Beijos, beijos, beijos…

11 abr

Neste domingo, 13 de abril, comemora-se o Dia do Beijo. Não sei quem instituiu a data, mas, aproveito o ensejo para repassar alguns beijos famosos na história do cinema, já que o gesto da carícia bucal é tão importante na sétima arte quanto na vida.

Vamos começar do começo? O cinema tinha apenas um ano de idade quando o primeiro beijo apareceu na tela. Produção do Vitaphone de Thomas Edison, com direção de William Heise, o filmezinho de vinte segundos, “The Kiss” (1896), mostrava na tela o que o título diz: os atores maduros May Irwin e John C Rice, felizes e sorridentes, colando os lábios e pronto.

O primeiro beijo no cinema: "The Kiss", 1896.

O primeiro beijo no cinema: “The Kiss”, 1896.

O efeito foi escandaloso e gerou protestos de puritanos indignados por toda parte, muitos considerando o filme “completamente nojento”. Mas claro, ninguém da então nascente indústria cinematográfica levou esses protestos a sério e, fosse o filme curto ou longo, mudo ou falado, o cinema incorporou definitivamente o beijo como um elemento inseparável de qualquer estória, de amor ou não.

Tanto é assim que, duas décadas adiante, o filme “Don Juan” (1926, de Alan Crossland) já continha nada menos que 119 beijos, todos saídos da boca do ator John Barrymore para as suas muitas amadas.

No mesmo ano, 1926, o filme “O diabo e a carne” (de Clarence Brown) já mostrava um suculento beijo de boca aberta, até então, uma novidade na vida erótica do cinema, no caso, entre Greta Garbo e John Gilbert.

Um beijo ousado em um filme inocente: "A felicidade não se compra", 1946.

Um beijo ousado em um filme inocente: “A felicidade não se compra”, 1946.

Pouco tempo depois disso, em 1930, já vai se ter o primeiro beijo lésbico da história do cinema, quando em “Marrocos”, Marlene Dietrich vestida de homem, beija na boca uma das moças que, no bar onde a cena acontecia, a ouvia cantar e dançar.

Na década de quarenta, um filme “inocente” como “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) vai produzir o primeiro beijo dentro de uma mesma longa tomada, beijo entre James Stewart e Donna Reed tão apaixonado que o rigoroso Código Hays de Censura – em vigor nos Estados Unidos de 1934 a 1964 – não gostou e hesitou em permitir a exibição.

Neste mesmo ano, o bruxo Hitchcock driblou a cronometragem obrigatória do Código Hays (oito segundos para cada beijo) e fez, em “Interlúdio” (1946), um longo beijo todo quebrado, com intervalos de bocas separadas a cada oito segundos, aliás, efeito mais erótico do que se tivesse sido ininterrupto. As bocas eram de Cary Grant e Ingrid Bergman.

Mas, ninguém tem dúvidas, o beijo mais ousado da época, o que abalou as estruturas do Código Hays, foi o que trocaram Deborah Kerr e Burt Lancaster em “A um passo da eternidade” (Fred Zinnemann, 1953), vocês lembram, os dois com roupa de banho, deitados um por sobre o outro nas areias mornas de Pearl Harbour, ela confessando a ele, apaixonada, “nunca ninguém me beijou assim, do jeito que você me beija”.

O beijo que abalou o Código Hays de Censura: "A um passo da eternidade", 1953.

O beijo que abalou o Código Hays de Censura: “A um passo da eternidade”, 1953.

O primeiro beijo interracial vai acontecer logo depois, em 1957, no filme de Robert Rossen “Ilha dos trópicos” (“Island in the Sun”), onde a atriz branca Joan Fontaine é beijada pelo ator negro Harry Belafonte. Conta-se que, depois de distribuído o filme, Fontaine passou a receber cartas de seus fãs americanos, sugerindo que nunca mais se metesse a esse gesto indigno de “kiss a nigger”, expressão onde ´nigger´ é um termo pejorativo para uma pessoa de cor. Obviamente, a maior parte das cartas vinha dos estados racistas do Sul.

Com isso passamos, já na década de setenta, ao primeiro beijo gay da história do cinema, que está no filme inglês de John Schlessinger “Domingo maldito” (1971) e acontece entre os atores Peter Finch e Murray Head.

O primeiro beijo gay: "Domingo maldito", 1971.

O primeiro beijo gay: “Domingo maldito”, 1971.

No mesmo ano, vamos ter o primeiro beijo cinematográfico com grande diferença de idade entre os beijantes. Acho que vocês se recordam da comédia ´mórbida´ de Hal Asby “Ensina-me a viver”, onde a idosa Maude e o adolescente Harold mantêm um inusitado caso amoroso e como todos os apaixonados, trocam um beijo tão quente quanto se fossem da mesma idade.

Hoje o cinema está cheio de beijos de toda espécie e entre os beijantes mais diversos, porém, os filmes citados foram os pioneiros em suas – digamos assim – ´categorias´.

Uma coisa é certa: inovador ou convencional, o beijo é um momento especial da estória, gráfico, plástico, fotogênico, que por vezes pode perdurar na memória do espectador mais que o filme.

Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg nas águas da Fontana de Trevi em “A doce vida”… Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg no pequeno apartamento de “Acossado”… Gregory Peck e Audrey Hepburn dentro do carro em “A princesa e o plebeu”… Quais as suas cenas de beijo preferidas? Relembre-as e, com certeza, você vai incrementar o seu potencial oscular, no dia de hoje… e sempre.

Audrey Hepburn e Gregory Peck em "Roman Holiday" ("A princiesa e o plebeu").

Audrey Hepburn e Gregory Peck em “Roman Holiday” (“A princiesa e o plebeu”).

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3 Respostas to “Beijos, beijos, beijos…”

  1. Andrés von Dessauer abril 11, 2014 às 1:21 pm #

    Olá João ,

    Ótimo resumo seu.
    Uma soma de muitos beijos está no CINEMA PARADISO.
    Não escrevi mais no seu blog, pois minha última postagem se perdeu (ou foi censurada). Participo de 4 outros blogs dos ‘profissas’ do ‘eixo’. Estou no 1/2 do VARILUX em São Paulo (16 filmes em 4 dias) e já entrevistei 2 bem humorados cineastas. Talvez escrevo lá na Paraíba no CONTRAPONTO sobre este Festival que, até agora, não conseguiu me tirar dos cochilos.
    Sds., Andrés.

  2. Bruna Belmont abril 12, 2014 às 3:39 am #

    Adorei! Beijos.

  3. andrés von dessauer abril 15, 2014 às 5:21 pm #

    Olá João e listeiros,
    O fenômeno humano ‘BEIJO’ que, distingue o ser humano dos animais, por ser supostamente racional, é tão importante, que me manifesto novamente. Quando o espectador assiste um beijo na tela, as reações são basicamente dois sentimentos diferentes : constrangimento (pois ele não beijou, faz algum tempo) ou indiferença (pois nunca beijou). A minoria da minoria autocrítica talvez se perguntará : quando é que beijei ou fui beijado a última vez ?
    Os beijos nos filmes antes do homem ter chegado na lua são tão perfeitos como nos filmes após o homem ter chegado na lua. Só que por uma questão de nostalgia, em virtude de não termos beijado ou ter sido beijado nos últimos 30 dias, ‘achamos’ que os beijos de outrora eram melhores. Ora, comparar beijos de filmes com os beijos ‘zero’ na realidade, é covardia.
    Veja só que beijos originais apareceram, recentemente, nas telas entre ursos & filmes e, que postei no blog de um crítico profissa:
    QUOTE
    ‘Hoje eu quero voltar sozinho’
    foi beijado pelos ursinhos
    alemãezinhos,
    pois se encantaram com o clima de ingenuidade e simplicidade da obra. Foi uma das poucas vezes que cineastas brasileiros conseguiram, com sucesso, seguir à risca a fórmula argentina, transformar uma pequena ‘coisa’ em algo inesquecível. O fato de que
    o amor e o tesão
    não serem monopolizados pela visão
    e, que o despertar desses sentimentos foi recentemente retratado em filmes que apelaram para imagens pornôs (a cor azul das ninfos e outros lixos mais) causou, finalmente, uma reação no mundo critico e a obra brasileira competiu
    no momento certo,
    no lugar certo,
    com atores e jurados certos.
    Lotações esgotadas em São Paulo. Bravo ! No entanto, só dou nota 7,7 para o filme recomendável para todas as gerações e vertentes sensuais. Mas valeram os beijos dos ursinhos bem articulados !
    UNQUOTE
    Abs., Andrés

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