Um quarentão irresistível

24 jul

Neste 2013 está fazendo quarenta anos do lançamento mundial de “A noite americana” (“La nuit américaine”), o filme mais completamente metalingüístico já feito, que levava o Oscar de melhor filme estrangeiro do ano, ao mesmo tempo em que selava o fim do movimento de cinema chamado Nouvelle Vague.

la nuit americaine poster

Tudo começou em Nice, em 1970, quando o cineasta francês François Truffaut rodava “Duas inglesas e o amor”, nos Estúdios Victorine. As ruínas de um cenário abandonado lhe chamaram a atenção: uma pracinha com uma saída de metrô, um café, e umas fachadas de prédio eram os restos cenográficos de um filme americano, ali rodado anos atrás.

Por alguma razão, aquela cenografia abandonada reacendeu em Truffaut um velho projeto pessoal, o de realizar um filme que mostrasse ao público como se faz um filme. Esse filme metalingüístico sonhado havia tanto tempo era, por certo, o filme que Truffaut gostaria de ter assistido nas salas de projeção de sua juventude, quando ainda aprendia a fazer cinema.

De imediato procurou o seu roteirista Jean-Louis Richard, comunicou seu desejo e os dois começaram a bolar, a partir da cenografia disponível, uma estória que pudesse servir de pano de fundo para uma película que mostrasse as entranhas de uma filmagem, em todas as suas etapas, e com todos os seus problemas.

Esse “filme dentro do filme” nem precisava ser grande; na verdade, podia ser mesmo (nas palavras de Richard) um filme ruim, já que só existiria como pretexto para o meta-filme.  Conceberam a estória de Pamela (“Je vous présente Pamela”), essa jovem esposa que vem visitar os pais do marido e se apaixona pelo sogro, e o sogro por ela: os dois fogem e a estória termina em parricídio.

Jacqueline Bisset Day for Night

Naturalmente, isto era só uma parte do roteiro, porque a mais importante seria a de mostrar ao público como esse “filme dentro do filme” seria rodado. E a sua rodagem é que devia ser o filme principal. E assim foi feito.

Como fazer um gatinho tomar leite diante das câmeras? Como iluminar o rosto de uma atriz que segura uma vela? Onde conseguir manteiga de pote para um estrela em crise? O que fazer quando uma atriz veterana não consegue lembrar as falas do roteiro? Como providenciar neve num dia de verão? Enfim, o que fazer quando o ator principal vem a falecer antes do filme terminado?

A pergunta mais fácil de responder deve ter sido ´como filmar de dia fazendo de conta que é noite?´ Resposta: usando, na câmera, uma lente escura especial, procedimento que dá título ao filme, e que os americanos chamam de `day for night´ (dia por noite) e o resto do mundo chama de ´noite americana´.

Por outro lado, a exposição de tantos problemas de filmagem não deveria obscurecer o enredo de “Pamela”, filme que, afinal, só nos aparece em fragmentos e fora de ordem cronológica.  Na verdade, as duas estórias, a de Pamela e a de Julie Baker (Jacqueline Bisset), a atriz que a representa, formam uma espécie de quiasmo narrativo. Vejam que Julie trai o esposo idoso (que pela idade, poderia ser seu pai) com o jovem companheiro de elenco, Alphonse (Jean-Pierre Léaud), cujo personagem, em “Pamela”, é traído pelo pai e esposa Com certeza, não é nada gratuito que, em dado momento chave da estória, o diretor Ferrand (feito pelo próprio Truffaut) ponha na boca de Pamela palavras que foram antes ouvidas da boca de Julie.

Léaud e Truffaut em cena

Léaud e Truffaut em cena

Se não levarmos em conta a reação de Godard, que, depois de ver o filme, chamou Truffaut de traidor, e, em resposta, foi chamado de “seu merda”, podemos dizer que a primeira recepção de crítica a “A noite americana” foi entusiástica, embora, com o passar do tempo tenha sido relativizada. Hoje os comentaristas alegam que o filme tem problemas com o público e com a crítica: aquele, por causa do viés metalingüístico, o acharia “intelectualizado”, e esta, pela psicologia fácil, um tanto e quanto infantil.

Sobre este segundo ponto, talvez se confunda a superficialidade dos personagens com o conteúdo do filme. A do fútil e inconseqüente Alphone, perguntando se as mulheres são mágicas, vem ao caso. O fato é que ninguém aprofunda ao filmar multidões. Nem quer. Vejam que, compreensivamente, nem o próprio Ferrand, o diretor do filme, apresenta densidade psicológica: pela sua voz off quase nada sabemos dele, além das óbvias questões profissionais, e o seu momento mais íntimo é o daquele seu sonho preto-e-branco recorrente em que furta os posters de “Cidadão Kane”. Aliás, uma bela louvação ao cinema clássico americano, que Truffaut tanto amou, desde criança.

Como diz George Sadoul em seu comentário, “A noite americana” é uma “homenagem emocionada à grande máquina de fabricar sonhos” e – completo eu – nisto está a profundidade de um filme que, aos quarenta, ainda é irresistível.

Uma foto dentro do filme

Uma foto dentro do filme

Considero esta matéria encerrada, mas, não resisto em acrescentar alguns rodapés:

(1) O filme americano rodado nos Estúdios Victorine, cujas ruínas cenográficas Truffaut aproveitou foi “A louca de Chaillot” (The madwoman of Chaillot”, 1969), com direção de Brian Forbes, com Katherine Hepburn e Paul Henreid, segundo consta, uma droga de filme.

(2) Ao invés de uma cama de casal, o quarto da namorada de Alphonse, no hotel Atlantic, tem duas camas de solteiro, as quais o casal, irritado, gasta um bom tempo de tela juntando para formar um leito só. Por que?  Cena gratuita? Que nada: aqui Truffaut quis fazer referência à censura do cinema clássico – pouca gente lembra, mas, nos velhos tempos do Código Hays a imagem de uma cama de casal na tela era estritamente proibida.

Uma outra referência à censura está numa personagem do filme, que é a esposa do diretor de produção, aquela senhora que fica sentada num canto do estúdio, fazendo tricô e fiscalizando tudo. A sua cena de desabafo é sintomática quando, histérica e acusativa, ela grita: “Que profissão é esta em que todo mundo dorme com todo mundo? Vocês acham tudo isso normal? Pois eu acho irrespirável este cinema de vocês. E desprezo, desprezo o cinema!”

(3) Apesar da briga que “A noite americana” provocou entre Truffaut e Godard, vale notar que entre os livros que chegam pelos Correios para o cineasta fictício Ferrand está um sobre Godard. Em tempo: a briga entre os dois cineastas ficou registrada na troca de cartas, estas recuperadas pelos biógrafos.

(4) Embora os atores principais façam papéis fictícios, toda a equipe técnica do filme faz o papel de si mesma. George Delerue, por exemplo, o autor da trilha sonora, é no diálogo referido como George Delerue.

(5) Um dado pessoal a mais sobre Ferrand é que ele aparece usando aparelho de surdez, segundo Alphonse explica à namorada, conseqüência de sua participação na Guerra – como se percebe, um dado que, em si mesmo, não ajuda muito na construção do personagem.

(6) Segundo os biógrafos Antoine de Baecque e Serge Toubina (Cf “François Truffaut”, Record, 1998), depois de lançado em Paris “A noite americana”, Truffaut ficou feliz com a resposta da crítica, mas, muito preocupado com o público. Por isso, pediu à equipe de divulgação que, nos press-releases, deixassem de lado expressões sofisticadas como “filme dentro do filme”, “estória de uma filmagem” ou qualquer outra que sugerisse “intelectualismo”, fazendo ênfase no lado “estória de amor e aventura” do filme.

(7) Aquele senhor grandalhão e vermelho que aparece no final como o executivo responsável pelo orçamento do filme, é o escritor inglês Graham Greene. De passagem em Nice e fã de Truffaut, Greene é, sem que Truffaut soubesse, convidado pela equipe de produção para fazer essa ponta, e a faz sem Truffaut – que sem coincidência também era fã de Greene – reconhecê-lo. Só depois da cena rodada é que os dois foram devidamente apresentados, para agradável surpresa de Truffaut.

(8) Talvez a única coisa que possa ser dada como gratuita em “A noite americana” venha a ser a neve de sabão jogada sobre a praça onde o parricídio vai acontecer, no final. Segundo o diálogo do filme, foi decisão de última hora, depois de se saber da morte (aliás, anunciada por ele mesmo) do protagonista Alexander (Jean-Pierre Aumont) e depois de se decidir que o doublê do ator será atingindo pelas costas, e não de frente, como filmado antes. “Já que vamos fazer essa mudança – diz Joelle, a co-roteirista de Ferrand – por que não mudar tudo e fazer a cena com neve?” Como a justificativa não convence, o espectador fica com a impressão de que a cena foi filmada assim, só para se mostrar como se filma com neve no verão.

Truffaut rodando A Noite Americana

Truffaut rodando A Noite Americana

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2 Respostas to “Um quarentão irresistível”

  1. Glória Gama julho 25, 2013 às 3:22 pm #

    Johninho,
    certa vez você descreveu “Os Incompreendidos” como um filme amoroso, carinhoso. Eu penso a mesma coisa de “A Noite Americana”. O filme é imperdível tanto para quem gosta de cinema como para os que o fzem. Como você já disse tudo, apenas acrescentaria que a briga entre Truffault e Godard foi também motivada pela insistência deste para que Truffaut levasse os radicalismos da Nouvelle Vague ao extremo. Mal sabia ele que foi exatamente quando Truffaut “traiu” o movimento que seus filmes ficaram mais líricos, amorosos, carinhosos (de novo), memoráveis. Gostei muito do post, adoro o filme e venero o diretor. A

  2. Glória Gama julho 25, 2013 às 3:24 pm #

    *fazem; Olha só Johninho, eu dizendo coisas como se você já não as conhecesse. 🙂 Abração.

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