“O mercado de notícias”

12 set

Antes da existência da imprensa eram os mensageiros os responsáveis pela transmissão das notícias, esses verdadeiros ´moleques de recado´ da antiguidade, que percorriam distâncias para levar informação aos interessados.

Um mensageiro vagaroso podia provocar tragédia, como foi o caso daquele que, correndo entre Verona e Mantua, não chegou a tempo de avisar a Romeu sobre o entorpecente ingerido por Julieta. Conta-se que, no antigo Egito, a rainha Cleópatra castigava com chicotadas nas costas os mensageiros que lhe traziam notícias ruins, e agradava com prendas, quando as notícias eram boas.

Gutenberg mudou tudo, e já no século XVII os jornais tomaram o lugar dos vetustos mensageiros, despejando notícias a quem quisesse recebê-las, ou não. Rápido os jornais viraram empresas poderosas e, em 1625, o escritor inglês Ben Jonson já encena sua peça “The Staple of News”, satirizando o poder da imprensa no mundo.

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Pois é essa peça inglesa, tão pouco conhecida entre nós, que serve de pretexto para o filme de Jorge Furtado “O mercado de notícias” (2013), em cartaz na cidade e no país.

O filme se apoia nos dois pilares do cinema, a ficção e o documento, para discutir o mesmo tema: a imprensa e seu papel na sociedade. Assim, cenas da peça de Jonson se intercalam a depoimentos atuais de jornalistas brasileiros. Eu disse dois pilares, mas talvez sejam três, pois o cineasta inclui, no corpo do filme, cenas metalinguísticas de bastidores da produção.

Notícia, fato, mentira, verdade, parcialidade, jornalista, jornalismo… os tópicos vão se sucedendo, introduzidos por legendas e discutidos pelos profissionais da área, e/ou ilustrados por cenas da peça. Praticamente, todas as grandes questões atinentes à imprensa aparecem, algumas exemplificadas com casos locais, dos quais menciono dois:

Aquela bolinha de papel que, durante a campanha para Presidente, atingiu a careca de José Serra e, incrivelmente, o levou ao hospital, como se se tratasse de um grave atentado dos adversários. Ou o caso daquele quadro comprado pelo INSS de Brasília, e lá ainda hoje exposto, como um autêntico Picasso, quando não passa de um pôster do original, este perfeitamente visitável no Museu Guggenheim de Nova Iorque.

A cobiçada Pecúnia

A cobiçada Pecúnia

Inevitavelmente, o tópico mais quente na pauta do filme é a questão do até que ponto o jornalista reproduz fielmente o fato noticiado… ou o ´retoca´ e, eventualmente, o deforma. Também inevitavelmente, o último item discutido (denominado “revolução”) tinha que ser o novo rumo que tomam as coisas com o advento da Internet – fator tecnológico tão novo e inquietante hoje quanto o foi a imprensa escrita nos tempos de Jonson.

Aliás, além de demonizar os jornais da época, a peça de Jonson tinha um plot próprio, sobre a família Pennyboy (o sobrenome já diz tudo) e seu ardiloso intento de desposar a bela Pecúnia (outro sobrenome óbvio). Como, no filme de Furtado, a peça não é encenada em sua compleição, esse plot fica obscuro e confuso para o espectador que desconhece o original.

Outra coisa: gostei do filme, inteligente e – como a peça de Jonson – irônico, porém, francamente, não vejo por que o cineasta se absteve de fazer referências cinematográficas, que, creio eu, tornariam o filme mais interessante do que já é.

Por exemplo, uma que vejo como obrigatória num filme desses é a da famosa cena final de “O homem que matou o facínora” (John Ford, 1962), no momento em que o jornalista afirma que “quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda”. Acho que, na sequência em que se discute o problema da verdade na imprensa a famosa fala teria que ser mencionada.

Cena da peça dentro do filme.

Cena da peça dentro do filme.

A outra seria qualquer cena ou fala de “Última hora” (Lewis Milestone, 1930) e por quê? Ora, se a peça de Jonson foi a primeira na história do teatro e da literatura a tratar da imprensa, este filme, por sua vez, foi o primeiro a fazê-lo na história do cinema. Teria sido legal apontar o elo entre os dois começos.

Não sei que desempenho está tendo “O mercado de notícias” nos circuitos comerciais de exibição, mas, de uma coisa estou certo: sua cópia em DVD vai fazer o maior sucesso nos cursos de comunicação e jornalismo das universidades brasileiras.

E aproveito o ensejo para lembrar, a quem for usá-lo didaticamente – ou simplesmente a nossos leitores – outros filmes, além dos dois já citados, sobre a grande temática da imprensa, escrita, falada ou vista. Eis pelo menos dez títulos, em ordem cronológica:

Jejum de amor (Howard Hawks, 1940); Cidadão Kane (Orson Welles, 1941); A montanha dos sete abutres (Billy Wilder, 1951); Um rosto na multidão (Elia Kazan, 1957); A embriaguez do sucesso (Alexander McKendrick, 1957); A doce vida (Federico Fellini, 1960); Viver por viver (Claude Lelouch, 1967); A primeira página (Billy Wilder, 1974); Todos os homens do presidente (Alan Pakula, 1976); e Rede de Intrigas (Sidney Lumet, 1976).

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.

O cineasta gaúcho Jorge Furtado filmando.

 

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9 Respostas to ““O mercado de notícias””

  1. andrés von dessauer setembro 12, 2014 às 5:00 pm #

    Olá João,

    Neste século o Brasil não produziu mais que 5 filmes excelentes. O MERCADO DE NOTÍCIAS está neste rol desses consagrados. No entanto, a bilheteria não reflete a qualificação, pois todas cinco películas não conseguiram arrebanhar um público expressivo. Nos 2 primeiros dias que o filme estreou em JP (cidade na qual, por acaso, assisti 2 x o filme em dias diferentes) só haviam 7 e, respectivamente, 6 pessoas presentes das quais levei 3 e 2 espectadores. Apesar de o filme continuar, até hoje, no circuito comercial Rio / SP , aparentemente, a bilheteria reflete um desinteresse. Mas como é que pode também existir um interesse, se de 100 jornalistas, talvez só um é ‘investigativo’ ?? Como o ensino no Brasil é sofrível, não creio que exista interesse dos professores ou dos alunos assistirem esta obra que, surpreende não só pelo conteúdo, mas também por sua formatação. Concordo com você que o filme deveria ser obrigatório para qualquer tipo de ensino ligado ao vasto ‘mercado de notícias’ , mas desconfio que somos vítimas de um ‘wishful thinking’.
    Abs., Andrés.
    Quando em JP, final de setembro, exibirei e comentarei o canadense ‘INCÊNDIOS’ e o alemão ‘O TAMBOR’ no Estacine, Cabo Branco. Meus textos sobre os dois filmes serão publicado antes, na edição do jornal CONTRAPONTO,sexta-feira, 26.09.

  2. Emmanuel setembro 15, 2014 às 4:32 am #

    João, RE-thanks pelos ultimos posts, que just in case, adquiri os textos via Contraponto , em que posso riscar a vontade meu toc de marcar em technicolor ,feitiçaria que uma mãe de santo me garantiu que assimilaria como “originais”, e citados como tais, quando o autor já esquecera o escrito de cor e salteado.Friends são pra estas coisas , também. Pra remematar aos poucos, aproveitei a tal emergencia na Unimed, para um CHeque Up particular, para mais rapidamente vasculhar o resto do pré-corp(pse) adiado , do coração ao dedao do pé, incluindo os fios de cabelo restantes na carapaça craniana, isto é do cardio( ergométrico(), ao gastro(endoscopias,), ao nefro,tudopra avaliar meu prazo de validade, pois tenho muito a ler ainda sobre movies and as prazerosas, mesmo que conflitantes críticas, que apesar de me fazerem sofrer pelo débil discernimento, me dão inexcedível e masoquista estético-catártico prazer. Enquanto enfrento a cosa nostra de branco, me estressando com os resultados e taxas sanguiíneas de more or less bad blood, e suas superações transitórias, inclusive uma que decretou que tenho de caminharr,pra baixar e queimar as adiposidades sedentárias, acumuladas ao longo de setenta saltitantes e irresponáveis primaveras.Tou no meio do Cahiers sobr Hithc, devagar pelos motivos citados, e quando terminada a terepeutica leitura, lhe entregarei como o promis cadeau, asssim que ajustar os curto-circuitos da cachola à semilogia dos outros sistemas, nada a ver com os arca-Ismos dos nossos passe´ et présent récent. Passa a tormenta biológica da casal ( amulher já recuperada da dengue) tendo sobrado o setentão , pós reciclagem para tretomada de nossas cinefilomanias e novos capítulos de nossa já cronica friendship, esta ilesa diantes dessas mazelas acima patofobicamente recitadas, pelo que poço as mais ashamed excusas. Abraço, de epleon jr. Date: Fri, 12 Sep 2014 12:18:01 +0000 To: eponceleon@hotmail.com

  3. Jorge Furtado setembro 15, 2014 às 1:57 pm #

    Oi João Batista

    Ótimo texto, obrigado pelas referências ao filme.

    Sobre as citaçoes cinematográficas queríamos fazer, chegamos a montar o filme com elas (muitos dos filmes citados por ti) mas esbarramos nos direitos autorais, caríssimos.

    Fiz uma lista de 10 filmes sobre jornalismo, no meu blog.

    grande abraço

    Jorge Furtado

    • João Batista de Brito setembro 15, 2014 às 2:49 pm #

      Alô, Furtado, que honra ter uma resposta do autor do filme!
      Fico feliz em saber que vocês pensaram em fazer as citações.
      Vou visitar o seu blog.
      Tenho escrito sobre outros filmes seus. Recentemente, durante a Copa, fiz matéria sobre “Barbosa”, que pode ser lida aqui mesmo. neste blog.
      Abraço forte de João.

  4. Jorge Furtado setembro 16, 2014 às 2:00 am #

    Alô João

    aqui vai o link para o texto em meu blog:

    http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/eu-preciso-de-umas-aspas-suas

    grande abraço

    Jorge

    • João Batista de Brito setembro 16, 2014 às 12:30 pm #

      Obrigado, Furtado.
      Já li. Inevitavelmente, muitos dos nossos filmes sobre imprensa coincidem.
      Uma coisinha: estou agora mesmo, postando neste blog uma matéria minha sobre o centenário do seu grande conterrâneo Lupicínio Rodrigues. Queria que você visse, até porque lhe faço lá uma cobrança.

  5. Humberto Pedrosa Espinola setembro 16, 2014 às 1:24 pm #

    Caro João
    Abordagem de tema importante, espero ver o filme aquí em Brasília.
    Taí um tema interessante para um livro novo, onde você poderá aprofundar essa relação imprensa/cinema e comentar os filmes citados !
    Um grande abraço
    Humberto

    • João Batista de Brito setembro 16, 2014 às 6:13 pm #

      Obrigado, Humberto, pelo contato.
      O empreitada que você sugere é homérica. Quer matar o véi?
      Grande abraço saudoso. João.

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