O “deus ex machina” de Hitchcock

11 out

Na sua página do Facebook, o crítico Renato Félix está promovendo a “Copa Hitchcock”, em que, a cada semana, os seus friends escolhem um entre dois títulos do mestre do suspense. De par em par, as votações vão sendo feitas, cada uma com data de encerramento marcada… até se chegar a um resultado final: o filme campeão em toda a filmografia do autor.

Inspirada certamente pela Copa do Mundo, a brincadeira é interessante e revela, entre outras coisas, o quanto Hitchcock é um cineasta curtido por gerações diversas. Não faço ideia de que filme vai ganhar o campeonato, mas, hitchcockiano inveterado, quero aqui me congratular com Felix e seus eleitores, aproveitando a oportunidade para tratar de um aspecto da obra do Mestre que nunca vi analisado.

Nas encostas do monte Rushmore: Eva Marie Saint e Cary Grant

Nas encostas do monte Rushmore: Eva Marie Saint e Cary Grant

Refiro-me ao modo rápido, brusco, inesperado, geralmente cômico, como o velho Hitch costumava dar um término a maior parte de seus filmes. Vejam bem, eram filmes cheios de suspense e demorada tensão, porém, nos desenlaces, se concluíam da forma mais célere, sem tensão alguma, ao contrário, com muito humor, como se a dizer: vocês pensavam estar assistindo a um filme sério? Que nada: foi tudo uma brincadeira.

Acho que a melhor maneira de explicar é exemplificando, e o melhor exemplo está em “Intriga internacional” (1959).

Não vou recontar o enredo, mas só lembrar que nós, espectadores, acompanhamos por um tempo bastante longo toda a conturbada trajetória desse cidadão que foi confundido com um espião. No final, ele e sua namorada estão pendurados pelas unhas nas encostas dos Montes Rushmore, prestes a cair a qualquer momento, e deixar sem sentido tanto esforço de sobrevivência. Quando estamos certos de que o casal vai cair, a câmera faz um volteio e, miraculosamente, já os vemos dentro de um vagão de trem, sãos e salvos, ele tomando a mão dela, não mais para salvá-la da queda mortal, mas para puxá-la para si e fazer amor. A última imagem do trem penetrando o túnel é – como já se observou – um signo erótico.

Doris Day e James Stewart em "O homem que sabia demais"

Doris Day e James Stewart em “O homem que sabia demais”

A cena é um alívio para o espectador, não tenham dúvida, porém, convenhamos, essa mudança brusca no roteiro e cenário, com uma enorme elipse no meio, soa como um acochambro para terminar um filme longo e tenso.

É a esse acochambro que estou chamando, aqui, de o “deus ex machina” de Hitchcock.

A expressão latina – significando ao pé da letra ´deus de máquina´ – vem do teatro clássico, grego e romano, e denominava um certo mecanismo de que se fazia uso no final de certas peças daquela época, e que consistia em fazer pousar sobre o palco uma figura sobrenatural, geralmente divina, que oportunamente, tinha o poder de resolver todos os problemas que foram criados e não foram resolvidos no decorrer do espetáculo. Era a grande concessão que os antigos dramaturgos faziam ao seu público que – suponho – adorava.

Bem entendido, nos filmes de Hitchcock a figura do ´deus mecânico´ não possui representação gráfica, mas o modo miraculoso de promover o desenlace feliz é o mesmo. E, a gente pode dizer, esse deus mecânico não aparece na tela porque ele é o próprio Hitchcock.

Dois estranhos num trem em "Pacto sinistro"

Dois estranhos num trem em “Pacto sinistro”

Em “O homem que sabia demais” (1956) também temos, depois de muitas horas de sufoco, o mesmo deus mecânico fechando tudo de forma a mais conveniente e engraçada. Se vocês lembrarem bem, os amigos do casal representado por James Stewart e Doris Day são deixados no apartamento londrino – só deus sabe por quanto tempo! – enquanto a gente acompanha o problema do seqüestro do garoto e tentativa de assassinato do Ministro no Albert Hall. Ao voltar, o casal entra com o filho e do modo mais casual diz que demoraram porque Stewart foi pegar o garoto, como se nada demais tivesse havido. Uai, para o espectador que sofreu tanto com a busca desesperada da criança seqüestrada, o comentário parece piada…

Não tenho espaço para citar outros exemplos, mas a constatação é fácil de fazer: revejam seu Hitchcock e visualizem na mente esse caprichoso aparelho narrativo: o ´deus ex machina´ hitchcockiano. Na busca, não esqueçam os sapatos tocados (de novo!) ao final de “Pacto sinistro”, ou a revista de moda no final de “Janela indiscreta”. Aliás, neste filme a coisa é múltipla, se considerarmos todos os pequenos desenlaces em cada uma das janelas da vizinhança: para citar um caso único, a Srta Coração Solitário formando par amoroso com o compositor frustrado do apartamento de cima ao seu.

Para designar essa atitude autoral de dar uma solução agradável aos conflitos criados pela obra (geralmente, punição dos maus e recompensa dos vitimados) a literatura moderna, inventou a expressão “justiça poética”, atitude que no cinema clássico ganhou o nome mais vulgar de happy ending. Mas, na origem de tudo estão os gregos, com o seu providencial “deus ex machina”. Hitchcock que o diga.

Lisa lê a revista de moda enquanto o namorado cochila: "Janela Indiscreta"

Lisa lê a revista de moda enquanto o namorado cochila: “Janela Indiscreta”

 

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