O terceiro velho

2 out

Apesar da expressão popular que a denomina, aquela profissão feminina – também conhecida como a mais antiga do mundo – não é nada fácil. Daí tanto render, nas artes, o seu potencial de dramaticidade, especialmente na literatura e no cinema.

Pobrezinha como Cabíria (“Noites de Cabíria”, 1957) ou sofisticada como Holly (“Bonequinha de luxo”, 1961), circunstancial como Myra (“A ponte de Waterloo”, 1940) ou vocacionada como Irma (“Irma la douce”, 1963), a figura da prostituta foi sempre uma fonte de inspiração para criadores de imagem.

É do que me lembro ao ver o belo curta de Marcus Vilar “O terceiro velho” (2013), exibido no dia 10 de setembro em João Pessoa, e ampla e merecidamente premiado no VII Comunicurtas de Campina Grande.

Marcus Vilar, autor do curta "O terceiro velho" (2013)

Marcus Vilar, autor do curta “O terceiro velho” (2013)

Claro, como se trata de um curta-metragem de 15 minutos, não há tempo para o desenvolvimento das caracterizações, nem possibilidade de aprofundamento psicológico dos personagens, nem isso é esperado do gênero. Conforme o numeral do título sugere, o enredo se limita a uma única noite na lida profissional dessa jovem prostituta da orla pessoense, que, ao contrário dos seus jovens fregueses habituais, nessa noite em particular experimenta a coincidência de acolher três homens idosos. Uma vez que velhice e sexo não são propriamente isótopos, a noite dessa jovem mulher vem a ser particularmente estranha.

Para os dois primeiros, que aparecem juntos, ela executa um strip tease na frente do carro de faróis acessos, enquanto, lá dentro, os dois se divertem e se satisfazem com o show. Já a aventura com o terceiro (notem que o titular da estória toda), é mais misteriosa. Se com os dois primeiros o caso tendera mais ao patético, agora a inclinação é para o funesto, e a performance implica, dentro de um ambiente fechado, vestidos de noivas, velas e esquifes.

Embora o maior tempo de tela seja dado a essa jovem prostituta, é esse personagem titular que ganha força temática e imaginativa, ao se fechar a narrativa. Em cena que toma a segunda metade do filme, testemunhamos o seu ritual (um prazer dolorido que beira a necrofilia) e, depois que a moça sai, ouvimos o estampido de um revólver, porém, nenhuma informação diegética nos ajuda no desvendamento do mistério.

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Kassandra Brandão faz garota de programa que atende aos três velhos na mesma noite

Para dizer a verdade, assim como o conto adaptado (“O terceiro velho da noite” do escritor sergipano Antônio Carlos Viana), o filme vive de lucunas e esse vazio mesmo faz parte de sua proposta semiótica. Quem é esse senhor idoso que paga a uma profissional do sexo para, junto com ela, executar um ritual fatal? Quem seria a mulher, amada ou não, que a jovem prostituta é obrigada a representar dentro do vestido e do esquife? Por que aquele vestido, e por que o ritual mesmo, executado daquela forma e não de outra? E – pergunta mais difícil – por que o tiro? O espectador, bem como o leitor do conto, é deixado com as mais variadas possibilidades de preenchimento da estória, da forma que mais lhe aprouver. A mais radical seria fazer um novo filme, ou escrever um novo conto. De qualquer forma, um exemplo típico daquilo que, em teoria da narrativa, se chama de final aberto.

O conto de Viana é narrado em primeira pessoa verbal, e por isso, a personagem feminina, nele, nos parece mais próxima, mais íntima. Do seu discurso, ficamos conhecendo as suas impressões sobre o que está vivenciando na ocasião, os seus temores e os seus desejos – embora, obviamente, esse discurso em nada ajude a explicar o comportamento do terceiro velho. Imagino que os roteiristas do filme, Vinicius Rodrigues e o próprio Marcus Vilar, devem ter lutado com esse nível de subjetividade na fala da personagem, para passar, na tela, e sem a chatice da voz over, a imagem de uma figura feminina que atraísse o espectador, por razões não apenas eróticas – e acho que conseguiram o equilíbrio entre as duas feições diversas que o filme assume, a documental (a vida da prostituta) e a ficcional (o núcleo temático em torno do personagem titular) – aquela primeira feição, no caso, acentuada pela modificação do cenário, de algum lugar indefinido no conto, para a orla pessoense no filme.

Todos os atores estão ótimos e o filme é um bom exemplo do nível de qualidade que o áudio-visual paraibano vem atingindo nos últimos tempos. Nele destaco, ainda, a escolha da fotografia em preto-e-branco, bem mais efetiva do que se a equipe tivesse optado por algum colorido sombrio, ou, num caso extremo, por aquele recurso chamado de “noite americana”, em que se filma de dia, escurecendo a imagem com lentes opacas. Nesse particular, não se pode deixar de notar o trabalho de câmera e iluminação de João Carlos Beltrão, fundamental num filme de ambientação noturna e, mais que isso, de certa evocação fantasmal, onde luzes e sombras ganham estatuto temático.

Acima disse que velhice e sexo não cabem dentro da mesma isotopia. “O terceiro velho” deixa a questão no ar – mais uma.

O diretor e parte do elenco do filme

O diretor e parte do elenco do filme

Anúncios

4 Respostas to “O terceiro velho”

  1. andrés von dessauer outubro 2, 2013 às 6:58 pm #

    Olá João,

    De tão interessante a moça, que se não foi ela ter recebido a bala, me candidato para ser o ‘quarto velho’.
    Hoje, vindo do Cabo Branco, às 12:45 contei 14 ‘irmãs sedentas’ na rua entre o barranco da APP e os fundos dos prédios e, ademais 4 carros parados (que não furaram o pneu). Profissão em expansão em JP , mas quanto aos preços, aparentemente, um mercado inflacionado. Filme sobre prostitutas tem que ser muuuuuuuuuuuito bom para ser levado a sério. ‘Surfistinha’ foi um desastre e pior: foi enviado para o Oscar por burocratas drogados. Quando exibido lá, ninguém foi ver e disseram: …. ‘ não vai pois é pornografia brasileira’…….resultado: ninguém foi. Afinal, o que tem de tão interessante na vida de uma prostituta que toda classe média quer tanto compartilhar ????

    E vamos que vamos com o ESTACINE: ainda estou em JP e exibirei / comentarei 2 filmaços (entrada franca) no final de semana próximo:
    1) A FITA BRANCA do austríaco Haneke, sábado às 16:00
    2) O NOME DA ROSA do Annaud, domingo às 16:00 – imperdível para quem lida com religiões e risos. Divido a tarde com um expert em inquisições. Minha crítica será publicada no próximo CONTRAPONTO, sexta-feira, possivelmente junto com a sua.
    Se sua agenda permite comparecer, me ligue. Depois disso by by JP , pois estou programado para falar sobre filmes no eixo Rio / SP. Voltarei final de novembro com um filme LGS. LGS ?!?!, Ora, afinal, o ‘mercado’ sempre foi multicanal.

    Abraços, Andrés.

  2. Kassandra Brandão outubro 4, 2013 às 4:51 am #

    Olá João Batista. Gostei muito da crítica sobre o Terceiro Velho, até divulguei o link na página do filme (facebook). Sou suspeita para falar sobre o filme, mas o que tenho a dizer é que a qualidade dos filmes paraibanos vêm crescendo. Temos ótimos profissionais e espero que a produção aumente cada vez mais.

  3. João Batista de Brito outubro 4, 2013 às 12:36 pm #

    Oi, Kassandra. Obrigado pelo contato. No meu comentário (as 65 linhas de minha coluna no Contraponto) fiquei sem espaço para me referir a sua interpretação, mas, na minha coluna oral da CBN (disponível na internet) faço isso. Se der, consulte o Site da CBN, clique no meu nome em Colunistas, e escute a coluna. Abraço.
    PS: o acesso a meu texto neste blog está ótimo: em menos de dois dias já chegou a 50.

    • Kassandra Brandão outubro 5, 2013 às 3:44 am #

      Oi João, vou acessar o site da CBN. Ainda não vi! Divulguei sua crutica no meu face e na pagina do terceiro velho, espero que tenha contribuido nesses acessos. 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: