Trágico amanhecer

22 fev

Já me perguntaram quantos filmes vejo por ano. São muitos, mas a maior parte são clássicos do passado, revistos ou vistos com um interesse que, confesso, não alimento pelo cinema atual.

Esta semana foi a vez de “Trágico amanhecer” (“Le jour se lève”, 1939), o comovente drama da dupla Marcel Carné e Jacques Prévert, considerado pela crítica um representante especial do chamado ´realismo poético francês´.

Se não chegou a ser um movimento cinematográfico, o ´realismo poético´ foi ao menos um estilo de época, com caracterísitcas bem definidas e que teve enorme influência sobre cinéfilos e cineastas do mundo inteiro. Como o nome sugere, eram filmes que privilegiavam a verossimilhança, mas que, por trás dela, escondiam uma atmosfera lírica bem particular. O crítico francês André Bazin assim o definiu: ´ é tudo em verso, ou pelo menos numa prosa invisivelmente poética´.

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De qualquer forma, realismo e poesia são palavras antagônicas e a melhor maneira de entender essa corrente estilística do cinema francês é conhecendo os filmes, em especial os da dupla Carné e Prévert, sem coincidência, o primeiro, cineasta, e o segundo, poeta. Além de “Trágico amanhecer”, “Cais das brumas” (38), “O boulevard do crime” (45) e “As portas da noite” (46).

Eram melodramas envolvendo crime e polícia, e, contudo, não devem ser confundidos com o cinema noir. Seu realismo podia ser sombrio e trágico, mas seus protagonistas – geralmente vencidos pelas circunstâncias – nunca eram vilões por essência e sonhavam com a felicidade, ainda que não a pudessem ter.

Caso, em “Trágico amanhecer”, desse modesto e bem intencionado operário François (Jean Gabin), que se apaixona por essa ingênua florista Françoise (Jacqueline Laurent) e logo descobre que ela tinha um compromisso escuso com um ardiloso homem de teatro, capaz de enfeitiçar cães e gente (Jules Berry).

Lutando contra o feitiço de Valentin, François o mata, e o corpo rola pela escadaria da pensão onde o operário reside. Trancado em seu quarto, François vai passar a noite acuado pela polícia, relembrando a estória que o transformou em assassino – uma estória que só nos chega em uma série de flashbacks cronológicos. Como o belo título original ironicamente sugere, o desenlace só ocorrerá ao fim da noite, quando “le jour se lève” / ´o dia se levanta´.

le jour 3

Refiro-me ao título original porque, em alguns países, esse título contrastivo ao drama foi estragado. Se o brasileiro não o estragou, o estrago foi grande em Portugal, que, com seu mau costume de apontar e explicar o desenlace, reintitulou o filme de “Foi uma mulher que o perdeu”.

Lançado no início da Segunda Guerra, “Trágico amanhecer” recebeu reação negativa e o Governo francês chegou a bani-lo das telas, alegando estímulo ao derrotismo. Mais tarde, finda a guerra, toda a filmografia de Carné do período 38 a 46 seria interpretada pela crítica sociológica como uma espécie de premonição da derrota francesa junto ao nazismo.

Por falar em premonição, um movimento que, de fato, esteve na formação artística de Carné foi o Expressionismo alemão, embora ele não o tenha seguido ao pé da letra. Ao invés das alegorias e simbolismos explícitos alemães, Carné optou pela retratação fiel do real, ainda que essa retratação não elimine a existência de elementos simbólicos menos explícitos e, no caso, visceralmente integrados à estória narrada.

Jean Gabin é o operário acossado

Jean Gabin é o operário acossado

Em “Trágico amanhecer” há várias instâncias disso, por exemplo: as flores em close no primeiro encontro do casal, ou a imagem recorrente do espelho no quarto de François, quebrado em momento decisivo, quebra que, por sua vez, é uma prolepse do desenlace. Uma instância bem efetiva, para a dimensão metafísica do drama, é a figura daquele cego – espécie de Tirésias urbano – que encontra o cadáver do malfeitor nas escadarias da pensão, logo na abertura do filme.

Uma curiosidade en passant: Hollywood chegou a fazer um remake do filme de Carné, que Anatole Litvak dirigiu para a RKO, com Henry Fonda no papel de Gabin, mas claro, “Noite eterna” (“The long night”, 1947) é, segundo os comentaristas, indigno do original.

Na opinião de críticos e historiadores, Marcel Carné teria decaído vertiginosamente depois de dispensar a participação de roteirista do poeta Jacques Prévert, vindo a demonstrar, nos seus filmes posteriores a esta fase realismo poético (pós-1946), uma superficialidade que só o associa aos aspectos mais pedantes e falsos da cultura francesa, mas, esta é outra estória que fica para outra ocasião.

Por enquanto, sugiro que curtamos “Le jour se leve”…

O cineasta Marcel Carné

O cineasta Marcel Carné

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