Um filme que doi

10 abr

Que os Estados Unidos foram determinantes no golpe militar brasileiro de 64 todo mundo sabe. Eu, por exemplo, sei, mas se me pedissem as provas, eu, evidentemente, não as detenho. Li, em 1981, o livro de René Dreyfuss “1964: a conquista do estado”, mas nem sei mais por onde andam as suas setecentas ou oitocentas páginas.

Pois bem, se provas porventura faltassem – o que não é o caso – quem nos exibe as mais decisivas, indiscutíveis e esclarecedoras é este mais que oportuno documentário de Camilo Tavares “O dia que durou 21 anos”, em cartaz na cidade.

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

Kennedy e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon

 Fruto de anos de pesquisa nos arquivos secretos do Departamento de Estado Americano, na Casa Branca, e mesmo na CIA, o filme exibe documentos que, de uma forma incontestável, comprovam o completo envolvimento dos governos de Kennedy e Lyndon Johnson na desmontagem da gestão João Goulart e na maquinação do golpe militar brasileiro. Notável é como a equipe do filme conseguiu registros de gravações telefônicas em que os presidentes americanos tratam diretamente do assunto.

A essas provas incontestes se somam depoimentos de historiadores e/ou envolvidos que explicam em detalhes como a coisa toda aconteceu. Instrutivos são os depoimentos de americanos como James Green, da Brown University, e Peter Korn Bluh, do Arquivo de Segurança Nacional, porém, a lição mais clara de história acho que vem do professor brasileiro Carlos Fico, da UFRJ, sem coincidência aquele a quem se deu mais tempo de tela: sua fala é uma aula no melhor sentido da palavra.

O “enredo” americano da história é simples, ou assim parece: apavorado com a revolução de Castro e a aparente ascensão do comunismo no hemisfério ocidental, o Governo americano temia que o Brasil se transformasse numa imensa Cuba, e, por isso, fica, desde 1959, de olho no “país mais importante da América Latina”, e, quando a situação se avulta, não hesita em planejar, em caso de necessidade, um ataque naval, com desembarque previsto para o Porto de Santos – esquema secretamente apelidado – não sem ironia – de “Brother Sam”. Como, na hora do pega pra capar, Jango foge para o Uruguai, o golpe militar brasileiro ficou tão fácil que esse ataque naval foi descartado, e o apoio à ditadura implantada em primeiro de abril de 1964 pôde continuar sendo, embora decisivo e substancial, mais discreto.

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Lincoln Gordon, um pivô no esquema intervencionista

Para quem não está assim tão por dentro da história é interessante saber que um pivô na coisa toda foi o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, uma figura mais paranóica que os próprios Kennedy e Johnson. Foi, por exemplo, iniciativa dele, fazer Kennedy convidar Jango para visitar a base militar de Nebraska – espécie de aviso diplomático com ameaça velada. Mostrada no filme com expressões sintomáticas sublinhadas, a troca de memorandos entre Gordon e os presidentes americanos é uma preciosidade e um dos trunfos do filme.

Se o golpe foi fácil, os desdobramentos – que nós brasileiros conhecemos na pele – de jeito nenhum. Para não falar na primeira fase da ditadura (cassações em massa, perseguições políticas, dissolução dos partidos), quando, em 68, veio o famigerado AI-5 e suas seqüelas, consta que conselheiros americanos – além de Gordon, o adido militar Verner Walters – teriam sugerido à presidência americana “a golden silence”, um silêncio dourado. Referindo-se às torturas e assassinatos do período Médici, um dos depoentes afirma que os Estados Unidos não previram o horror que estava saindo da “caixa de Pandora” (sic) e, estrategicamente, mantiveram o ouro do silêncio.

Jango defendendo suas reformas de base

Jango defendendo suas reformas de base

A direção do filme tem o cuidado de incluir depoentes brasileiros do lado do golpe, entre os quais o ex-diretor do SNI, o Cel Newton Cruz que, em sua truculência, não deixa de criticar a longevidade da ditadura, uma das mais duradouras da América Latina: “A Revolução era para arrumar a casa – diz ele – ninguém passa vinte anos para arrumar uma casa”.

O único problema do filme de Camilo Tavares é ser curto (77 minutos) para o tamanho do problema que enfrenta, e a rigor não cobre os vinte e um anos de que fala o seu título. Por exemplo, os papeis do IPES e IBAD, institutos tão importantes na preparação do golpe, ficam resumidos e, mais tarde, as gestões dos presidentes que se seguiram a Castelo Branco, aparecem como notícias breves.

O filme se fecha com a chegada à cidade do México dos quinze presos políticos brasileiros, como se sabe, trocados, em 69, pelo embaixador Charles Elbrick, este seqüestrado pelos militantes do MR-8. Entre esses presos, que corajosamente denunciaram as torturas do governo Médici à imprensa internacional, estava Flávio Tavares, pai do autor do filme e seu co-roteirista.

Ao decidir escrever sobre “O dia que durou 21 anos” pensei em fazer um texto de tom subjetivo sobre minha experiência pessoal com os anos da ditadura. Desisti, mas, digo apenas que saí do cinema perturbado e comovido.

Em vários sentidos, um filme que doi.

os presos políticos libertados no México

os presos políticos libertados no México

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5 Respostas to “Um filme que doi”

  1. Gilberto de Sousa Lucena abril 10, 2013 às 1:28 pm #

    João,

    Sempre me interessei pelo tema “ditadura militar brasileira”. Li muito sobre o assunto. Tenho que ir ver esse incrível documentário. Assisti, no Programa do Jô, a entrevista com os autores do filme (pai e filho) e fiquei impressionado com seus depoimentos acerca da busca da documentação em arquivos norte-americanos e do relato de detalhes inéditos sobre a trama para se implantar uma ditadura em nosso Brasil. Vale a pena tomar conhecimento – via documentário de Tavares – dos “segredos” que estavam por trás do sórdido empreendimento maquinado nos EUA.
    Um abraço.

    Gilberto

  2. Fernando Trevas Falcone abril 10, 2013 às 1:38 pm #

    João,

    É um filme que precisa ser visto pela novas gerações, que não conhecem esta parte da nossa História. E como a Grande Mídia apoiou enfaticamente o Golpe, não há grande interesse em levar a discussão adiante.
    Tenho certeza que teu texto vai contribuir para que se foque mais sobre o tema.

    Grande abraço,

    Fernando

  3. Luiz Antonio Mousinho abril 10, 2013 às 2:44 pm #

    João, beleza de texto que me move mais rapidamente a ir ao cinema para conferir esse olhar construído e com tanto material inédito. Bem-vindo filme e texto num momento em que algumas correntes relativizam a ditadura. Da minha geração, resta a memória da indignação com as limitações ainda existentes no tempo da abertura, o medo do perigo de retrocesso naquela época e a rebordosa terrível de ter passado a juventude num Brasil endividado, sem perspectivas aparentes e com uma classe média falida (nos anos 80 e 90), sem horizonte de empregabilidade para a juventude e vivendo num meio de um abismo social em termos de distribuição de renda que até hoje alimenta a violência urbana que está aí. Enfim, grato mais uma vez por sua palavra lúcida.

  4. Wellyson Marlon Jr. abril 10, 2013 às 6:11 pm #

    O dia que durou 21 anos, o melhor título possível para o tema. Já li muito sobre o horrendo período de nossa história recente. Um filme a ser divulgado!

  5. Humberto Pedrosa Espinola abril 15, 2013 às 10:40 am #

    Caro João
    Não vi, ainda, o filme.
    Quanto ao envolvimento do governo Americano na conspiração para o golpe de 1964, fiquei impressionado com a reconstituição romanceada pelo escritor francês Jean-Paul Delfino em seu livro “Dans l’Ombre du Condor”, que jamais foi traduzido no Brasil e faz parte de uma trilogia completada por “Corcovado”( traduzido no Brasil) e “Samba Triste”.
    Segundo ele me disse, foram pesquisas extensas, sobretudo na documentação americana relativa a chamada “Operação Condor”.
    Um grande abraço
    Humberto

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