O grande Gatsby

12 jun

Calculo que “O grande Gatsby” seja um dos romances mais conhecidos da juventude americana, talvez o mais. Junto com “As aventuras de Huckleberry Finn” e “Moby Dick”, é, com freqüência, um dos livros constantes no programa do High School lá deles.

Por ter feito curso de Letras, para mim também o livro de Scott Fitzgerald é extremamente familiar: estudei-o na graduação, e, mais tarde, na condição de professor, ensinei-o várias vezes na mesma graduação. E não só isso, “O grande Gatsby” é um dos meus romances favoritos, um dos que colocaria entre os meus dez mais.

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Adoro a estória desse nouveau riche desatinado, que constrói um mundo de maravilhas materiais, só para repetir o passado, ou seja, só para voltar a ter a mulher que um dia, cinco anos atrás, fora sua. E isto contado por um narrador de primeira pessoa que o conheceu em sua aventura final.

A própria condição histórica do romance de Fitzgerald me interessa. Foi publicado quatro anos depois do ´romance que destruiu o romance´, o “Ulisses” de James Joyce (1922), e, graças a Deus, demonstrou, com sua posterior recepção de crítica e de público, que, apesar de Joyce, o romance tradicional, com começo, meio e fim, não morrera. Outra coisa: o grande protagonista do romance do século XIX tinha sido feminino : Karenina, Bovary, Luisa (de “O primo Basílio”), Hester Pryne (de “A letra escarlate”), Capitu (de “Dom Casmurro”), etc). Com “O grande Gatsby” se introduzia o homem tragicamente apaixonado que se perde pela paixão.

Não conheço a primeira adaptação cinematográfica do livro, a muda de 1926, e se vi a dos anos quarenta (Elliot Nugent, 1949), não lembro. A de Jack Clayton (1974), que vi na época em que li o romance, nunca me convenceu.

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

De modo que aguardei com curiosidade esta versão nova, do Baz Luhrmann. A par do passado fílmico de Luhrmann (“Moulin Rouge”, “Romeu + Julieta”), calculei que iríamos ter um considerável privilégio de plástica, especialmente na combinação entre coreografia, som e movimento.

E temos. Até a primeira meia hora de “O grande Gatsby” (2013) é tanta parafernália, velocidade, dança e delírio sonoro que senti vontade de sair do cinema. Os ´frenéticos anos vinte´ (Cf ´the roaring twenties´) parecem aqui hipertrofiados.

Mas enfim, depois de ficar provado que a megalomania de Luhrmann é do tamanho da do protagonista Gatsby, a coisa toda acalmou-se um pouco mais, e – ufa! – passamos ao lado humano e dramático da estória.

Com relação ao texto original, algumas mudanças foram feitas, mas nada que comprometa o conjunto significativo – em Luhrmann, Nick Carraway é um alcoólico que escreve a estória como uma tarefa psiquiátrica. De todo jeito, esses escritos parecem conter o essencial diegético do livro.

O narrador Nick (Tobey MacGuire) nos conta como, meio por acaso, vai ser vizinho desse magnata (Leonardo DiCaprio) que, em seu palacete de Long Island, oferece festas suntuosas à elite novaiorquina. E como um dia ele, pobre e anônimo, é convidado pelo anfitrião. Logo descobre o que está por trás do convite – Nick é primo de Daisy Buchanan (Carey Mulligan), a amada do passado, hoje casada, que Gatsby pensa reconquistar. A estória toda – que não vou contar – é trágica, porém, a maior descoberta de Nick sobre o seu misterioso vizinho é mesmo de ordem espiritual: a dimensão de sua alma de apaixonado.

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Sim, nos filmes ou no romance – como negar? – Gatsby é um herói à antiga, um incomensurável romântico cuja ideologia gira em torno do coração. É mesmo possível que, com o livro, Fitzgerald estivesse escrevendo o epitáfio do Romantismo, claro, pelos olhos da modernidade, aliás, olhos obsessivamente representados naquele enorme Outdoor onde um monstruoso par ocular espia os personagens e nos espia…  mas, deixo a questão para os críticos especializados.

Apesar da ênfase excessiva na parafernália plástica, no filme de Luhrmann os atores estão perfeitos em seus papéis e o doloroso confronto entre os Buchanan e Gatsby – um ponto alto na escala dramática da estória – é descrito e narrado com competência: o drama flui bem e – ninguém pode negar – os personagens nos parecem de carne e osso. Acho que para o público presente na lotada sessão dominical em que estive, um bom filme.

No mais, pergunto: um filme perdurável? Sei que, de hoje em diante, vai suscitar centenas de teses de mestrado e doutorado sobre o tema da adaptação cinematográfica, porém, o que não sei é se vai permanecer no imaginário do mundo.

Oitenta e sete anos depois de publicado, o livro permanece.

Scott Fitzgerald, autor de "O grande Gatsby" (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Scott Fitzgerald, autor de “O grande Gatsby” (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

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2 Respostas to “O grande Gatsby”

  1. Vitória Lima junho 12, 2013 às 2:05 pm #

    Adorei o “epitáfio do romantismo”

  2. andrés von dessauer junho 12, 2013 às 10:45 pm #

    Olá João,
    Estou em desvantagem pois não li a obra de Fitzgerald e, portanto, só posso ir mesmo pelo filme. Você escreveu 2 x a palavra ‘parafernália’. Realmente, o filme é só uma parafernália. Mais nada. That’s it ! Perdi meu tempo no eixo Rio / São Paulo com essa paixão por uma pessoa (Carey) que de bela e interessante só tinha mesmo algumas roupinhas estilosas .Bem, tem gosto para tudo por aí. E o Tobe Maguire até hoje, nunca convenceu em filme algum (devia ter ficado preso em uma teia de aranha e ser comido por ela – pelo menos serviria para um propósito maior). Mas devido aos ‘ossos do ofício’, a gente tem que ver até o fundo da lata de lixo como o ‘Odeio o Dia dos Namorados’ (sempre Brasil). Aliás, hoje é dia dos namorados.
    Volto para JP e comentarei no ESTACINE o filmaço: CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO, sábado em 1 semana. A crítica já foi publicada, recentemente, no CONTRAPONTO, aí na Paraíba.

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