Futebol de Butão

26 jun

Atenção, caro leitor, antes de algum malentendido, o título deste artigo está gramaticalmente correto! “Butão” (com “u”) não é nome de objeto, e sim, de um país asiático, cenário do filme que aqui comento.

Pois é, sobre as altivas encostas do Himalaia, imprensado entre o norte da Índia e o sul do Tibete, está o reino de Butão, um país tão diminuto que o trocadilho de seu nome com o termo português de que é parônimo (‘botão’) não seria fora de propósito: sua área total é de 47 mil km quadrados, ou seja, nove a menos que o estado paraibano.

Tão pequeno que nem produção cinematográfica tem. Ou melhor, não tinha até algum tempo atrás, quando o monge Khyntse Norbu resolveu levantar fundos para rodar o que seria, e foi, o primeiro filme butanês da História, A copa (Phörpa, 1999). Com alguns contatos na longínqua Austrália (co-produção) e um orçamento mínimo, roteirizou uma estória verídica, por ele testemunhada num convento budista.

E o que pode acontecer num convento budista, se não, muita meditação e pouquíssima atividade?

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Nada disso. Os monges não são assim tão paradões como se poderia pensar. Às escondidas dos superiores adoram, por exemplo, bater uma peladinha nos arredores do convento e, como não dispõem de bola, uma lata vazia de coca-cola (!) resolve o problema. Para ser franco, adoram futebol e a estória verídica de Norbu acontece justamente durante a Copa do Mundo de 1998.

Alguns deles, mais fanáticos e mais corajosos, escapam do convento à noite para as vizinhanças onde assistem aos jogos da Copa num televisor coletivo. Quando isso não é mais possível, se desesperam, principalmente agora que se aproxima o dia do jogo final, entre França e Brasil. O jeito é se cotizar para alugar um aparelho de TV, com antena parabólica e tudo mais: só que, antes disso, precisam da autorização dos superiores, sobretudo a do Damai Lama.

De roteiro simples, para não dizer singelo, o filme desenvolve essas providências e seus inúmeros atrapalhos, passeando, sempre com humor, nas fronteiras entre devoção religiosa e paixão futebolística. Quando o abade, a pedido dos monges, vai solicitar ao velho Dalai Lama a autorização para o aluguel da TV, este pergunta o que vem a ser futebol. “Uma luta entre países por uma bola”, é a resposta. E ele, admirado, indaga: “Mas há violência? Há sexo?” Só depois disso o consentimento é dado, e no dia do jogo final, quando o próprio Dalai Lama se põe diante do vídeo de TV, o seu rosto curioso e estarrecido já é um show à parte.

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Naquele dia fatídico o Brasil perdeu para a França (vocês lembram!), mas no filme de Norbu seria o caso de se perguntar quem ganha a partida, se o budismo ou o futebol.

A considerar a estória privada do protagonista parece que a vitória vai mesmo para o primeiro. O jovem Orgyen (o ator Jamyang Lodro), autor da idéia do aluguel do aparelho televisivo, não consegue assistir ao jogo em paz, simplesmente porque forçara um novato a emprestar uma jóia de estimação, doada pelo pai, que no caso foi penhorada, e será vendida se a quantia total do aluguel não for arrecadada até o dia seguinte. Em dado momento, abandona, desesperado, a sala do jogo e vai cascavilhar, no seu quarto, os seus próprios pertences, em busca de algo que complete a despesa. Descoberto pelo abade, a quem tem que explicar o problema, ouve deste duas frases com uma conseqüência: “Você é um péssimo comerciante”. “Será um grande monge”.

Ao se pensar que todo o elenco é formado de monges amadores e que esta foi a primeira empreitada de Khyentse Norbu, não dá para não simpatizar imensamente com um filme em que futebol e budismo não são as únicas paixões: cinema também. No caso, um cinema (aparentemente?) inocente, com aquela delicadeza de gestos que só os asiáticos conseguem ter. Como o assunto é indiretamente o Tibete, o espectador pode lembrar de filmes recentes como Kundun (1997) e Sete anos no Tibete (idem), porém, o estilo parece menos com qualquer coisa feita em Hollywood e muito mais com essas películas de roteiro mínimo advindas, por exemplo, do Irã.

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Uma cena sintomática: durante o jogo falta energia elétrica e os monges, por falta de outra opção, se divertem contando estórias com sombras nas paredes. Um deles começa a contar a estória de um coelho, quando a energia volta e o jogo prossegue. No desenlace, passada a Copa e retomada a tranquilidade da vida no Convento, um dos monges pergunta como teria terminado a estória do coelho. “Não sei por que as pessoas são tão obcecadas por finais”, responde o seu interlocutor. “o final não conta: o que interessa é o processo”.

Como se vê, uma máxima budista, não sei até que ponto aplicável ao futebol. De todo jeito, aplicável ao filme.

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Uma resposta to “Futebol de Butão”

  1. Humberto Pedrosa Espinola junho 30, 2014 às 12:11 pm #

    Caro João
    Eu (que sou um entusiasta pelo jogo “Botão” ou “Futebol de Botões”) tive – há alguns anos – a oportunidade de ver essa curiosidade: o primeiro (e único?) filme produzido no Tibete, reino do Butão.
    Fiquei maravilhado com a singeleza e “bom astral” da produção. É um filme que não teve a pretensão de ganhar a “Palma de Ouro”de Cannes, mas que é muito bem sucedido, inclusive nas atuações atores amadores, todos monges (?). O filme (e as situações que contém) transpira uma ingenuidade que me faz pensar sobre como devia ser e o o que deve ter existido nas cidades do sertão paraibano nos anos cinquenta… Belo filme!

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