Foto (triste) do Brasil

26 fev

Nem tudo no Facebook é baboseira. Se tiver paciência, você pode encontrar alguma coisa de valor. Esta semana encontrei uma preciosidade: uma foto antiga da fachada de um dos cinemas que mais frequentei em João Pessoa, o Cine Brasil.

Foi no Brasil que vi grandes melodramas, como “Imitação da vida”; grandes westerns, como “Minha vontade é lei”;  grandes thrillers como “O salário do medo”; e mesmo lançamentos vanguardistas, como “Os incompreendidos”,  do nouvellevaguiano François Truffaut…

Fachada do Cine Brasil, final dos anos sessenta.

Fachada do Cine Brasil, final dos anos sessenta.

A foto, na verdade, é triste, pois é do tempo – final dos anos sessenta, começo dos setenta – em que o Cinema Brasil já estava decadente, aquela fase tão bem retratada no famoso poema de Sérgio de Castro Pinto “Cine Brasil, matinée das moças” em que o termo ´moças´, para designar as frequentadoras, é uma ironia, e a /projeção/ não era de filmes, mas “de mãos por entre pernas”. E, mais irônico ainda, o poeta se vale de outro poeta, Manuel Bandeira, para concluir: “tão Brasil”.

A foto não tem data, mas, chega-se facilmente a sua época, pelas fichas técnicas dos filmes em cartaz, todos eles produções de 1968. Aliás, o título do filme do dia parece melancolicamente emblemático, se levarmos em conta que 68 foi o ano do AI-5, ato institucional a partir do qual a ditadura tomaria vulto de pavor. Sim, o título do filme é “Chegou o tempo de matar”, nada mais apropriado para sugerir a era de terror que se instaurava com a gestão de Garrastazu Médici, o ditador que tomaria posse no ano seguinte.

O filme (no original “E venne Il tempo di uccidere”, de Enzo de L´Aquila) é apenas um daqueles faroestes spaghetti que a Itália então produzia aos montes, mas, lido agora, na fachada do cinema naquele ano fatídico, como não associar esse título à situação política brasileira da época? Na foto, “Chegou o tempo de matar” era o programa do dia, e, para a quinta-feira próxima, estava anunciado outro filme de título igualmente sintomático: “Os impiedosos”, convenhamos, palavra cabível – se me for permitido permanecer na triste isotopia política – aos torturadores nos porões da ditadura.

Algum tempo atrás, um jornalista carioca já lembrara uma coincidência da mesma ordem: em 13 de dezembro de 1968, a data do AI-5, os cinemas do Rio de Janeiro exibiam o filme “A noite dos generais”. De forma que as associações que aqui faço não são de todo gratuitas, ou, se o são, ao menos não estou só nessa viagem.

Mas, concentremo-nos na foto.

Cine Brasil

Com certeza, era um dia de semana, pois a calçada da Guedes Pereira está apinhada de transeuntes. Algumas pessoas estão paradas, talvez decidindo se compram ingresso ou não, ou simplesmente fazendo da calçada um ponto de encontro; outras estão de passagem, subindo a ladeira ou descendo, algumas sequer notando os cartazes dos filmes.

Do lado direito de quem olha a foto, – o esquerdo do prédio, portanto! – duas moças conversam com rapazes ou adolescentes, talvez as “moças” referidas no poema de Castro Pinto. Do lado esquerdo da foto, enquanto uma senhora com criança, de costas para nós, olha os cartazes por trás do gradeado, um jovem casal confabula com certa intimidade, possivelmente com as mesmas intenções dúbias daqueles do lado direito.

Crianças se aproximam do local, uma delas puxando uma bicicleta, enquanto um rapaz de camisa branca, com estampa destacada, está escorado no encosto de ferro que protege uma das bilheterias do cinema, aquela que está fora de uso. Talvez o rapaz esteja esperando o início da próxima sessão – de qualquer forma, ele é o único de frente a nós, o único que pode estar vendo o autor da foto em ação. Na bilheteria em funcionamento, do lado direito da entrada do cinema, ninguém comprando ingresso. O restante das figuras são os transeuntes casuais que passam apressados. Na fachada do prédio, as sombras, inclinadas, se projetam no sentido oeste/leste, o que significa que a foto foi tirada à tarde, provavelmente entre quatro e cinco horas.

Fica a pergunta: quem terá sido o fotógrafo que teve a iniciativa, e por que a teve? Afinal de contas, os filmes em cartaz nem relevantes eram… Ou será que lhe passou pela cabeça, então, o que passou pela minha ao ver a foto hoje?

Uma coisa é certa: segundos sentidos à parte, esse fotógrafo bem que poderia ter sido mais sistemático no seu trabalho, e hoje nós teríamos o que nos falta: fotografias, externas e internas, de todos os cinemas da cidade, digo, todos os catorze cinemas pessoenses que sobreviveram até os anos sessenta/setenta.

Com a vantagem, talvez, de que nem todas as fotos seriam tristes como esta.

Cine Brasil

 

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4 Respostas to “Foto (triste) do Brasil”

  1. Simone Carneiro Maldonado fevereiro 26, 2015 às 1:17 pm #

    Grata, João Batista, por este post. Pela ida ao cine Brasil. Peguei todos. Brasil, Rex, Plaza, (O Municipal veio depois mas também conta), Santo Antonio (Jaguaribe). E junto com as salas, as afetividades, os horários, os drops (lembra dos drops? Tinha de menta e de frutas). Os filmes que foram parte de nossas vidas. Já me subscrevi no blog. Até!

  2. Marcelo Costa fevereiro 27, 2015 às 1:19 am #

    João! Um fato interessante. No começo da minha paixão pela Sétima Arte, eu já frequentava os principais cinemas da cidade( Plaza e Municipal) tinha vontade de assistir pelo menos um filme no Cine Brasil. E antes que ele fechasse definitivamente eu consegui realizar e matar minha curiosidade dentro do cinema, e o filme: Capitão Jack (com Charles Bronson) matinal – 10:00 Saudades.

    • sérgio de castro pinto maio 8, 2016 às 2:05 am #

      beleza, joca, a sessão nostalgia!

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