O sagui, King Kong e a macaca Monga

11 set

Assisti a “Cine Holiúdy” (Halder Gomes, 2013) numa noite de sábado, a sala lotada, com a plateia gargalhando do começo ao fim.

Não esbocei um único riso, porém, cinéfilo com passado, não pude deixar de me lembrar dos velhos bons tempos das chanchadas da Atlântida, quando o cinema brasileiro quase competia em bilheteria com a hegemonia americana. Com a vantagem de então me fazer rir…

Saí do cinema pensando no “fenômeno” que é o filme de Gomes e me ocorreu o seguinte: que o famoso humorismo contemporâneo cearense afinal chega ao cinema. Sim, tinha havido antes Os trapalhões em película, mas isso foi bem antes desse atual boom de humor que assola o Estado de Padre Cícero. Pois é, assistindo a “Cine Holiúdy”, a mim me pareceu estar vendo um comediante cearense desses que estão aí, de repente, sair do palco e dar uma “voadeira” para a tela. (“voadeira” do léxico do cearensês em que o filme é falado, acompanhado de legendas em português).

Ainda bem que fez isso à guisa de homenagem à sétima arte. O enredo é simples: ameaçado pela emergência da televisão nas cidades do interior cearense, o exibidor Francisgleidisson se muda, com a família, para Pacatuba e lá instala o seu pequeno cinema, cuja programação deve, inevitavelmente, competir com a avassaladora nova mídia. Na noite da estréia, com meio caminho andado de projeção, o projetor explode e ele, para não devolver os ingressos, tem que improvisar um plano B em que ele mesmo, de carne e osso, será o astro da noite.

Por causa da temática (digo: a decadência do cinema de rua), é possível que alguém associe “Cine Holiúdy” – mal comparando – ao “Cinema Paradiso” de Tornatore, mas acho que uma má comparação também é possível com “A vida é bela” do Begnini, pelo menos do ponto de vista actancial: um casal com um filho pequeno, e ainda apaixonado (a ´princesa´ de lá é a ´graciosa´ daqui), leva uma vida difícil, com o pai sempre iludindo o filho com estórias fantasiosas.

Uma dessas ilusões paternas é a de que o sagui de estimação da família vá um dia crescer e tomar as proporções gigantescas de King Kong. Por sinal, uma fábula de pai imaginativo para filho sedento de heroísmo que ilustra mais que uma relação afetiva. Notem bem como esse sagui pode ser interpretado como o cinema cearense, na mesma medida em que King Kong pode ser tomado como uma metonímia de Hollywood. O sagui virar King Kong, o que significa isto? Precisa explicar? Aliás, a esse propósito, revejam o desenlace do filme, com a cena da entrevista na televisão (!) estrangeira onde, depois de estrondoso sucesso mundial e agora em inglês correto, o exibidor cearense Francisgleidisson expressa sua alegria e seu orgulho, e, de sobra, corrige a entrevistadora, que erra o nome de sua cidade, Pacatuba. A cena inteira é a licença poética que fez do sagui um King Kong.

cine holiudy 2

Lembro que, numa das gags do filme, o sagui doméstico, sem mais nem menos, se transforma na macaca Monga – o que, afinal de contas, já é um índice de sua vocação para o crescimento.

Tive a chance de, antes de ver “Cine Holiúdy”, assistir ao premiado curta “Cine Holiúdy: o artista contra o cabra do Mal” (2004) que deu origem ao longa em cartaz e pude observar alguns dos procedimentos da transformação. Claro, acrescentou-se um pouco de enredo novo, mas o grande enchimento de lingüiça foi mesmo com mais personagens e muitas gags. Algumas boas (por exemplo: a do ´nada consta´ na repartição pública, ou a das exigências burocráticas para o pequeno empresário no tempo da Ditadura, ou, a do escorpião capaz de furar pneu de automóvel, ou ainda, o cuidado do marido para que a médica não use o martelo nos olhos da esposa); outras nem tanto (por exemplo: o homossexual dizendo à moça que ´se gostasse de coisa feia, andava com filhote de urubu debaixo do braço – uma tirada horrivelmente manjada; outra piada batida é a dita do projetor quebrado por um espectador: “o problema é de junta: junta tudo e joga no lixo”).

Em alguns casos a gag ganha estatuto de número de ´stand up comedy´, como aparenta na relativamente longa cena em que o pai explica ao garoto como se pode falar línguas estrangeiras – chinês, francês ou alemão – usando a fruta macaíba na boca, isto sem esquecer de dizer que os estúdios Disney importavam a fruta nordestina para as tais cenas “trogloditas” (leia-se: poliglotas).

Outra forma de rechear foram os acidentes ou fatos paralelos que, se não existissem, não fariam falta à estrutura básica da narrativa. O pastor curando um paraplégico é um caso, como também o do garoto pobre que é forçado a engolir um falso toddy; o flashback cinematográfico mentiroso de Francisgleydisson, contado ao filho, pode ser outro caso, bem como os pesadelos de Graciosa, tão recorrentes ao ponto de levá-la ao médico. Às vezes há pequenas excrescências que não levam a nada, como, na despedida da família, o amigo que fica esmurrando Franiscgleydisson, com o desafio ´tu gosta de porrada, né?´ ou, ainda, aquele dono de bar que tempera a comida com o suor que lhe cai do corpo.

Um elemento que o curta tem mais que o longa é o que vou chamar de “estudo de recepção”: vejam o que acontece quando “o filme dentro do filme” termina (e “o filme dentro do filme” naturalmente inclui o show de artes marciais do projecionista na frente da tela): os espectadores, assimilando o que viram, saem do cinema imitando os personagens, os ficcionais e o real, ou seja, saem dando socos uns nos outros, ou no ar. Ora, no curta isto é feito de modo bem mais sistemático e com mais efeito cômico.

Os personagens de “Cine Holiúdy” são, naturalmente, caricaturescos e nem sempre reproduzem os tipos da cidade pequena dos anos setenta. Se, por exemplo, o prefeito foi construído com certo grau de ´realismo´ estereotipado, a figura do padre assume mais o escrache que define o estilo do filme.

Com tanta gente na tela, a direção de atores deve ter sido um sufoco, mas, com certeza, o resultado neste particular foi bom, ajudado pela agilidade da montagem, sobretudo durante a sessão no cinema, quando se corta, o tempo todo, da tela ou palco para closes da plateia. Um único ator mal dirigido acho que foi mesmo o menino rico, o dono da bola de futebol e da tv telefunken 12 polegadas, sempre artificial na interpretação de seu personagem e pior (problema de roteirização), falando difícil, usando os verbos no futuro (teremos, veremos); de qualquer forma, os outros estão tão bons que o apagam.

cine holiudy 4

Por que o gênero do Cine Holiúdy tinha que ser lutas marciais? Em dado momento o proprietário Francisgleydisson ainda coloca o rolo de um ´filme de amor´, mas os protestos da plateia são unânimes e ele é obrigado a voltar ao Karatê de sempre. Uma alternativa de explicação está em que, de fato, na década de setenta – época em que a estória se passa -, com a freqüência de cinema em baixa, os filmes de karatê tomaram conta das telas brasileiras, e o Ceará com certeza, não ficou de fora; uma outra explicação – talvez somada à primeira – é de ordem biográfica: consta que o diretor Halder Gomes é mestre em lutas marciais e escolheu um ator, Edmilson da Silva, que também as pratica.

Comecei esta matéria lembrando as chanchadas dos anos 40 e 50. Eram comédias tipicamente cariocas, assim como os filmes de Mazzaropi eram comédias paulistas, em ambos os casos, tão recorrentes e codificadas ao ponto de constituírem um gênero. Apesar das eventuais (e sem continuidade!) filmagens da obra de Ariano Suassuna, o Nordeste nunca deu um gênero cômico em cinema, e o espectador de “Cine Holiúdy” pode ser deixado pensando se este é o começo de um. Será?

Ainda que não seja, o filme decididamente tem fôlego próprio. Não me fez rir, mas isso é um problema meu e não dele, tanto é assim que está faturando milhares Nordeste afora e pode repetir a façanha no Sul do país. Para voltar à isotopia animal de seu universo, se não virar um King King, já é pelo menos uma macaca Monga… como – repito – prometido por uma de sua gags já citada.

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4 Respostas to “O sagui, King Kong e a macaca Monga”

  1. Andrés von Dessauer setembro 11, 2013 às 2:01 pm #

    Olá João,

    Bom Dia !

    Estou num ‘sufoco’ entre Rio e São Paulo, mas mesmo assim quero expressar minha opinião sobre o filme mais original que o Brasil conseguiu produzir e levar às telas nos últimos tempos.

    De fato seria necessário cortar aprox. 15 % do filmes (devido takes que não levam a coisa alguma) e modificar aprox. 20 % do filme. Desta forma você teria um filme digno para ser despacho ao exterior.

    A estratégica de marketing dos produtores segue a linha da Daniela Mercury na época: ‘comer pelas bordas até atingir os centros São Paulo (que digere tudo) e o problemático Rio de Janeiro (com seus egos conhecidos). Portanto, só o Nordeste ‘riu’ por enquanto. Sou um desses que conseguiu rir (problema meu) — até pela formatação do longa. O Auto da Comparecida foi um problema para quem não fala nordestinês: a própia lingua e a técnica de um som horroroso.
    Tenho a impressão que o filme poderá ter sucesso no resto do país.

    Diante da imensidão de puro LIXO , altamente tóxico e contagiante que o BRASIL produz , fazem anos, no setor de cinematografia (p.e. ‘Se Puder …. Dirija !’ – que merda foi essa !) essa mistura cearence entre o ‘Bem Amado’ com o ‘Cinema Paradiso’, foi uma pura benção que a tadinha população de cinéfolos (ou não), recebeu recentemente.

    Nem os dois filmes na disputa final ‘para quem vai ser enviado para o Oscar’ : ‘O Som ao Redor’ e ‘Flores Raras’ conseguem fugir da rotulação de ‘mediocridades’. O ‘Som’ errou totalmente o alvo ( não conseguiu mostrar a transferência de oligarquias canavieiras para uma capital e virou uma história bobinha de vingança pessoal) e sobre o ‘Flores Raras’ já falei no seu blog do porquê esse filme é outro desastre.

    Aparentemente, o país terá que passar por muitas gerações até conseguir mostrar com certa regulariedade algo como ‘Corações Sujos’ do Amorim ou ‘Olhos Azuis’ do paraibano-carioca Joffily.

    Talvez ciente dessas produções ridículas que o Brasil tem apouca vergonha de levar para as telas, a Sonia Braga arrebanhou, lá pelo ano 1988 um grande grupo de atores brasileiros para o ‘Luar sobre Parador’ em um movimento parecido ao ‘Casablanca’ que juntou a maior quantidade de atores conhecidos que fugiram do nazismo. Taí um bom filme, mais brasileiro que americano – uma tábua de salvação para os atores da época.
    Mas a situação melhorou desde então ? Nada, nadinha !

    Bem, tem gente que gosta de mediocridades. Outros, muitas vezes não tem opção no circuito comercial em suas cidades e, obrigado a baixar qualidade pela internet.

    Porque o ‘Corações Sujo’ ou o ‘Olhos Azuis’ não foram enviados para o Oscar pelo Brasil ? Ora, quem pesquisar o assunto a resposta não será surpreendente !

    Gostaria de me alongar, mas estou em uma maratona em SP para manter-me up-dated.

    Mesmo com 1/3 de deficiência recomendo abertamente todos seus seguidores ver o filme cearense, sem medo de entender o linguajar regional, pois este problema foi brilhantemente resolvido.

    Abraços,

    Andrés

  2. Luiz Antonio Mousinho setembro 11, 2013 às 2:42 pm #

    João, talvez o filme não me faça rir, mas seu texto já me sorrir, já ganhei o dia de leitura, para variar — esse misto de alegria estética e existencial que encontro na sua escrita. Abraço,

  3. Vitória Lima setembro 11, 2013 às 9:14 pm #

    Talvez, uma daquelas risadas/gargalhadas que você ouvi tenha sida a minha. Ri de chorar. Eu sou bem mais simples que você, meu amigo, Melhor dizendo, naïve e para mim é fácil fazer a willful suspension of disbelief e me entregar ao riso. Sua análise é muito boa.

  4. andrés von dessauer setembro 15, 2013 às 12:36 am #

    Olá João,

    Volto para o seu blog ‘Nem tudo é Oliveira no Portugal’ einformo que no eixo estreiou ‘O Estranho caso de Angélica’. Pela segunda vez, durante 6 anos, tive que abandonar um filme após uns 40 minutos rodados. Isso representa poucas saídas forçadas, considerando que tenho que ver quase todas as noites 1 filme no eixo. O filme do Oliveira é ruim e patético em tudo. Quando então se atreve a filosofar – não tem quem aguente tamanho besteirol. Agora é possível entender a herança maldita portuguesa que resultou nas produções medíocres brasileiras. Ou será uma auto-imposta preguiça de pensar, o resultado das pífias produções nacionais ? Bem, o novo filme cearense é um alívio para as almas luso-brasileiras que ainda conseguem ser inventivas.
    Volto para JP, final de outubro, para apresentar 4 filmes no ESTACINE. Caso sua agendar permita,seria um prazer contar com sua presença.
    Um bom final de semana!
    Abs., Andrés.

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