12 anos de escravidão

17 mar

Duas décadas antes da Guerra de Secessão, em plena Washington, D.C., um homem de bem, pai de família e cidadão respeitado, é seqüestrado e, por causa da cor, vendido como escravo no Sul do país, onde vai trabalhar nas plantações de algodão, sob o jugo pesado de vários patrões.

Com extrema contundência o filme “12 anos de escravidão” (“12 years a slave”, de Steve McQueen, 2013) exibe o lado mais perverso da escravatura negra nos Estados Unidos e o faz de forma documental, já que é fielmente baseado no livro que o cidadão em questão, o negro Solomon Northup, teve a boa idéia de publicar, ainda em 1853, nele contando todo o seu calvário de escravizado, do dia do sequestro ao instante da libertação, doze anos depois.

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À parte a premiação, o filme tem dois motivos para chamar a atenção do público, especialmente do americano. Primeiramente o fato de ser baseado em um relato real, que hoje vale como documento histórico: poucos sabiam, por exemplo, que esses sequestros de negros livres foram freqüentes no Nordeste americano.

Em segundo lugar, por tocar numa ´ferida nacional´, apesar da eleição do atual presidente negro, nunca plenamente sarada – o racismo, esse mal desastroso que, desde sempre, dividiu o país em dois, o Norte progressista e liberal, e o Sul atrasado e conservador, onde a guerra civil e a abolição, foram só detalhes, porque a derrota dos confederados – sabe-se muito bem – só fez acirrar o preconceito de cor. Não esqueçamos que há apenas cinquenta anos, em 1963, estudantes negros ainda eram barrados em portas de universidades sulistas pelos governadores de estado, e isto com apoio da população branca local (conferir o documentário “Crise”, de Robert Drew, 1963).

Mas, voltemos ao filme. Na difícil tarefa de resumir doze anos em duas horas, percebe-se que o diretor McQueen apelou para uma roteirização onde ficassem claros, para o espectador, os turning points que dão andamento à narrativa, mas sobretudo uma roteirização onde se sobressaíssem os momentos mais dramáticos da trajetória de Solomon (Chiwetel Ojiofor).

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Nyongó, Fassbender e Ojiofor em cena do filme

Só para ilustrar, dois desses momentos são: (1) o instante em que, mal chegado ao seu primeiro patrão, e em conversa com outros escravos, Solomon se dá conta de que não perdeu apenas a liberdade, mas com ela, a sua identidade, perda sintomática na assunção obrigatória do novo nome, Platt; (2) a ocasião em que, traído por um empregado branco da fazenda, precisou tocar fogo na carta que, a duras penas, escrevera a Washington, sua única chance de reaver à liberdade perdida.

Um fator forte na vida dramática do filme está na amizade entre Solomon e a escrava Patsy (Lupita Nyong´o), cuja imposta posição de amante do patrão e, consequentemente, rival da dona da fazenda, a torna um alvo especial da violência racista: um ponto crítico dessa doída amizade acontece no dia em que Solomon é obrigado a chicotear a moça, esta amarrada a um tronco de árvore, o chicoteamento assistido pelos donos da casa.

As interpretações estão excelentes, especialmente as de Chiwetel Ojiofor, Lupita Nyong´o (premiada com o Oscar) e Michael Fassbender, este no papel do desequilibrado e sádico proprietário de escravos Edwin Epps. A narrativa flui sem muitos problemas e – como não? – prende o espectador do começo ao fim.

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

Chiwetel Ojiofor é Solomon Northup

E, no entanto, é só isso: ao meu ver, um bom filme, sem maiores qualidades além das referidas, e que ganhou o Oscar de melhor realização de forma justa, não porque possua méritos extraordinários, mas pelo simples fato de 2013 ter sido um ano cinematográfico em que nada se sobressaiu acima da média.

A rigor, “12 anos de escravidão” é aquele tipo de filme em que o conteúdo corre o perigo de apagar a forma – e a relevância da temática tender a ser confundida com outras relevâncias.

De minha parte, posso estar enganado, mas uma impressão que me passou foi a de que faltou aprofundamento ao personagem principal, como se o empenho em descrever os horrores da escravidão tivesse levado a direção a negligenciar um pouco na caracterização psicológica do protagonista Solomon, quase sempre só ´um negro assustado que esconde sua alma´. Que ele esconda sua vida interior dos patrões, tudo bem, mas não acho que devia escondê-la tanto de nós.

Nos créditos finais do filme informa-se que, depois de reencontrar a família em Nova Iorque, Solomon Northup entregou-se de corpo e alma a uma corajosa campanha pública em prol da abolição da escravatura, dando palestras por toda parte e divulgando o seu livro. Essa força de personalidade não aparece no Solomon do filme. Enfim, uma grande estória, quase épica, cujo herói parece não possuir a grandeza correspondente.

Ou será que estou exigindo demais do filme de McQueen? Os leitores desta matéria que decidam.

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

A equipe do filme na cerimônia do Oscar 2014

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6 Respostas to “12 anos de escravidão”

  1. claudiojr março 17, 2014 às 3:51 pm #

    Ótimo artigo.

  2. Humberto de Almeidda março 17, 2014 às 6:32 pm #

    Grande João filho de Seu Rui e Dona Maria! Também escrevi exatamente isso: o Salomon, apesar da informação de que se entregou de corpo e alma a uma corajosa campanha pública em prol da abolição da escravatura, em nenhum momento o filme mostra isso, mas um “negro-tudo-bem-sim-senhor” fazendo tudo o que seu mestre e patrão mandava. O “nosso” Luiz Gama, baiano e rábula bem sucedido – não direi poeta/escritor -, negro vendido pelo próprio pai e por mais tempo que ele escravizado se parece mais com o “heroi” que depois de sua – dele – história contada no filme foi transformado ainda em vida. Também achei merecedor do Oscar. Uma confissão: Gravidade é um saco!Putabraço!

    • João Batista de Brito março 18, 2014 às 11:08 pm #

      Grande Humberto, filho de Seu Heráclito e Dona Chiquinha!
      Muito bom concordarmos e boa lembrança a do Luiz Gama. Fiquemos em contato. Abração.
      Em tempo: o nome de teu pai eu lembrava, mas, para chegar ao de tua mãe tive que proceder a uma profunda pesquisa no Google…

      • Humberto de Almeidda março 24, 2014 às 3:22 pm #

        taí , meu bom João! lendo a tua gentil resposta sorri e muito nesta segunda-feira sem graça! dona Chiquinha merecer um “pesquisa profunda” no google ?! o que eu vou desejar mais ? (risos) putabraço!

  3. Wellington Modesto março 18, 2014 às 11:47 pm #

    Concordo plenamente. Quanto à falta de profundidade psicológica eu não posso asseverar pois não vi o filme. Ele no entanto me pareceu certamente bonito e possivelmente edificante, porém em nada difere de outros filmes do mesmo gênero e ambientação( A Cor Púrpura do Spielberg, entre outros), que seguem à risca certa cartilha feita especialmente para agradar à Academia quanto a esse tipo de produção.
    Acho até que o filme anterior do diretor, Shame, também com o Michael Fassbender, é mais inovador.

  4. Ramon Limeira Cavalcanti de Arruda maio 29, 2014 às 7:00 pm #

    Achei um filme mediano, João, e concordo com sua crítica sobre a falta de profundidade psicológica do protagonista, o que termina ocorrendo a todas as personagens. O filme pareceu-me reduzido quase à estrutura de um argumento ou de um telegrama: homem negro livre escravizado sofre e salva-se. Abração!

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