Um invento vibrante

3 jul

Nas ciências da alma, nada mais superado do que o conceito de histeria feminina. Houve, porém, uma época – século XIX – em que era considerado verdade científica incontestável. Nessa época atrasada, associava-se o nervosismo da mulher ao útero e um tratamento da “doença” devia, portanto, mexer com este órgão, ou com suas adjacências.

O Dr Robert Dalrymple, por exemplo, descobriu que a massagem vaginal podia aliviar, ou mesmo combater a histeria. No seu consultório, passou a usar essa massagem com suas pacientes, respeitáveis senhoras da sociedade vitoriana. A massagem era feita com a mão do médico, sem luvas e bem lubrificada. Deitada em leitor especial, a paciente abria bem as pernas e o médico começava de leve a massagem e ia aumentando o ritmo dos movimentos, até a paciente atingir o que o Dr Dalrymple chamava de paroxismo, depois do qual a paciente sentia um enorme relaxamento.

Na verdade, o paroxismo era – clinicamente falando – puro orgasmo, porém, o circunspecto médico, um senhor de certa idade, não pensava assim, nem nada na puritana Londres de 1880, o levaria a pensar coisa diferente.

Pensando assim, ou não, o fato é que, depois do método adotado, o consultório do Dr Dalrymple superlotou e as respeitáveis senhoras vitorianas, viúvas, solteironas ou bem casadas, em número cada vez maior, faziam fila para serem massageadas naquele lugar e experimentar o delicioso paroxismo.

Cartaz do filme "Histeria" (2011)

Cartaz do filme “Histeria” (2011)

Tudo isso está mostrado no filme “Histeria” (“Hysteria”, Tanya Wexler, 2011), que não veio ao circuito comercial, mas está disponível em DVD.

Na verdade, o filme vai mais além. Ocorre que o Dr Dalrymple (Jonathan Pryce), já idoso e cansando, resolveu empregar um jovem e charmoso assistente, por nome Mortimer Granville (Hugh Dancy), que, de dedo em riste, passou a aplicar a massagem com o mesmo rigor científico de seu mestre e patrão. Com o tempo, Granville começou a sentir câimbras na mão, naturalmente resultantes do movimento infinitamente repetido.

Por sorte, um amigo de Granville, um tal de Edmund Saint-John Smythe (Rupert Everett) aristocrata ocioso e inventor nas horas vagas, havia engendrado uma engenhoca que, movida à eletricidade, funcionava como uma espécie de espanador giratório. Preocupados com as câimbras, Granville e seu amigo conversaram um bocado sobre o invento que, com paulatinas modificações técnicas, de espanador virou um eficiente vibrador.

Depois de experimentarem o aparelho em uma jovem de reputação duvidosa (que teve três “paroxismos” seguidos), o jovem assistente apresentou ao seu patrão o vibrante invento que, na massagem, iria substituir a mão do médico e, testado e aceito o seu emprego, passou a ser um sucesso, aumentando mais ainda a clientela do Dr Dalrymple.

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Experimentando o novo invento em uma voluntária

Para quem não acredita no que está vendo, a diretora Tanya Wexler, já na abertura do filme, fizera questão de apor a legenda “Uma estória verdadeira”, e logo após, achando que o espectador ainda pudesse ter dúvidas, acrescentara um adverbiozinho: “realmente”.

Mas, seria injustiça ao filme deixar sugerido que sua temática gire (!) em torno da invenção do vibrador. Não é o caso.

O filme é, a rigor, uma mistura de estória romântica e relato médico, com crítica à condição feminina no final do século XIX. Considerem, por exemplo, que o Dr Dalrymple tem duas filhas – uma, certinha e prendada para o matrimônio, a outra, independente e liberal. A primeira vive tocando piano, à espera de seu príncipe encantado, enquanto a segunda, de mangas arregaçadas, dedica-se a cuidar dos desvalidos em um asilo de mendicância, que o pai conservador não ajuda nem aprova.

O espanador que virou vibrador

O espanador que virou vibrador

É claro que o jovem assistente Mortimer Granville (na verdade o protagonista do filme) envolve-se com ambas, e, como é praxe acontecer numa velha comédia romântica de antigamente, ele se compromete com a primeira, Emily (Felicity Jones), e, para surpresa de todos – inclusive dele mesmo – se apaixona pela segunda, Charlotte (Maggie Gyllenhaal). Diga-se de passagem, sem que nada disso tenha a ver com vibrador ou coisa do gênero.

Aliás, talvez o problema principal de “Histeria” consista justamente nesse desequilíbrio entre fazer o relato de um fato histórico, a saber, a invenção do vibrador, e contar uma estória de amor entre dois jovens progressistas. Com o elemento complicador seguinte: o invento vibrante, que poderia porventura ser entendido como uma espécie de símbolo da vitória feminina sobre a moralidade da época, aqui aparece sempre do lado dos conservadores.

Enfim, uma questão para o espectador resolver. Ou não.

Dr Dalrymple e seu assistente em ação

Dr Dalrymple e seu assistente em ação

Anúncios

2 Respostas to “Um invento vibrante”

  1. Soraia julho 3, 2013 às 2:28 pm #

    As mulheres não sabiam o estavam fazendo, pelo simples fato de que mesmo casadas não conheciam o paroxismo. Os maridos pagavam para serem corneados devido a sua arrogancia que os cegavam.

  2. Glória Gama julho 4, 2013 às 6:17 am #

    Bem, eu acho que algumas mulheres sempre souberam/sabem o que fazem, conhecendo ou não o orgasmo. Negar isto é considerá-las idiotas. Os homens, por sua vez, podem ter pago por ignorância, mas também por outros motivos, tais quais, fetiche, sadomasoquismo, prazer, consensual ou não. Mas todos estes fatores fogem ao principal do filme que é exatamente deixar tudo mexido, indagado, incompleto, porém, vibrante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: