Os quatrocentos golpes

18 abr

1O melhor na programação do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, a exibição da cópia restaurada do clássico de François Truffaut, “Os incompreendidos” (“Les quatre cents coups”, 1959), filme que historicamente inaugurou o movimento de cinema a que se deu o nome de Nouvelle Vague.

Achei ótimo que a sessão tenha sido no domingo à tarde, pois foi numa tarde de domingo que vi o filme de Truffaut pela primeira vez… meio século atrás, puxa vida, e é dessa primeira sessão que guardo minhas melhores impressões. Em que cinema o vi? No Cine Brasil, ali na Guedes Pereira, em frente ao antigo Grupo Tomás Mindelo.

Lembro que saí do cinema perturbado. Primeiramente era algo diferente do modelo hollywoodiano a que eu estava acostumando, na maior parte dos casos, filmes de finais felizes, principalmente se o assunto fosse crianças. Em segundo lugar, eu era o próprio Antoine Doinel da estória contada. Bem entendido: nunca fugi de casa, nem roubei máquinas de datilografia, mas, como não me identificar com esse garoto que quase tinha a minha idade, e não tinha a compreensão (Conferir título brasileiro) de ninguém ao redor de si? Esse garoto que dava menos golpes (Conferir título original: ´Os quatrocentos golpes´) do que os recebia, na escola, na família e na sociedade.

Hoje todo mundo sabe que Truffaut foi biográfico ao rodar “Os incompreendidos”, porém, o que interessa é que fez um dos primeiros filmes, na história do cinema, a enfrentar o problema da adolescência (quase infância) sem dourar a pílula.

Furtando uma máquina de datilografia

Furtando uma máquina de datilografia

Vejam a tocante cena final, que, aliás, nunca saiu de minha cabeça, desde a sessão do Brasil. Fugido da Casa de Reabilitação, o garoto corre sem destino pelos arredores, até se deparar com o mar que ele nunca tinha visto. Diante da imensidão das águas, ele pára e, sem saber para onde ir mais, se desloca de novo, agora em nossa direção, quando a câmera congela a imagem do seu rosto desencantado e… FIN. O que vai ser de Antoine Doinel? Será que vai, como Truffaut, encontrar o pai num estranho (André Bazin, a quem o filme é dedicado) e assumir a vida de cinéfilo brilhante? Ou vai voltar à prisão e seguir uma carreira de marginal? Num miniconto brincalhão que escrevi para homenagear o filme (Cf o livro “Um beijo é só um beijo”) imagino, esperançoso, a primeira hipótese.

Para quem não conhece, reproduzo um trecho do miniconto, como se perceberá, todo narrado em primeira pessoa verbal, a voz do protagonista Doinel:

Morávamos num apartamento modesto, sem elevador e com três lances de escada que eu era, toda noite, obrigado a descer e subir para depositar o lixo lá embaixo, e, imposta por minha mãe, essa obrigação era uma das formas que ela tinha de expressar seu desamor. E então, depois daquele dia em que a avistei se beijando com seu amante, em recinto público… De início, temeu que eu fosse contar a meu pai e ficou uns tempos se desdobrando em amabilidades comigo, para depois retornar a uma hostilidade ainda mais dura.

Não sei se era esse clima ruim em casa que atrapalhava o meu desempenho na escola. Não me entendia com os professores e, logo cedo, passei a gazear aulas para vagabundear pelas ruas. Quando tinha grana, me metia no escurinho de algum cinema e via um filme atrás do outro. Foi nessa época que criei o hábito de furtar as fotos dos filmes, expostas nas paredes dos cinemas, e colecioná-las.

Em fuga e sem destino

Em fuga e sem destino

Uma vez disse na escola que tinha faltado porque minha mãe havia falecido, e quando ela apareceu lá, vivinha da silva, foi um horror. Essas escapadas foram se tornando cada vez mais freqüentes, até que fugi de casa de vez e passei a morar, às escondidas, na casa de um colega de turma tão desajustado quanto eu. Um dia roubamos – nem lembro mais para quê – uma máquina de datilografia da repartição de meu pai e, ao tentar devolvê-la, fui pego. Por causa desse roubo, fui parar no Reformatório de Menores, de onde um dia fugi e, sem saída, concluí o itinerário de minha fuga no mar. Quando não tinha mais para onde correr, fui capturado e cumpri a pena.

Hoje, já de maior, subempregado, vivo me enfiando, toda vez que posso, numa sala de projeção. Nunca parei de furtar fotos de filmes, e minha coleção já é enorme. Dei em freqüentar cineclubes, pois não há nada que ame mais que o cinema. Na verdade, meu sonho secreto é ser cineasta. Bem que já é tempo de minha sorte mudar. Cinéfilo como sou, fico imaginando que eu seria descoberto por algum figurão do mundo do cinema, que me daria apoio e chance de desenvolver meus potenciais. E, aí, eu lutaria por recursos para fazer um filme. Poria tanto amor em cada tomada, em cada plano, em cada posição de câmera… Não iria querer ganhar o Festival de Cannes, nem fundar um novo movimento de cinema em meu país; iria só querer expressar meu amor pelo cinema e contar uma estória, a minha.

Seria talvez um filme triste, mas honesto e humano, profundamente humano.

Por trás das grades

Por trás das grades

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2 Respostas to “Os quatrocentos golpes”

  1. Vitória Lima abril 18, 2014 às 1:55 pm #

    Senti não poder tê-lo visto. Gostei muito do seu comentário e de reler o miniconto. thanks. Vic

  2. fatimaduques abril 19, 2014 às 3:15 pm #

    João, mesmo sem ter revisto o filme, gostei de ler seu delicado texto. Você é destes que põe tanto amor quando escreve que consegue com isso expressar seu amor pelo cinema que faz parte, sem dúvida, de sua história pessoal. Isso é ótimo para quem gosta de cinema.

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