Um homem, uma mulher: “jamais vu”

4 ago

Em meados dos anos sessenta, com seis fracassos de público e crítica nas costas, o jovem cineasta Claude Lelouch estava andando, meio desiludido, pelas calçadas litorâneas de Deauville, Norte da França, quando avistou, ao longe, uma jovem senhora e sua filha pequena que, alegres e saltitantes, brincavam nas areias da praia.

Bem agasalhadas do frio, as duas pareciam curtir a tarde e, mais que isso, a companhia uma da outra. A alegre cena, cheia de rodopios e risadas, estimulou a imaginação do cineasta que passou a se indagar o que poderiam estar fazendo ali, quase únicas na paisagem, aquelas duas. E aí foi preenchendo o que não sabia por conta própria: a mulher bem que poderia ser viúva, e a filha, aluna do Orfanato local, por isso só se viam em fins de semana, quando a mãe vinha, de Paris, apanhá-la.

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Conta a lenda – e o cineasta a reforça – que foi daí que nasceu o roteiro de “Um homem, uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), o filme que, depois dos fracassos iniciais, deu novo rumo à carreira de Lelouch.

Nascido em Paris, em 1937, Lelouch aprendeu a gostar de cinema ainda criança, durante a guerra, na Paris ocupada, quando, judeu de origem que era, se refugiava dos alemães nas salas escuras dos cinemas.

Ao crescer, não deu outra. Entrou no métier logo que pôde, primeiramente como cameraman de atualidades e depois como co-autor de curtas publicitários.

Em viagem à URSS, em 1957, Lelouch caiu um dia, por acaso, num set de filmagem do cineasta Mikhail Kalatozov, e pôde então vivenciar de perto a efervescência do cinema russo que, naquele tempo, depois da morte e devassa de Stalin, já chamava a atenção do mundo, com filmes como “O quadragésimo primeiro”, “Quando voam as cegonhas”, “A balada do soldado” e outros. Foi nesse dia que Lelouch decidiu ser realizador de longas de ficção.

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Anouk Aimée e Jean-Louis Trinttingnant

Mas, voltando à cena na praia de Deauville, com certeza naquela ocasião a tristeza de Lelouch tinha a ver com as fortes reações negativas da crítica a seus filmes de início de carreira. Uma dessas críticas foi, mais tarde, chamada por ele próprio de “assassina”.

“Souvenez-vous bien de ce nom: vous n´en entendrez plus jamais parler”. “Lembrem-se bem deste nome: vocês nunca mais ouvirão falar dele”. Foi com esta frase cruel que, em 1963, a revista de cinema “Cahiers du Cinéma” tentou descartá-lo do cenário cinematográfico.

Ironia do destino – quatro anos mais tarde, em 1967, Lelouch ganharia a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original por seu novo filme – justamente aquele nascido em Deauville. Na França e em todo o mundo era só o que se escutava e do que se falava, do filme “Um homem, uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966).

A intimidade e a lembrança do luto

A intimidade e a lembrança do luto

De cara mexendo, o pessoal dos “Cahiers” quis voltar atrás e, na imprensa, François Truffaut ousou sugerir que “Um homem, uma mulher” se enquadrava no espírito da Nouvelle Vague, movimento de cinema, como se sabe, saído do seio da revista que criticara Lelouch. Dando o troco à altura, na mesma imprensa, Lelouch peremptoriamente declarou que seu filme não tinha nada, absolutamente nada a ver com a Nouvelle Vague.

Desde então ficou comprada a briga entre Lelouch e a crítica de uma maneira geral, briga que faz o cineasta jogar farpas famosas do tipo: “Um dia farei um filme para os críticos – quando tiver dinheiro para perder”.

A carreira de Lelouch deslancharia vertiginosamente depois do estrondoso sucesso de “Um homem, uma mulher”, e a frase dos Cahiers ficou registrada, no anedotário cinematográfico, como uma das grandes mancadas da crítica. A filmografia do cineasta já contém mais de cinqüenta títulos e seu nome há muito consta entre os grandes realizadores de seu país.

Só uma estória de amor...

Só uma estória de amor…

Para o bem ou para o mal, existe um “estilo Lelouch” e ele já estava todo prometido em “Um homem, uma mulher”: câmera móvel, em muitos casos, na mão ou no ombro, diálogos improvisados, voz over para as revelações mais íntimas dos personagens, flashbacks com imagens narradoras, no lugar dos diálogos, visual de clips publicitários, ritmo preso a uma trilha musical generosa, uso cronológico das cores… são alguns desses traços de estilo.

No caso de “Um homem, uma mulher” o enredo não poderia ser mais exíguo – talvez o único dado que difere da filmografia posterior do cineasta: um viúvo parisiense que, todo fim de semana, vai pegar o filho pequeno num orfanato em Deauville, conhece uma viúva que sempre vai pegar a filha no mesmo local. Um dia ela perde o trem, ele lhe dá carona e a amizade está garantida, logo virando amor. No primeiro encontro íntimo, os dois aprendem que o luto não passa fácil e que precisam de delicadeza para contorná-lo.

O jovem Lelouch nas filmagens de "Um homem, uma mulher"

O jovem Lelouch nas filmagens de “Um homem, uma mulher”

À simplicidade do enredo corresponde a simplicidade da forma. Nada de angústias existenciais, filosóficas ou metafísicas, apenas as angústias das pessoas comuns; nada de experimentos formais inovadores, salvo os que os espectadores comuns tenham condição de acompanhar e aceitar. Nesse sentido, a trilha sonora principal, é exemplar, com sua batida simples e sua melodia delicada. Embora já consagrados, os atores Jean-Louis Trintingnant e Anouk Aimée dão interpretações despojadas, como se vivendo a estória de verdade. O tom geral do filme, se não é eufórico, é alegre, como a mulher e a criança avistadas nas areias de Deauville. E o final, claro, tinha que ser feliz.

Não me recordo como a crítica doméstica reagiu a “Um homem, uma mulher”, mas lembro bem que o público adorou o filme, em especial, o seu lado brasileiro, com o emprego da música “Samba Saravá” de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Apesar da ditadura, era aquela uma época em que o Brasil estava em evidência, com a bossa nova, o futebol, o cinema novo, as misses, o boxe, a arquitetura de Brasília, etc, e a parcela brasileira do enredo massageava o nosso ego.

A crítica que se faz hoje a Lelouch é que ele redunda temas e fórmulas narrativas e plásticas, dando a impressão de estar, há décadas, rodando o mesmo filme. Desde o mega-sucesso “Retratos da vida” – e talvez antes – que os seus filmes são tachados pela crítica mais hostil com o rótulo de “dejà vu”

Pode até ser verdade, mas, quanto a “Um homem, uma mulher” ainda hoje parece “jamais vu”.

 

Em tempo: esta matéria foi apresentada no Cineclube “Usina Lumière”, em João Pessoa, em 21 de maio de 2014, quando da exibição de “Um homem, uma mulher”.

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6 Respostas to “Um homem, uma mulher: “jamais vu””

  1. Fatima Duques agosto 4, 2014 às 5:09 pm #

    Ah, João, esse filme fez parte do imaginário de muita gente que gosta de histórias de amor sem muitos rebuscamentos, como são as verdadeiras, se bem que, como a maioria de todas elas, parou no ponto exato pra deixar todo mundo feliz. Essa é uma das delicadezas de filmes assim.

  2. Carmélio Reynaldo Ferreira agosto 4, 2014 às 6:55 pm #

    João, a música de Baden e Vinícius, que na trilha é apresentada como “Samba Saravá”, salvo engano é o “Samba da Benção”.

  3. Gilberto de Sousa Lucena agosto 4, 2014 às 11:06 pm #

    João,

    Esse singelo e belo trabalho de Claude Lelouch me comove de modo especial. Ainda não tinha conhecimento acerca de como o filme foi originalmente concebido, a partir do momento presenciado na praia de Deauville por seu realizador. É a percepção e sensibilidade do artista flaneur em captar a poesia que o cerca em seu prosaico cotidiano. O diretor francês, apesar da incompreensão da crítica do pessoal dos Cahiers na época, escapou daquele tom geralmente cerebral da Nouvelle Vague (em produções de Resnais e, principalmente, Godard), nos oferecendo uma competente aula de cinema – inclusive, em certo sentido, inovando a técnica cinematográfica que há quase 50 anos se revestiu com atrativos imagéticos, sem esquecer sua pertinência em relação ao enredo. Toda vez que escuto a inesquecível música tema do filme me emociono. Que beleza, que poesia sonora tocante! O casal apaixonado não poderia ser mais perfeito. As imagens produzidas por Lelouch e a temática do filme são comoventemente realistas, poéticas e acabam impregnadas em nossa mente para sempre. Parabéns, pelo seu ótimo e esclarecedor artigo.

    Gilberto

  4. Humberto Pedrosa Espinola agosto 20, 2014 às 1:31 pm #

    Caro João
    “Cha-ba-da-ba-daa…”
    Parabéns por mais essa ótima rememoração, para mim muito especial, pois “Un homme et une femme/Um homem e uma mulher” tem um lugar destacado no meu universo cinematográfico existencial… E uma das razões é a trilha musical, e quando você nos pediu uma lista das dez melhores trilhas musicais no cinema – dificílima tarefa, por sinal – eu a inclui, não só pelo famosíssimo tema principal de Francis Lai, mas por “Samba Saravah”/”Samba da Benção”, de Baden e Vinicius e tantas outras.
    Algumas observações me ocorrem:
    – A longa trajetória de Lelouch para mim tem altos e baixos. destaco alguns belos filmes, além do já citado, “Vivre pour vivre”(feito no ano seguinte, 1967); “L’aventure c’est l’aventure’ (1972); “La bonne année”(1978);”Itineraire d’un enfant gaté”(1988);
    – Não sei se você viu (eu não ví), mas Lelouch realizou em 1986 “Un homme et une femme vingt ans déjà”;
    – Acho que um dos destaques em sua filmografia é o clássico “Les uns et les autres/Retratos da vida” (1980), onde Lelouch é muito bem sucedido ao entrecruzar várias histórias e vários personagens para reuni-los no final, causando muita emoção a nós, espectadores (e fez isso em vários outros filmes);
    – Também ouvi dizer que em 2006, comemorando os quarenta anos de “Un homme et une femme”, a célebre sequência do encontro de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant na praia de Deauville foi refilmada, só que envolvendo uns dois mil casais !;
    – E, finalmente, não sei se você assistiu um dos filmes mais recentes de Lelouch – “:Ces amous-là”(2010), onde há uma longa e emocionante sequência (de uns quinze minutos) de homenagem ao cinema !

    Mais uma vez, os parabéns, e …Cha-ba-da-ba-daa !
    Humberto

    • João Batista de Brito agosto 21, 2014 às 12:27 pm #

      Sim, Humberto, vi há pouco o “Ces amours-là”, muito legal. Obrigado pelo comentário. João.

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