No cinema, com Lissianne

27 maio

O pessoal da minha geração costuma ser saudosista e pintar o passado com tons dourados. Para os que são cinéfilos, por exemplo, nada existe hoje que se compare ao movimento cineclubista dos anos cinquenta e sessenta. Embora eu mesmo não escape por completo desses eventuais ataques de saudosismo, às vezes sou levado a constatar que nem o passado era assim tão dourado, nem o presente é assim tão cinza.

Acabo de constatar deslumbrantes tons dourados no presente, que me deixaram entusiasmado e conto a estória.

Fui convidado para ´fazer uma fala´ no encerramento da Mostra Hitchcock, que aconteceu na Estação Cabo Branco, dentro daquela programação chamada de Estacine. O último filme da Mostra foi “Psicose”, exibido com debate neste domingo passado, dia 27 de maio.

Janet Leigh, na famosa cena do chuveiro (Psicose, 1960)

Janet Leigh, na famosa cena do chuveiro (Psicose, 1960)

O auditório do novo prédio Estação das Artes, onde a Mostra regularmente acontece, sempre às 16:00 horas, tem lugar para 115 pessoas, e como estou acostumado a exiguidade da frequência em programas desse tipo, digo, exibindo filmes de arte ou clássicos do passado, supus que, com sorte, falaria para quinze ou vinte gatos pingados. E isso para não dizer que, na minha cabeça pessimista, tendia a diminuir o número de participantes quando me dava conta da distância do local em relação a qualquer ponto da cidade. Para mim mesmo, que não dirijo, o Estação Cabo Branco é ´um fim de mundo´.

Pois é, qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a  quantidade de pessoas que, a partir das 15:30, foi adentrando o auditório… Tanta gente que a sessão foi retardada de uns bons quinze minutos, pois não parava de chegar mais adeptos da cinefilia, e a coordenadora Lissianne Loureiro, também ela meio surpresa e aflita, foi obrigada a providenciar novas cadeiras: a sala superlotou e algumas pessoas assistiram ao filme de Hitchcock sentadas no soalho. De modo que falei para cerca de 135 ou 140 pessoas, depois do que deu-se início ao debate.

Pelo que lembro, acho que, mesmo contando com as ocasiões em que fui palestrante em Festivais, nunca falei de cinema para um grupo tão numeroso, e – um detalhe importante para mim – a grande maioria constituída de jovens, alguns quase adolescentes. Muitos deles estavam vendo “Psicose” pela primeira vez e, durante a minha fala, me ouviam com atenção e curiosidade. Confesso que naquela tarde/noite de domingo saí da Estação Cabo Branco profundamente entusiasmado, com a leve impressão de que, malgrados todos os conhecidos fatores desfavoráveis ao cultivo da cultura e da arte, nada está perdido.

Janela Indiscreta (1954), foi outro filme da Mostra Hitchcock

Janela Indiscreta (1954), foi outro filme da Mostra Hitchcock

Mas, como todo milagre se explica, tampouco me escapou o fato de que havia uma força motriz por trás de tanto sucesso. E essa força se chama Lissianne Loureiro, a jornalista e ativista cultural, coordenadora do programa Estacine, este por ela implantado anos atrás, tão bem consolidado que, contando com “Psicose” já exibiu, até agora, exatamente 200 filmes.

Na verdade, eu sempre via nas páginas dos nossos jornais, a programação do Estacine e, ou por comodidade ou porque já conhecia os filmes, nunca havia tomado a iniciativa de comparecer. A convite, compareci no sábado anterior, e depois de ver e ouvir a discussão do filme alemão “A onda”, decidi que aceitaria falar de “Psicose” e Hitchcock.

Pois nesses dois dias no Estação das Artes, pude constatar a importância do trabalho que Lissianne realiza, sua garra, sua vontade de fazer, sua capacidade de trabalho, sua competência e sua paixão pelo que faz. Foi fácil entender que ela, feito uma Quixote enlouquecida, carrega o projeto nas costas, e que – repito – o sucesso por inteiro só pode ser atribuído a sua pessoa.

Rebeca, a mulher inesquecível (1940), outro da Mostra.

Rebeca, a mulher inesquecível (1940), outro da Mostra.

Exclusivamente para o projeto, Lissianne criou uma página no Facebook, que não apenas divulga a programação, como troca idéias com os participantes. Na Estação das Artes, um pouco antes da projeção e/ou depois, Lissianne tem o cuidado de passar, entre os freqüentadores, uma ficha com perguntas sobre dados pessoais, gostos e opiniões sobre cinema – de tal forma que a própria programação tome um rumo mais democrático, eventualmente incluindo sugestões dos espectadores.

Em suma, para mim foi tão importante “descobrir” o Estacine, quanto o foi “descobrir” a sua autora, essa pessoa extraordinária, carismática, empreendedora, irrequieta, criativa, capaz de transformar um mero programa oficial num fenômeno cultural de dimensões bem acima da média.

Fui informado que, de origem, ela vem da Amazônia, residente em João Pessoa há cerca de dez ou quinze anos. Ao ter a informação, lembrei-me do grande Pedro Santos, que também veio daquelas bandas, nos iluminar com o seu brilho.

Bravo, Lissianne, bravíssimo!

Doris Day e James Stewart em O Homem Que Sabia demais (1956)

Doris Day e James Stewart em O Homem Que Sabia demais (1956)

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5 Respostas to “No cinema, com Lissianne”

  1. Vitória Lima maio 27, 2013 às 7:04 pm #

    Bravo, João. A gente tem que dar a César, ops, Lissiane, o que é de Lissiane. Ela e sua equipe (Dina e Adriana Crisanto) desempenham um trabalho importantíssimo. Não só o cinema é contemplado, mas também a poesia, com o programa “Varal Poético”. E que novidade é essa que não estás mais dirigindo? Não sabia.

  2. Fernando Trevas Falcone maio 28, 2013 às 1:26 pm #

    Viva, João! Viva Lissianne! Agora fiquei animado de ir ao extrema das Américas ver e rever filmes! Grande abraço

  3. humberto pedrosa espinola maio 28, 2013 às 3:34 pm #

    Caro João
    De Parabéns está Lissiane, que veio do Amazonas para fazer esse trabalho magnífico!
    O que você descreveu chega a ser empolgante, nessa nossa era de “vacas magras” e de tanta indigência cultural.
    Agora, os nossos cinéfilos têm que dar o merecido apoio!
    Viva Lissiane!
    Um grande abraço
    Humberto

  4. fatimaduques maio 29, 2013 às 7:18 pm #

    O que você relata, João, pra mim mostra duas coisas: que nunca vale ficar preso ao passado, senão a gente perde o que tem de bom no presente e que com competência, apoio e vontade de trabalhar é possível realizar ações renovadoras da cultura, tão parcas atualmente. Que bom essa pessoa existir em nossa cidade, promovendo o cinema e a poesia.

  5. Ramon maio 29, 2013 às 9:25 pm #

    Querido João, parabéns pela generosidade contida nesse texto de reconhecimento. Essas pessoas que dão o sangue pelas artes, fazendo ou divulgando, precisam ser destacadas, elogiadas e valorizadas. Fico muito contente com a alentadora repercussão do trabalho de Lissiane.

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