A onda

22 maio

Na Alemanha de hoje, o Nazismo é coisa do passado. Será? Seja a resposta afirmativa ou negativa, a questão é trazida à tona no filme “A Onda” (“Die Welle”, 2008), recentemente exibido entre nós, dentro da programação de cinema da Estação Cabo Branco.

Em uma escola de segundo grau, um professor de Autocracia resolve conduzir um experimento com sua turma. E o experimento consiste em fazer a classe inteira funcionar, ela mesma, como uma autocracia, ou seja, todos unidos para o que der e vier, seguindo os mesmos propósitos, vestidos do mesmo modo, e com um gesto para identificar os participantes, cada um encarregado de propagar “a Onda” – denominação do grupo. Apesar de algumas resistências, a classe quase toda adere à proposta e, de repente, a Onda – feito uma bolha assassina – começa a crescer e incomodar, no colégio e na cidade, a quem não a segue. Com o passar dos dias, alguns dos participantes da Onda vão virando fanáticos e, em certo momento decisivo, o professor dá-se conta de que a coisa saiu do controle. Ele só não imaginava o quanto, e, inevitavelmente, a estória toda termina em tragédia.

die-welle poster

Muito bem dirigido pelo quase novato Dennis Gansel, o filme prende o espectador desde o início e o faz acompanhar a narrativa com interesse, sobretudo quando se considera que tudo acontece em seis dias, de segunda à sábado, cada um dos dias marcado na tela. É, de fato, impressionante como, nesse breve tempo, podemos acompanhar, não apenas a formação e desenvolvimento da Onda, mas as transformações, emocionais, psicológicas e ideológicas por que passa todo um grupo de jovens. E isso de modo bastante realista.

Espécie de “ovo de serpente” (como se sabe, filme de Bergman, sobre o mesmo assunto), inevitavelmente o experimento do professor aparece como um microcosmo do que foi o nazismo, ou, se for o caso, como o microcosmo de qualquer regime totalitário e ditatorial.

Naturalmente, trata-se de um filme sobre o coletivo, lembrando aquela concepção chapliniana de que toda multidão é um monstro acéfalo (Conferir “Luzes da ribalta”), porém, ao meio do conjunto, dois personagens, pelas posições simétricas que ocupam na diegese, me chamaram a atenção como pontos chave para discutir os elos fugazes entre comportamento individual e comportamento social.

die welle 2

O primeiro é aquele estudante que assume a Onda como o que lhe faltava na vida, e radicaliza a sua conduta, ao ponto de se oferecer como vigilante do professor. É ele que, no desenlace, partirá para os gestos mais drásticos, que não revelo para não estragar o gosto de quem ainda não viu o filme. Solitário em sua vida privada, e frustrado em suas relações afetivas, fica claro que o seu mergulho na Onda é uma compensação para a incompletude de sua existência e, nesse sentido, o filme faz uma denúncia, válida para qualquer corporação, das pequenas (tipo: tribos) às maiores (tipo: regimes políticos).

A outra personagem que me interessou mais de perto foi a aluna que, desde o começo, repugnou a ideia da Onda, recusou-se a participar, e mais tarde, assumiu, quase sozinha, a difícil missão de, na prática, combater o movimento. É claro que, para o conflito (elemento essencial em qualquer narrativa) ter caráter extensivo, era preciso que surgissem oponentes da Onda dentro do seu seio (a sala de aula), porém, vejo como ideologicamente marcado o fato de que se tratou de uma mulher. O que nos permite – e acho que isso é proposital no filme – indagarmos sobre a pertinência das, sempre apontadas e refutadas, diferenças entre uma forma masculina de pensar (mais racionalismo e abstração…) versus, uma forma feminina (mais sentimento, senso de medida, concretude, etc…).

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

Todos de uniforme branco, menos a aluna dissidente

A existência dessa aluna dissidente também ilustra a riqueza do roteiro. Antes de a Onda ser formulada pelo professor, alguns alunos da turma ensaiavam uma peça, em que ela fazia o papel principal. Sem nenhuma coincidência, a peça, do dramaturgo Friedrich Dürrenmat, era “A visita da velha senhora”, que conta a estória de como toda uma população de uma pequena cidade – feito uma “onda”, cabe dizer! – adere a uma certa proposta politicamente incorreta de uma mulher muito rica. Que a aluna dissidente, no papel desta senhora, tenha sido demitida dos ensaios é um dado sintomático para a significação geral do filme.

Enfim, vê-se pouco cinema alemão por aqui, e essa Mostra recente, exibindo três filmes, preenche uma lacuna – um bom trabalho da coordenação de cinema da Estação Cabo Branco. Na sessão em que estive, o cinéfilo e escritor Andres Von Dessauer foi o debatedor do filme, e alguns dos pontos aqui levantados são ecos do debate entre ele e o público presente. Um ótimo exercício de cinefilia, para o qual espero ser convidado outras vezes.

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro

Uma lição de autocracia: a palavra no quadro-negro

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3 Respostas to “A onda”

  1. Gilberto de Sousa Lucena maio 22, 2013 às 7:32 pm #

    Caro João:

    Acho que lá pela década de setenta vi, na telinha da “Sessão da Tarde”, um filme com o mesmo título (“A Onda”) e temática ou contexto semelhante. Você poderia confirmar se tratar de uma primeira versão cinematográfica do filme alemão em questão (ou seja, um remake do primeiro)?

    Um abraço.

    Gilberto Lucena

    • João Batista de Brito maio 23, 2013 às 11:37 am #

      Não conheço, Gilberto, mas vou checar. João.

    • jessica junho 9, 2013 às 10:29 pm #

      sim,tem um filme feito na década de 70 e um reproduzido no ano de 2008..

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