Poesia

8 ago

A crítica é cheia de paradoxos. Ou seria o crítico? Às vezes filmes ruins me instigam a escrever, e, às vezes, um filme ótimo me sugere ficar calado.

Uma sugestão de silêncio – mas de silêncio respeitoso – me deu esse excelente “Poesia” (“Shi”, 2010) do sul coreano Chang-dong Lee, que tive a sorte de ver nesse novo Canal Arte-1 da televisão paga.

Sim, alimento a sensação de que escrever sobre esse doce e terno filme é como maculá-lo. E, paradoxalmente, escrevo, pois me vejo no afã de divulgá-lo. Se pudesse, ao invés de escrever, tiraria cópias, e carinhosamente distribuiria entre os amigos.

poetry poster 1

Devo começar dizendo que, neste cinema do terceiro milênio que me chega, poucas vezes vi um personagem, cativante e verdadeiro, tão bem construído como essa Sra Misha, de sessenta e seis anos de idade que, acometida de lapsos de memória, se matricula num curso de poesia. Caminhando devagar pelas calçadas de Seul, Misha destoa da pressa reinante, com sua elegância e sua delicadeza – seu rosto de sessentona ainda é bonito, seu corpo ainda é esguio e o chapéu branco, ligeiramente antiquado, que teima em usar, lhe concede um ar vagamente aristocrático.

Não sei se vou conseguir passar a sua beleza interior, mas começo com o óbvio, o que o enredo me fornece, até porque o enredo é outro enorme mérito do filme.

poetry 5

Viúva há muito, Misha viveria sozinha, não fosse por esse neto, filho de pais separados, que ela praticamente é obrigada a hospedar – um adolescente hostil, com quem não consegue se entender, embora faça todos os esforços.

Um dia Misha ouve a notícia de que uma jovem de dezesseis anos cometera suicídio, jogando-se da ponte no rio que banha Seul. Não apenas tem a notícia como, indo ao hospital para exames, testemunha uma cena terrível: a mãe da moça morta, enfurecida pelo desespero, gritando e se arrastando pelo chão como uma louca.

Logo depois, vem o pior: Misha é secretamente procurada por uma comitiva de pais, cujos filhos haviam estuprado a jovem, e o neto de Misha estava entre eles. Os pais a procuram porque, juntos, estão – sem que a polícia ou a imprensa o saiba – coletando dinheiro para uma indenização.

Sem maiores recursos, Misha não tem como levantar a quantia pedida. Vive de pensão, e de um eventual trabalho de cuidadora – cuida de um senhor idoso que, acometido de AVC, mora só em seu apartamento de classe média.

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Todos esses problemas – inclusive os lapsos de memória, diagnosticados como início de Alzheimer – não impedem Misha de continuar freqüentando o curso de poesia, onde o professor afirma que todo mundo é capaz de fazer poemas, pois a poesia está dentro de nós. Misha sempre gostou de flores e de palavras estranhas e isso lhe dá a ilusão de que possa vir um dia a escrever um poema. Gasta tempo fitando a natureza em busca de uma inspiração, que nunca vem. Ou (devo contar o resto da estória?) vem tarde.

Enquanto isso, impressionada com a morte da jovem, Misha vai até o local do suicídio, a ponte sobre o rio, e – triste prolepse – o vento arranca-lhe o chapéu, que cai nas águas sombrias.

Incumbida pela equipe dos pais, visita a mãe da jovem, no campo, porém, a visita não dá frutos, salvo um, literal, que Misha apanha do chão e mastiga. As duas mulheres conversam sobre frutas maduras e Misha volta como foi, sem soluções. Uma única, precária, é que furta o retrato da garota morta e o leva para casa, pondo-o à mesa, diante do neto delinqüente.

Ainda que por meios nada edificantes – espécie de estupro consentido – Misha consegue, com o senhor de quem cuida, enfim, o dinheiro para a cota indenizadora, o que não impede que, um dia, a polícia apareça em sua rua e leve o neto preso.

poetry 7

No fim do curso, nenhum aluno cumpriu a tarefa do professor, a de escrever um poema, salvo Misha, que não comparece a essa aula final, e, com um buquê de flores, envia o poema – o seu primeiro e (lembremos o chapéu no rio) último.

Enquanto se ouve a voz que lê o poema de Misha (primeiramente a do professor, depois a dela, depois a da adolescente morta), a câmera vai se deslocando na direção da ponte do suicídio e nós, espectadores, entendemos que houve outro. Não apenas as águas turvas do rio, filmadas assustadoramente de perto, nos dizem isto, como também as palavras estranhas e belas do poema que se escuta.

Desliguei a tv meio engasgado, me lembrando de outra vítima feminina do mundo dos homens, que a cada revisitação, me faz chorar, a Cabíria de Fellini.

Comecei esta matéria falando dos paradoxos da crítica. Um a mais é não atingir, na composição do texto, o nível de qualidade do filme, como é o caso aqui.

Portanto, vejam o filme e esqueçam a crítica.

Poetry 3

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8 Respostas to “Poesia”

  1. Andrés von Dessauer agosto 8, 2013 às 2:34 pm #

    Olá João,
    Bom Dia !
    A sua 1ª frase, acima, saiu das profundesas da alma. Concordo plenamente com você.
    Só que radicalizei: não escrevo sobre filmes, abaixo da nota ‘8,5’. Nem pensar. Perda colossal de tempo em face que mais de 40 filmes são jogados diariamente no mercado internacional da Sétima Arte.
    Ademais, costumo me desculpar antes de qualquer comentário verbal, após a sessão, de destruir com palavras um excelente longa. Isto aconteceu, ontem, no PAULISTANO em SP, quando comentei a segunda obra da Nadine Labaki que, já com dois longas de alta qualidade, se consagra como uma das melhores cineastas mundiais.
    Caso você consiga baixar filmes na internet, recomendo os filmes abaixo, que estão no circuito em SP:
    A VOZ ADORMECIDA Nota: 9,6
    UM CONTO CHINÊS Nota: 9,4
    BRANCA DE NEVE Nota: 8,75
    HANNAH ARENDT Nota: 7,2
    (O resto no circuito em SP se divide em lixos de várias espécies e os bonequinhos da Globo no Rio estão todos drogados).
    Dentro dos filmes acima mencionados, 2 espanhois. O 1º A VOZ ADORMECIDA é puro Shakespeare na veia: finalmente um excelente drama, imperdível. Já A BRANCA DE NEVE faria os Grimms saírem da cova, para aplaudir (caso escritores renomados fossem beneficiados por ressureições).
    Possivelmente, farei nos dois últimos domingos de agosto, duas apresentações de filmes atemporais, aí na capital paraibana (no ESTACINE): CLOCKWORK ORANGE e o enigmático THE SHINING. Possivelmente o CONTRAPONTO publicará minhas críticas. Caso sua agenda permitir seria ótimo contar com sua presença.
    Agradeço pela excelente postagem no seu blog.
    Abraços,
    Andrés.

  2. Vitória Lima agosto 8, 2013 às 3:04 pm #

    Ai JOão. Me emocionei só de ler sua crítica. Imagine quando ver o filme! Já é o segundo da sua lista que eu quero ver. Aquele da semana passada, Elvira Madigan, também está. Obrigada, amigo, por garimpar essas pérolas do universo feminino para nós. Vic

  3. Soraia agosto 8, 2013 às 3:15 pm #

    Me parece realmente muito bom, da vontade de assistir, mas, só.

  4. Líssia agosto 8, 2013 às 5:22 pm #

    Impossível subestimar suas críticas. Seguirei a primeira parte do conselho: vou ver o filme!

  5. fatimaduques agosto 8, 2013 às 7:49 pm #

    João, que bom sempre ler seus textos, mesmo sem ter assistido ao filme. E, felizmente, você quebrou um pouquinho o silêncio que este parece mesmo merecer, pois só assim algumas pessoas a mais o procurarão; é o que vou fazer

  6. Rosilma Diniz agosto 9, 2013 às 9:51 am #

    vi o filme. entendo perfeitamente q vc (crítico) quis silenciar. entendo perfeitamente q vc (espectador) não tenha conseguido silenciar. sorte de quem leu essa crítica (ou terna recomendação de um espectador?), pois de agora em diante irá perseguir o filme.
    valeu, meu caro João!

  7. Andrés von Dessauer agosto 9, 2013 às 12:55 pm #

    …………. que coisa estranha: 5 mulheres e só 1 homem no blog ? Será que os representantes da ala masculina, aí em JP, não assistem filmes ? Se for assim com a cultura ‘pbiana’, a Academia de Letras do Estado também deveria ter a proporção 5 : 1 . Ademais, meia entrada para as mulheres de qualquer idade no circuito comercial dos cinemas !
    Sds., Andrés.

  8. Zezita Matos agosto 10, 2013 às 3:32 pm #

    Oi!!!!amigo João, vi duas vezes “Poesia” me encantei pela atriz que serenidade, que atuação etc etc…além de descobrir que a personagem tinha Alzheimer o que ando pesquisando para o meu monólogo que estará em pauta no dia 22 deste. Um abraço Zezita matos

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