Deu certo?

20 jul

Confesso que hesitei um bocado em ir ver um documentário com o título de “O Brasil deu certo, e agora?”  Que estória é essa de “deu certo”, frase assim definitiva, no pretérito perfeito? Como se sabe, o filme, dirigido por Louise Sottomaior, está em cartaz na cidade há algumas semanas, e acho que fui ver por curiosidade. O fato é que fui, e agora?

O meu receio é ser levado pelo filme a discutir política, e não cinema. Vou tentar ficar no segundo tópico, se é que é possível.

o brasil poster

Trata-se de um documentário que tenta contar a história da economia brasileira, da colônia até hoje, e os depoentes são pessoas que, da segunda metade do século XX para cá, tiveram participação direta nessa economia, presidentes, ministros, diretores de bancos, etc. Bem, o povo nunca aparece e este é, naturalmente, o primeiro problema do filme. É verdade que o povo não entende de economia (nem eu), mas é o povo que recebe os seus efeitos, não é?

Equivocado ou não, o roteiro é de qualquer maneira interessante, a direção razoável com seus desenhos animados explicativos, porém, para o bem ou para o mal, o melhor de tudo no filme é, decididamente, a edição.

Sagaz ao extremo, ela faz as falas dos entrevistados se encaixarem em uma ordem lógica impressionante. Não é raro que um entrevistado comece uma frase com o sujeito da oração, o outro lhe forneça o predicado, e um terceiro lhe dê o complemento. Uma beleza de coerência grupal, que, por ironia, sugere mais um problema para o filme – é que todos os escolhidos a depor pensam igual, ou mais ou menos igual, e não foi escolhido quem pensasse diferente. De alguma forma, parece – desculpem o exagero – lavagem cerebral. É difícil imaginar que Fernando Henrique Cardoso, Alexandre Saes, Delfim Netto, Fábio Giambiagi, Henrique Meirelles e Fernando Collor pensem igual, mas o que uma edição bem feita não é capaz de sugerir?

Sintomaticamente, Lula e Dilma não toparam participar do filme, e contudo, outras vozes, por exemplo, outros comentaristas políticos que não os dois ou três consultados, poderiam ter integrado a assembleia.

Na verdade, o roteiro do filme é do paraibano Mailson da Nóbrega, sem coincidência, aquele a quem se doa maior tempo de tela, e, é possível notar, o encarregado de costurar o pensamento subjacente da produção. Não entendo de economia, mas, quer me parecer que esse pensamento – o porquê de o Brasil ter dado certo – se resumiria no seguinte: o plano real de FHC e a sabedoria de Lula em não alterá-lo e complementá-lo com programas sociais.

Mailson da Nóbrega, coprodutor e roteirista

Mailson da Nóbrega, coprodutor e roteirista

Por outro lado, e no bom ou no mau sentido, o filme contém uma aula de história econômica, ao esclarecer certos pontos obscuros do desenvolvimento do país.

Desde a chegada da família real ao Brasil, em 1808, até o presente, os grandes projetos econômicos são contemplados, com enfoque nas suas conseqüências mais determinantes para o desenvolvimento ou para o atraso do país. O império, a velha república, a era Vargas, o governo Juscelino, Jânio, Jango e o que veio depois: tudo está posto em sua cronologia didática. Não quero ser irônico, mas, com certeza, o filme será útil a vestibulandos em provas de História.

Por exemplo, é instrutivo saber que, no período da ditadura militar, quem mandou na economia foram os ministros e não os respectivos presidentes, como também ficar conhecendo o avanço que a economia pôde ter nesse período. Ainda, acompanhar, de 1985 em diante, os pacotes que se sucederam e, no final, teriam terminado por conduzir à estabilidade atual e ao crescimento do PIB, com o controle da inflação. A rigor, o que se nota é que, dá metade do filme em diante, o foco fica em cima da inflação, como se fosse este o único problema nacional. Depois de cada fala, a diretora joga na tela a pergunta gráfica colorida: “E a inflação?” E os entrevistados são provocados a perseguir o tema.

Nem todo mundo sabe que somos a sétima economia do mundo (e já fomos a sexta!) e este dado, com certeza, é um dos ingredientes que justificaria o título do filme.

O desenlace, se há um, corresponde à tentativa de resposta à pergunta que está no título (“e agora?”) e todos os entrevistados, mais uma vez, concordam em que, para assegurar o crescimento atual, ou incrementá-lo, o fundamental está numa palavra só: EDUCAÇÃO. Bem, disso eu gostei. No grosso, a previsão para o futuro é a de um país mais rico e mais democrático. Ufa! Mais uma vez não estou sendo irônico, mas estamos diante de um documentário de final feliz.

A grande ironia – e esta não é minha! – é que “O Brasil deu certo, e agora?” esteja sendo exibido nesse período tão particular de tantos protestos de rua. Mas enfim, a coincidência não deixa de ser interessante: não é disso que são feitas as asas da democracia, de opiniões divergentes?

o brasil 2

Anúncios

2 Respostas to “Deu certo?”

  1. Fernando Trevas Falcone julho 20, 2013 às 7:52 pm #

    João,

    Não assisti ao filme, mas o seu brilhante texto confirma o que eu imaginava: ode aos tucanos feito por um ex-ministro responsável por hiperinflação e caos econômico.

    Grande abraço,

    Fernando

  2. Luiz Antonio Mousinho julho 22, 2013 às 2:11 am #

    Perdi o filme também, mas sua palavra esclarecedora desconstrói bem, em toda a extensão do texto, as problematizações e simplificações escamoteadas e flagradas no roteiro e edição arrumadinhos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: