O som e a fúria ao redor

6 mar

Entra, finalmente, no circuito comercial o super aguardado “O som ao redor” (2012), primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que revela o talento e a competência expostas nos seus curtas.

Construído em cima de duas pulsões supostamente antagônicas, o filme chama a atenção, entre outras coisas, pela originalidade de seu roteiro, aqui o meu enfoque escolhido. De um lado, temos uma pulsão descritiva, documental, realista, epocal, cujo limite seria a crônica cinematográfica; de outro lado, uma pulsão narrativa, fabulatória, ficcional, cujo limite seria, digamos, o thriller.

Para o espectador a crônica vem primeiro, e o filme parece limitar-se a fazer o retrato de um bairro classe média de Recife, até que, menos óbvia, a segunda pulsão começa a manifestar-se, para completar-se na tomada final, quando estampidos de fogos de artifícios encobrem disparos de armas que ´resolvem´ um caso de vendetta familiar.

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Vejam, por exemplo, que a faceta descritiva já tem muito da metonímia que está no título: as cenas são do cotidiano, mas, a ênfase é na poluição sonora que caracteriza a vida urbana no Brasil – latidos de cães, trânsito, furadeiras, gritos infantis, televisões ligadas, carrinhos de cd pirata, aspiradores de pó, etc… são os sons ao redor que infernizam a existência e escondem uma violência subliminar. Aliás, poucos filmes na história do cinema tematizaram o ruído (duplo sentido: de perturbação sonora e distúrbio semiótico na comunicação) do modo como aqui está feito. Fico imaginando o quanto os silenciosos espectadores europeus terão dificuldade em compreender esse barulho generalizado.

Com o mesmo comportamento metonímico (ninguém vê o que ocorre), a violência – já não mais tão subliminar – vai ter um ápice na referida cena final, quando o filme nos descortina a sua faceta de thriller; um que foge aos padrões do gênero como o diabo da cruz, mas, de todo jeito, um thriller.

Sim, nem a descrição é fiel ao real, nem a narração é convencional, pois inúmeros detalhes problematizam o realismo da primeira pulsão, e vários incidentes perturbam o desenvolvimento da narratividade na segunda.

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Exemplos do primeiro caso: de uma dona de casa nordestina não se espera que se masturbe ao som da máquina de lavar, nem que seus filhos sejam obrigados a estudar chinês; por que a empregadinha que é levada pelo amante a um apartamento alheio, só quer fazer amor em determinado compartimento? Como explicar os banhos noturnos do idoso Sr Francisco, num setor da praia sujeito a ataques de tubarões? Os personagens possuem suas idiossincrasias e a lógica – se há uma –, que vai muito além do típico, parece ser a de que ´de perto, ninguém é normal´.

Do mesmo modo, e apesar da divisão do filme em três partes indicadas por letreiros, o decorrer narrativo está repleto de lacunas propositais e perturbadoras. Um exemplo típico está na relação entre os personagens Francisco (feito por Solha) e seu neto Dinho: este é o protégé daquele, e, no entanto, raramente, ou nunca, os vemos juntos na tela. A visita à fazenda é outro exemplo que vem ao caso, toda mostrada em elipses, ficando-se apenas com imagens sintomáticas, como a do banho de cachoeira de águas subitamente avermelhadas, espécie de prolepse do desenlace. Aliás, única linha amorosa da estória toda, o caso entre João e Sofia chega a um término desencantado, sem que saibamos como nem por quê, isto para não citar o final em aberto, de nós graficamente escondido…

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No mesmo sentido de driblar a convenção, vários incidentes retardam o tempo, sem relação aparente com o narrado. A reunião de condomínio para demitir o porteiro do prédio, bem como o caso do pivete trepado na árvore, podem ser entendidos como itens da pulsão descritiva, porém, o argentino perdido na vizinhança, o discutido olho cego de um dos vigilantes, aquela bola que um garoto sem querer chuta para o apartamento a alugar, e os pés descalços da empregada passando ferro são de mais difícil explicação…

As interpretações dos atores são, todas elas, excelentes, mas “O som ao redor” me parece um caprichoso “filme de roteiro” onde concepção de cenas, manuseio de som e edição de imagens são perfeitos. Com o seu tema de vingança, a trama poderia – se se quisesse – ser posta nos seguintes termos: rapazes do Interior se disfarçam de vigilantes para vingar a morte do pai, crime cometido por velho latifundiário, hoje aposentando e residente solitário da praia de Boa Viagem; junto com o cotidiano dos vizinhos e parentes do velho senhor, esta é a diegese do filme, porém, como este resumo dá uma idéia longínqua do que se vê na tela!

Se a coisa mais explícita no filme de Kleber Mendonça é o som, a menos explicitada (e por isso mesmo, mais gritante) é a violência, tanto a atual, urbana, como aquela outra, arcaica, que vem do passado do velho Francisco e seu Nordeste latifundiário. Para usar uma metáfora intertextual bem cabível (Cf “MacBeth”), são o som e a fúria numa mesma isotopia fílmica.

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11 Respostas to “O som e a fúria ao redor”

  1. Ana Adelaide Peixoto março 6, 2013 às 2:41 pm #

    Ler você depois de ver este filme primoroso, é mais que uma aula. é puro prazer do texto! Maravilha de crítica, João. Parabéns! abraços.

  2. W. J. Solha março 6, 2013 às 2:48 pm #

    Belo comentário, João, que acabo de remeter pro Kleber. O Som ao Redor é o tipo de roteiro, realmente, em que cabe também a frase do Hamlet “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, acho que justamente porque permite uma infinidade de interpretações. É mais ou menos como se você passasse uma semana morando no bairro do Setubal e saísse dele com várias suposições inconclusas do que se passa lá ( ou em qualquer cidade deste Brasil de passado sombrio e futuro duvidoso ), mas muitas suspeitas. Imagine, por exemplo, que no laboratório que fizemos, eu, Irandhir Santos e Sebastião Formiga, Kleber nos fez ver a sequência de Blade Runner em que o replicante sobe, de elevador, para o topo da pirâmide em que vive seu criador e, lá, o mata. Ridley Scott – evidentemente – nos remete, subliminarmente, a uma parábola de nossa revolta contra Deus pelas contingências que não aceitamos, da vida. Kleber – parece-me claro – também. Isso num filme em que parece que se ilustra uma nova versão de Casa Grande & Senzala. Vê-se, em O Som ao Redor, que meu personagem (seu Francisco) tem um neto bom como Abel (João, Gustavo Jahn) e outro, mau como Caim (Dinho, vivido pelo Yuri), aos quais dedico o mesmo carinho. Ao Dinho o velho o demonstra na cobertura que lhe dá junto aos novos seguranças e, pouco antes de ser morto, quando o abraça no sofá,. com a neta aniversariante; e ao João, no pesadelo do rapaz sobre a cachoeira do engenho. É um modo extraordinário de se fazer um filme. Que permite, como se faz com os quadros nos museus, análises de visitante e estudos com raios-x, revelando todas as intenções e “pentimenti” do artista. .

  3. Assuero março 7, 2013 às 1:37 am #

    João, já havia ouvido muito sobre o filme, não assisti ainda, mas seu comentário despertou-me mais a ainda o desejo de assisti-lo. Grato.

  4. Lula Mousinho março 7, 2013 às 10:55 am #

    Beleza de texto e fala esclarecedora também de Solha, num filme com vários níveis de sinais, para ir pensando por muito tempo. O filme pega o pulso do contemporâneo (para usar um lugar-comum que também é tema) e da vida diária com um artesanato de linguagem (e uma delicadeza e uma violência!) que vc apanha muito bem, como sempre. Grandes esperanças para o cinema brasileiro e promessa de felicidade aqui na visada crítica.

  5. JOEDSON ADRIANO março 7, 2013 às 11:50 pm #

    beleza
    acho que era isso que eu diria se fosse crítico de cinema
    só acrescento duas coisas(as quais acho que ficaram implícitas no seu texto)
    1- é um filme de diretor
    2- não é um filme de texto

    senti falta de grandes cenas e grandes diálogos
    apesar das muitas boas cenas e falas

  6. fatimaduques março 16, 2013 às 12:50 pm #

    João, ontem assisti a O som ao redor. Como de costume revejo alguma resenha que já tenha lido anteriormente e as suas sempre repito; é bom as reler tendo já nossa própria visão. Aproveito e lhe envio um texto singelo mas que também expressou bem o espírito do filme. Isso caso vc não tenha visto, é claro. Passarei o link do seu blog tb para quem escreveu esta. Assim, vou sempre aprendendo. E como é bom ver um filme da prata da casa feito com qualidade e principalmente sensibilidade. Também gostei de ler o comentário de Solha, cuja aisance no filme é admirável. Um abraço. http://revistasera.info/critica-o-som-ao-redor/

    • João Batista de Brito março 18, 2013 às 12:04 pm #

      Obrigado, Fátima, por essas preciosas articulações virtuais que você sempre vem fazendo com tanta propriedade. Muito bom o texto no blog indicado. Abraço de João.

  7. w. j. solha março 18, 2013 às 1:14 pm #

    O comentário de Fátima, acima, me faz ver o quanto é curiosa a diversidade de visões que as pessoas têm de uma mesma coisa. Ela me deu destaque no filme, o que lhe agradeço agora, mas o Caetano Veloso, num comentário que nos deixou a todos eufóricos, no jornal O Globo, exaltou o Irandhir Santos e a Maeve Jinkings e não tocou no meu nome. Já o Jabor pespegou um enorme elogio a mim e ao Irandhir, omitiu Maeve. Tem gente que pôs Maeve no céu e apagou o resto, a Thamara Duarte enfatizou a performance do Sebastião Formiga, etc, etc. Isso me lembra que eu e o Eli-Eri fizemos um concerto, em 1992 – Os Indispensáveis – de que foram feitos vários vídeos por encomenda dos participantes. Assim, o contratado pelo tenor Elton centralizou o espetáculo nele, o contratado pelo Eli-Eri não desgrudou um momento sequer dele, que era também o regente, enquanto o grupo Sem Censura teve o registro única e exclusivamente de seu pessoal dançando. Eli-Eri me pediu, então, e fiz isso; uma montagem servindo-me de todos ( havia outros) vídeos. Aí, sim, tivemos um plano geral da sinfônica com o coro, os solistas e as dançarinas, maestro no meio, corte para o movimento inicial da batuta, músicos em ação, coro, corte pra dançarinas, pro tenor no momento em que canta sua primeira nota, etc. etc. O fato é que Kleber e seus assessores – Leonardo Lacca e Amanda Gabriel – têm grande mérito no trabalho de todo mundo, em O Som ao Redor. Acho o Gustavo Jahn (que faz meu neto mais velho) ótimo, também ótimo o Yuri (que faz meu neto mais novo). Fabuloso o flanelinha que risca a traseira do carro da madame que não lhe dá gorgeta, Ótimo o Nivaldo, que faz o vigilante cego de um olho. Foi muito, mas muito bom mesmo trabalhar numa produção que se deu ao trabalho de um laboratório intenso e de ensaios em que se cobrava exatidão e improviso o tempo todo.

  8. fatimaduques março 21, 2013 às 4:01 am #

    Essa diversidade de visões a que Solha se refere, creio eu, é justo o que faz a arte valer, ou seja, ela toca cada um de modo peculiar. Todos estavam ótimos, mas o destaque que dei foi devido ao trabalho irretocável como o personagem mais complexo do filme, que condensa presente e passado, amor e ódio, pujança e decadência, uma espécie de personagem-elo sem ser central nem condutor, sugerindo uma “nostalgia adaptada” aos novos tempos e cenários, numa ótima interpretação: não há Solha, só Francisco; imagino ser isso o que o atores desejam. E claro que essa é minha opinião, não venha Caetano brigar comigo pq não citei os preferidos dele. Falando sério, que bom que o filme e todos merecem que se tire o chapéu.

  9. w. j. solha março 21, 2013 às 12:33 pm #

    Esse comentário de Fátima Duques passou a constar, em meu arquivo, como uma das medalhas que ostento no peito com orgulho.

  10. Karine Roha novembro 1, 2013 às 12:44 am #

    Todos esses comentários irão ajudar muitíssimo no trabalho que preciso entregar este semestre.
    A proposta era ter lido o Casa-Grande e Senzala antes de assistir ao filme mas eu cometi o desplante de não ler e não achar necessário, até, até ler os comentários e as críticas sobre o filme aqui postados. Realmente me sinto até motivada a lê-lo de agora em diante.

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