Esquinas de Jaguaribe

29 nov

Tinha doze anos de idade e já trabalhava. Seus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a ele cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de seu corpo franzino lhe dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que lhe jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que lhe garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer seus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a sua mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Seu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ele ser aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebeu isso, ele mais se aplicou, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o seu direito de ir a cinema quando quisesse. Sua mãe era neutra, e seus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos 500 ou 800 réis que pagavam o ingresso.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e se mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando lhe incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema à sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era ele, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto ele, ávido de meter-se tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao seu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso lhe custava o peso das sacolas carregadas.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de sua modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, sua irmã mais velha, casada e residente em Sta Rita, aparecera e lhe pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir aos três.

Circos, lapinhas, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para ele, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Moreira Franco.

O cartaz de "Orgulho e paixão",

O cartaz de “Orgulho e paixão”,

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7 Respostas to “Esquinas de Jaguaribe”

  1. Evandro da Nóbrega novembro 30, 2014 às 12:29 am #

    Mais uma vez, JBB excele!… Digo, repito e redigo-o novamente: depois que João Batista de Brito começou a escrever crítica de Cinema (e olhe que já faz um tempão!), deixei de ler os demais críticos da área… Vá lá, vá lá: leio-os eventualmente, embora sabendo-os de altíssimo nível teórico. Mas o JBB, no mínimo, NO MÍNIMO, une conhecimento cinematográfico com estilo literário – e, então, é isto o que Vossas Cinefilescências vêem… Ainda por cima, este seu blog (assim como os artigos saídos no hebdomadário CONTRAPONTO) constitui-se numa autêntica aula permanente de Sétima Arte. É o que vos drizz & redrizz o veeeelho Druzz de guerra, o homem dos Zs e outras lettras dobraddas, vulgo Evambritto do Nobrejoaumbattysta… ooops, Evandro da Nóbrega. 😉

  2. João Batista de Brito novembro 30, 2014 às 1:37 pm #

    Obrigado, Evandro, por tudo, inclusive pelos exageros…
    Seu amigo, JBB.

  3. Gilberto de Sousa Lucena dezembro 1, 2014 às 1:32 pm #

    João,

    Nasci em Pombal, no alto Sertão paraibano, e lá vivi até meus 16 anos. Coincidentemente, o único cinema da cidade (o para mim monumental Cine Lux), que não existe mais, se localizava justamente em uma esquina – entre as ruas Jerônimo Rosado (onde residia) e a João Pereira Fontes. Ao ler seu artigo sobre os memoráveis cinemas de Jaguaribe, relacionando seu teor à minha história com o Cine Lux, fiquei a imaginar: que coincidência! Será que as esquinas são mais apropriadas para a instalação desses templos cinematográficos? Acho ser esta uma percuciente indagação. O que você me diz?

    Um abraço.

    Gilberto Lucena

  4. Marcelo Costa dezembro 1, 2014 às 3:29 pm #

    É muito bom, posso dizer, é uma honra, poder desfrutar desses artigos escritos pelo nosso João. Uma pessoa inteligentíssima, de um conhecimento profundo sobre a sétima arte e, que para mim, já falei para ele, é um dos meus ídolos (como é bom saber que ele está tão perto de nós). A breve conversa que tivemos sobre cinema me fez admirá-lo cada vez mais, me ensinando, dando alguns conselhos bastante pertinentes, tirando algumas dúvidas e me direcionando a tomar as decisões certas no meu caminho a seguir, obrigado João! Estaremos, nós amantes da Sétima Arte sempre a ti acompanhar! Um abraço! (Marcelo Costa).

  5. Águia Mendes dezembro 5, 2014 às 2:01 pm #

    João, gosto muito dos seus artigos. Porém quando você escreve sobre os cinemas de Jaguaribe, gosto em cinemaScope.

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