor, comente a revisão. Abraço de João.

      • Marcos Dutra junho 2, 2013 às 10:08 pm #

        Talvez a letra a ser trocada seja a “s” de seu por “m” de meu. Estou certo Sr. João?

      • João Batista de Brito junho 2, 2013 às 11:00 pm #

        Sim, isso mesmo Marcos Dutra. Você acertou em cheio. Muito obrigado. João.

      • Marcos Dutra junho 3, 2013 às 1:00 am #

        …Não quis colocar lenha na fogueira, porém achei sua resposta ao nosso amigo Josafá devéras inteligente e a altura das farpas alheias desse amigo. O que é fascinante nos debates de opiniões é a diversidade de personalidades. Tento respeitar cada uma delas. Pois do contrário como posso conquistar o respeito ou estabelecer um ambiente de confiança mútua? Veja o que a troca de uma simples letra é capaz de fazer??!! rss Letras a parte… agora sobre o nosso velho amigo A. Lincoln. Me interessei pelo assunto a mais de 25 anos atrás, numa biblioteca pública. Devorei um livro de mais ou menos 500 pgs sobre a vida desse homem. Desde a infância até a pres. dos EUA. Algumas das frases de Lincoln começaram a fazer parte de minha vida. depois disso. Um grande exemplo de Lider e ser humano. Se ele errou algumas vezes, é entre ele e quem ele prejudicou. Parabéns pelo seu Blog. Caso você souber de algum livro sobre a Bibliografia de Lincoln (em português), ficaria grato se compartilhasse tal informação. Grande abraço. Marcos Dutra (SUD)

  4. rubenslucena janeiro 31, 2013 às 7:37 pm #

    Fico com a alternativa Z.

  5. Clelia Barqueta janeiro 31, 2013 às 11:39 pm #

    Interessantíssimo como o tempo todo eles batem na tecla de que Lincoln “só deu cargo” e que “de jeito algum” deu “em espécie”. Achei isso hipócrita demais. Mesmo porque não vejo diferença alguma. Bem Machiavel.

  6. Wellington Modesto fevereiro 1, 2013 às 1:31 am #

    Eu não vi o filme mas sei bem o que esperar: de grande vulto o protagonista passa a apenas mais um coadjuvante em uma mixórdia pretensamente polifônica cheia da politicagem e da demagogia mais baixas.

  7. Ramon Limeira Cavalcanti de Arruda fevereiro 8, 2013 às 9:23 pm #

    João, ainda não assisti ao filme, mas fiquei com a impressão que X quase viu o filme na mesma poltrona do cinema em que você sentou, ao mesmo tempo. Poderia apostar que vocês dois tomaram um café depois e comentaram que a opinião de Y, se tem um ou outro ponto pertinente, é ingênua no geral. Como sempre, seu texto é um deleite. Abraço grande!

    • João Batista de Brito fevereiro 9, 2013 às 12:58 pm #

      Ramon, gostei imenso do lado ficcional do seu comentário. Como fica óbvio neste meu post sobre “Lincoln”, eu também adoro ficção. Abraço forte de João.

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