Entre Auguste e Jean

8 maio

Filho de peixe é peixinho… Será? Bem, no caso da família francesa Renoir não foi exatamente assim. Auguste Renoir foi pintor, um dos maiores do mundo, e o filho, cineasta, também um dos maiores do mundo. E sem o diminutivo do dito popular!

Incrível é que uma jovem mulher tenha estado na transição familiar entre pintura e cinema, como uma espécie de elo amoroso e mesmo de musa inspiradora.

É do que trata o filme “Renoir” (Gilles Bourdos, 2012), entre nós exibido na recente terceira versão do Festival Varilux de Cinema Francês.

renoir poster

Em plena Primeira Guerra Mundial, no verão de 1915, chega de bicicleta à mansão dos Renoir, em Cagnes-aux-mer, na Riviera francesa, a jovem Andrée, com o intuito de ser modelo para o grande Auguste Renoir. E o convite fora um dia, curiosamente, ideia da esposa do pintor, agora falecida.

Pesaroso com a morte da esposa e com o alistamento militar de um dos filhos, o velho pintor, aos 74 anos de idade, carrega a cruz dos anos como pode, sem o entusiasmo que fizera dele o mestre do impressionismo pictórico no seu país.

A modelo é aceita (“uma desconhecida enviada por uma morta” – diz Auguste dela) e quando o idoso pintor está se reanimando, voltando a erguer o pincel e espalhar suas tintas, eis que retorna da guerra, ferido e em muletas, o filho Jean. A partir daí a atenção da moça vai se dividir entre pai e filho, o primeiro em fim de carreira e vida, o segundo, a iniciar-se, não na pintura, mas nesse novo meio que é o cinema. Sim, o cinema, embora tenha lhe garantido o irmão mais velho, que: ´na França essa coisa de cinema não dá certo´.

Michel Bouquet, Christa Theret e Vincent Rottiers em cena do filme

Michel Bouquet, Christa Theret e Vincent Rottiers em cena do filme

Sem coincidência, Auguste morre em 1919, ano em que Jean e Andrée contraem matrimônio. A última modelo de Auguste Renoir, que está em alguns de seus quadros mais famosos, como “As banhistas”, vai ser – agora com novo nome artístico, Cathérine Hessling – a atriz de vários dos filmes mudos de Jean Renoir.

Se a pintura de Auguste Renoir dispensa apresentações, chamo a atenção de quem não lembra, ou não sabe, para o fato decisivo de que Jean Renoir teve, na área cinematográfica, o mesmo destaque que o pai teve nas artes plásticas, isto para a França e para o mundo. Sua filmografia é rica e vasta e recobre fases diferentes do cinema francês, de modo que, para não me estender, ressalto um único filme seu, aquele que, em torno de um privilegiado segundo ou terceiro lugar, vem constando, há meio século, da lista dos dez filmes mais perfeitos já feitos, segundo a crítica internacional: “A regra do jogo” (“La règle du jeux”, 1939).

Como se percebe, o filme de Gilles Bourdos detém uma importância histórica enorme, na medida em que retrata essa passagem delicada na arte francesa, da grande pintura do século XIX, para o grande cinema do século XX. Como dito, com o charme adicional, biográfico e dramático, de ter havido um elo feminino ligando as duas coisas.

Mas, se o filme porventura atrai a quem conhece de perto as dimensões artísticas dos dois Renoir, fico pensando o que ocorre, em termos recepcionais, com quem não dispõe desse conhecimento. Sim, me indago como a ele reage um espectador sem familiaridade com as histórias respectivas da pintura e do cinema.

A bela Andrée, elo entre pintura e cinema

A bela Andrée, elo entre pintura e cinema

Sem dúvida, trata-se de um filme que, para funcionar a contento, precisa de uma “muleta referencial”, sem a qual praticamente não anda. Sua diegese não se completa sem o contexto histórico a que só faz referência por tabela, como um significante cujo significado escapasse à imanência da mensagem. Quase sem desdobramentos, toda a narrativa se centra numa situação única (uma bela modelo e dois homens, pai e filho, dentro de um mesmo cenário), cujos tempos (passado e futuro) estão off-screen.

Assim, o seu roteiro é – ou soa, para o espectador desavisado – exíguo, escasso, minguado, e o conflito é indireto, inexplícito, pouco evidente, às vezes obscuro. A narração é extremamente lenta e cheia de elipses, e a estória termina abruptamente, aos 110 minutos de projeção, quando menos se esperava. Os atores (o veterano Michel Bouquet, o jovem Vincent Rottiers e a bela Christa Theret) estão bem nos seus respectivos papéis (Auguste, Jean e Andrée)… se não contarmos o fato de que não tiveram tempo de tela para maior aprofundamento.

Tenho a impressão de que até para os apreciadores das obras de Auguste e Jean Renoir o filme é frustrante, se não como cinema, ao menos nesse particular de contar tão pouco, quando havia tempo suficiente para estender-se em tema tão fascinante.

Tudo bem, o título com uma palavra só, “Renoir”, é proposital para sugerir que o assunto do filme não é, nem Auguste nem Jean, e sim a interface (existencial, histórica, estética) entre os dois personagens, porém, não sei se isso justifica a escassez de tempo de tela, e outras exiguidades mais.

Cena de "A regra do jogo" (1939), filme assíduo na lista dos dez melhores do mundo

Cena de “A regra do jogo” (1939), filme assíduo na lista dos dez melhores do mundo

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Uma resposta to “Entre Auguste e Jean”

  1. w. j. solha maio 20, 2013 às 1:11 pm #

    Estou velho mesmo, João, pois nem me abalei pra ver o “Renoir”, o que me faz lembrar 1970, quando cheguei a João Pessoa, vindo de oito anos de Pombal e de seu cinema único, o Lux, e – sequioso – passei a frequentat o Municipal, o Plaza, mas também o Santo Antonio, o Brasil, o Metrópole, onde quer que passasse um bom filme. Sabe o que não me cativou… e me pareceu “trair” o Renoir pintor?: a atriz. Não tem aqueles lábios à Bardot, que se vê nas musas do impressionista.

    Solha

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