A filmar

28 nov

`Dá um filme!`. Quantas vezes já não se disse esta frase, depois de se ouvir certas estórias da vida real. Eu mesmo já disse, pois muitas estórias ouvi, algumas boas, que nunca vi filmadas. Uma pena.

A mais recente, e das mais fortes e impressionantes, não a ouvi, mas foi como se tivesse ouvido, pois, embora rigorosamente verídica, está narrada em papel com a desenvoltura e a paixão de um autêntico contador de histórias.

Refiro-me ao livro “A morte do fotógrafo” (Casa da Memória, 2006) do historiador paraibano Humberto Fonseca, que devorei de um só fôlego, como se estivesse escutando tudo da boca do autor.

Ao terminar, fechei o livro com pena de ter chegado à última página, e, “no cinema dos meus olhos” (obrigado, Vinicius) passei a reconstituir o filme inteiro, com direito a flashback e tudo mais.

Araruna, PB, cenário do drama

Araruna, PB, cenário do drama

Na pequena Araruna de 1958 um crime é cometido, que abala a cidade. Numa traiçoeira emboscada de estrada, um cidadão mata outro, simulando acidente. O automóvel do criminoso teria se chocado com a motocicleta da vítima, e o choque foi fatal. Residentes em Araruna, ambos eram fotógrafos, mas, claro, não houve foto do acidente.

O criminoso é preso e o seu genro, co-autor do crime e presente na ocasião, foge. A partir daí, vamos acompanhar as descrições dos muitos júris, com as transcrições fiéis dos documentos processuais, em todos os seus detalhes, com nomes completos de juízes, promotores, advogados, jurados e demais envolvidos.

Nas primeiras sessões, o réu é condenado a vinte e quatro anos de reclusão, porém, depois disso os julgamentos seguintes vão tomando contornos diferentes. Lá para o quarto júri, o réu é, surpreendentemente, isentado de culpa, embora ainda vá permanecer preso por muitos anos, sem que a justiça alcance uma unanimidade.

Na prisão, definha a olhos vistos e o seu estado debilitado comove os habitantes do lugar, e, parece, também os membros dos júris seguintes. A família do réu se muda para uma casa perto da cadeia, de modo a dar melhor assistência ao parente.

Outra vista de Araruna

Outra vista de Araruna

Quanto à família da vítima, esta, sem recursos nem amparo depois dessa perda irreparável, deixa a cidade quando do acontecido: vai embora para Recife, e, com a ajuda de uma parenta, passa a viver nas dependências de uma casa de praia distante, praticamente como mendigos, sem ter o que comer, não fosse pela iniciativa de um dos garotos de ir ao centro de Recife, vender folhetos de cordel onde, em versos, relata a morte do pai. Mais tarde é que um militar encontra o cordelista na rua, faz amizade, se compadece e termina por ajudar a família toda.

Não vou contar o resto da história, para não tirar a graça de quem ainda não leu “A morte do fotógrafo”, mas devo apenas dizer que o autor – como é costume acontecer em um filme – a inicia pelo final, quando ele e a esposa, passando dias em um hotel em Recife, não muito tempo atrás, vem a conhecer um garçom – surpresa para todos! – que era casado com uma das filhas do fotógrafo assassinado em Araruna.

Segundo o próprio Fonseca, foi esse encontro casual e tardio (quase cinqüenta anos depois do episódio) que o instigou a ir atrás dos documentos do processo jurídico e, enfim, relatar imparcial e objetivamente, a história completa do crime e seus desdobramentos dramáticos, coisas de que ele só se recordava parcialmente, por ser, na época dos tristes acontecimentos, um adolescente em Araruna.

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Humberto Fonseca de Lucena, o autor

Finda a leitura do livro de Fonseca, foi inevitável que me lembrasse de filmes que vi ao longo da vida e que marcaram minha imaginação de cinéfilo. Três pelo menos me vieram à mente, a saber, o francês “Dois são culpados” (André Cayatte, 1962), o americano “A visita da velha senhora” (Bernard Vicki, 1964) e o brasileiro “O caso dos irmãos Nave (Luis Sérgio Person, 1967).

Bem entendido, os enredos destes filmes sombrios são diferentes, tanto entre si, como em relação à estória de Araruna narrada por Fonseca, porém, o que os une no meu imaginário privado é o fato de, até certo ponto, possuírem, junto com “A morte do fotógrafo”, ao menos três ingredientes essenciais: (1) uma análoga situação diegética – crime e castigo em uma cidade pequena; (2) uma semelhança temática – a ambiguidade da lei na sua relação direta com os cidadãos de carne e osso; e (3) mais que qualquer outra coisa, uma mesma pesada atmosfera de disforia, desperdício e tragédia.

Fica, assim, feito o registro.

Se você é porventura um cineasta à cata de argumento, que se habilite. Não garanto que o autor do livro o queira filmado, mas, de todo jeito, não custa a tentativa.

De minha parte, eu adoraria ver esse livro na tela.

A capa do livro, que nos promete outras histórias

A capa do livro, que nos promete outras histórias

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11 Respostas to “A filmar”

  1. Rubens novembro 28, 2013 às 1:12 pm #

    Concordo com você, João. Tanto os fatos em si como a maneira como a (hi)estória é contada nos levam a pensar, de pronto, numa adaptação cinematográfica. Abraço!

  2. João Batista de Brito novembro 28, 2013 às 6:14 pm #

    Abraço, Rubens.

  3. humberto fonsêca de lucena novembro 29, 2013 às 5:46 pm #

    João,
    Estou muito contente e emocionado com a apreciação que você fez do meu livro ” A morte do fotógrafo”. Agora, posso dizer que ele recebeu o “selo de qualidade João Batista de Brito”. Um abraço.

    Humberto

  4. João Batista de Brito novembro 30, 2013 às 12:51 am #

    Humberto amigo, várias pessoas estão querendo ler seu livro. Tomara que você ainda disponha de exemplares…
    Abraço.

  5. Tânia Miranda dezembro 2, 2013 às 7:52 pm #

    E não poderia deixar de dizer que este é apenas um dos vários fascinantes e bem escritos livros do autor Humberto Fonseca. Seus escritos tem mesmo esse incrível poder de nos fazer visualizar “no cinema dos nossos olhos” – como foi dito –, cada cena descrita. Excelente!

  6. Gelza Rocha Fernandes de Carvalho dezembro 6, 2013 às 6:53 pm #

    Sem dúvida uma excelente observação de João Batista de Brito a respeito do livro do meu amigo Humberto Fonseca de Lucena. Quando li o livro, não vi a história ali explicitada por este prisma (virar filme), porém fiz comparações com os crimes expostos em romances de Agatha Christie ou aqueles desvendados por Sherlock Holmes. Aprovo a ideia de transformá-lo em filme (roteiro do próprio Humberto). Parabéns João Brito por ter analisado tão bem “a morte do fotógrafo”.

  7. Carlos Aranha dezembro 8, 2013 às 3:51 am #

    É realmente um pré-argumento, ou já o argumento completo, a ser adaptado para o cinema com roteiro dividido entre João Batista de Brito e o autor do livro, Humberto Fonsêca de Lucena. “A morte do fotógrafo” pode ser – com filmagens em Araruna e no Recife – uma realização cinematográfica rara na filmografia brasileira e única no cinema paraibano, que se firmou na tradição de documentário mas não encontrou ainda um cineasta de “mão leve” e criativo num gênero onde a dramaturgia é o elemento principal. Tenho certeza que tudo daria certo na produção, no roteiro, na fotografia, no elenco e na edição, mas o diretor teria que ser importado do Rio de Janeiro ou São Paulo (principalmente), que não tivesse a preocupação de “inovar” mas a de seguir a característica dos grandes mestres mundiais do gênero policial. “O caso dos irmãos Neves”, do saudoso Luiz Sérgio Person, é um bom caminho.

  8. Modesto Siebra Coelho dezembro 15, 2013 às 12:52 pm #

    Li A MORTE DO FOTÓGRAFO, de Humberto Fonseca, à ocasião da sua publicação, em 2006. À época, em modesto comentário que enviei ao autor, já enaltecia as sólidas qualidades da obra. Meu ponto de vista continua o mesmo. A MORTE DO FOTÓGRAFO é uma narrativa fascinante, verossímil, que se lê de uma só tacada. Vejo-a como uma novela com trama bem urdida, argumentação simétrica e em estilo sóbrio e seguro.
    Com A MORTE DO FOTÓGRAFO, Humberto traz a lume “outras histórias” da sua inspiradora Araruna natal, desta feita, com tema diferente dos anteriores.
    Como qualificado crítico de cinema e literatura, o Professor João Batista de Brito, ao analisar a obra, foi mais além. Viu que ela tem substância e fôlego para virar filme, com o que estou de pleno acordo.

  9. João Batista de Brito dezembro 17, 2013 às 2:55 pm #

    Prazer em conhecê-lo, Modesto.
    Abraço de João.

  10. Wellyson Marlon Jr. abril 11, 2016 às 5:46 pm #

    Li de um só fôlego A morte do fotógrafo, arrepiado durante os primeiros cinco capítulos (sem falar em excertos adiante). João nos brinda com seu olhar cinematográfico de excelente crítico para nos alertar da necessidade de a história ir parar nas telas. A forma pela qual Humberto arranjou para contar foi precisa e muito feliz. Esse livro já é de cabeceira, o leio constantemente (e as imaginações de vê-lo no cinema a mil). É, meus caros João e Humberto, precisa virar filme.

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